Blog do Dad Squarisi

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Dupla que confunde

Por Dad Squarisi

Recado

“É fácil trocar as palavras. Difícil é interpretar os silêncios.”

Fernando Pessoa

O noticiário da semana? Foi a greve dos caminhoneiros. À medida que a paralisação ganhava força, jornalistas procuravam explicações e novidades. Convocados, analistas faziam previsões. Ao responder à pergunta se era possível haver queda no preço dos combustíveis, um deles respondeu: “É possível, mas não provável”. Telespectadores ficaram confusos. Afinal, o preço vai cair ou não?

Jogar luz sobre a questão exige entender a diferença entre possível e provável. Possível é o que pode ocorrer ou ser feito. Há possibilidade? Então é possível. Provável, o que deve ocorrer, que apresenta probabilidade de ocorrer: Sem estudar, é possível passar no vestibular de medicina, mas não provável. É possível, mas não provável, que eu ganhe a MegaSena. Se ele se nega a apostar, não é possível ganhar na loteria.

É isso. Parecido não é igual. Mas dá nó nos miolos.

 

De cima e debaixo

“Sob pressão, Petrobras reduz o preço do diesel” foi a manchete do Correio Braziliense de quinta. Nota 10. Por quê?

Sob indica posição inferior, debaixo de: Escondeu o dinheiro sob o tapete. Trabalha sob as ordens do general. Havia corpos sob os escombros.

Sobre quer dizer em cima de, em relação a, a respeito de: Pôs os livros sobre a mesa. Sobre o assunto nada informou. Falou sobre a greve dos caminhoneiros.

 

Por falar em sobre...

Com hífen? Sem hífen? Sobre joga no time da maior parte dos prefixos. Pede o tracinho quando seguido de h ou de e (para evitar letras iguais). No mais, é tudo colado como unha e carne: sobre-humano, sobre-escada, sobressair, sobreimpresso, sobrealimentado.

 

Redução

“Os fatos levaram à redução do preço do diesel”, escreveu o jornal. Curioso, o leitor fixou o olhar no ç. Depois, perguntou por que a letrinha exótica estava lá. No lugar dela, podiam figurar os dois ss. A pronúncia se manteria.

É que o português não é filho de robô. E, porque não é filho de robô, tem pai e mãe. Tem regras. Os verbos terminados em -uzir formam substantivos grafados com ç. É o caso de reduzir (redução), produzir (produção), seduzir (sedução), conduzir (condução).

 

Medão

O verbo da vez? É faltar. A paralisação dos caminhoneiros fez os brasileiros tremerem nas bases. Combustível podia sumir das bombas. Remédios desaparecerem das farmácias. Comida escassear nos supermercados. O noticiário espalhava terror. Não pelas informações, mas pelos maus-tratos na língua. Era um tal de “falta frutas”, “faltou medicamentos”, “faltou táxis”. Cruz-credo.

Olho vivo! O dissílabo tem o hábito pouco saudável de armar ciladas. Quando o sujeito vem depois do verbo, o danado dá a impressão de que se trata do objeto. Aí, não dá outra. Descuidados tropeçam na armadilha. Como escapar? Basta pôr o sujeito na frente do verbo: Frutas faltam. Faltam frutas. Medicamentos faltaram. Faltaram medicamentos. Táxis faltaram. Faltaram táxis.

 

Sem confusão

Germano não é gênero humano. Faltar é verbo. Falta, substantivo. Ao falar na falta de, nada de flexão: falta de combustível, falta de combustíveis, falta de recursos, falta de amigos, falta de boas notícias.

 

 

Leitor pergunta

Qual a letra com maior número de pronúncias em português? Essa curiosidade me acompanha há tempos.

Carlos Marcelo, Porto Alegre

É o xis. Em certas palavras, pronuncia-se ch (enxoval). Em outras, z (exame). Em outras, ainda, s (excelência). Chega? Não. Há os casos em que a gloriosa soa ks (táxi). Ufa!

 

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