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Ah, se o asfalto falasse!

Por Neivo Zago
Foto Divulgação

                                                       Ah, se o asfalto falasse!

                                                                                                                      Neivo Zago

Se fosse possível personificar as coisas materiais que nos rodeiam e lhes dar voz certamente ouviríamos delas o que não gostaríamos. Um exemplo bem real e presente no nosso dia a dia: o asfalto.

Eu sou o asfalto. Quem não me conhece? Quem por mim não transita ou alguma vez já transitou e sentiu leveza e comodidade? Eu sou sinal do progresso; acelero o transporte; facilito as ligações entre as cidades e encurto distâncias entre comunidades.. Os que não podem fazer uso de mim se lamentam porque minha finalidade é facilitar a vida de todos os motoristas e carros que por mim transitam. Sou a diferença entre o céu e o inferno para aqueles motoristas do interior que transitam por estradas em bom estado e muitas precárias. Sou, ainda, um dos indicadores entre um país, mais, ou menos desenvolvido

Das minhas imperfeições vocês sabem de cor e salteado, embora eu ache pertinente lembrar-lhes, que eu não tenho culpa, mas daqueles que me fabricam. Muitas vezes sou o foco dos principais assuntos. Normalmente sou a principal causa da corrupção, do superfaturamento e do desvio do dinheiro público. Com frequência sou a causa de orçamentos mal-elaborados, por causa de pessoas incompetentes e mal-intencionadas. Outra razão pela qual vocês me enxergam mal na foto é que em diversas situações eu tenho vida curta porque os “técnicos” usam uma camada tão parcimoniosa como cobertura, que não há como eu resistir por muito tempo. Segundo essa prática, não me causou surpresa ler neste jornal que o secretário de Obras da Prefeitura afirmar sobre algumas ruas da cidade, as quais vão receber “uma micro camada, porque apenas tapar os buracos levaria cem anos”. Nossa! Quando me usam na medida e espessura adequadas já viro problema, imagina “micro camada”. Acho até que o secretário quando falou isso estava “viajando” por uma estrada de chão batido, ou cheia de buracos, como é a característica em muitas vias esburacadas.  Ademais, eu asfalto não me sinto bem quando me espalham sobre paralelepípedos (agora “paralelepipas”, depois deste neologismo criado por aquele douto vereador). Como posso resistir? Micro camada sobre paralelepipas!? Não falta mais nada para completar o circo.

Além das queixas acima outro ranço dos meus usuários é o excesso de curvas perigosas de muitas estradas e rodovias, pois elas são um convite para acidentes com danos materiais e humanos. É uma vergonha, como disse o papa Francisco “La vergogna de aver perso la vergogna” (a vergonha de ter perdido a vergonha). A propósito, vergonha e humilhação devem sentir os onze prefeitos da região do Alto Uruguai ter que mendigar a minha presença nos acessos aos seus municípios, implorando que eu seja usado para acabar com alguns miseráveis quilômetros de acesso e sobre a interminável novela chamada de transbrasiliana, trecho Erechim a Passo Fundo. É um acinte, um despropósito, uma falta de consideração comigo e com os cidadãos termos que ouvir isso a toda hora. Dá nojo! Porém, vergonha mesmo deveria ter os parlamentares, deputados, senadores, governadores e vereadores que apenas discursam, tergiversam e não agem. Enquanto isso, eu, o asfalto fico à espera da parceria para resolver tantos problemas e pior, sempre levo a culpa. Comemorei com efusão a justíssima greve dos caminhoneiros, mormente porque milhares de veículos pesados, com carga além do limite, o que me causam estragos, deixaram de trafegar sobre mim. Que alívio! embora eu lamente tantos problemas decorrentes da paralisação.

Finalmente, não tenho palavras para expressar a minha decepção e desencanto quando vejo a televisão mostrando caminhões por este país afora com dificuldades de transportar a produção, mas ficam atolados na lama de estradas de chão batido. Há poucos dias ouvi estarrecido que no Brasil ainda há 87% das estradas sem a minha presença. Pode! No entanto, devo confessar que não há dor maior do que ter que observar vítimas de acidentes estiradas sobre mim esperando horas até que pessoas encarregadas venham recolhê-las. Eu, que não tenho sentimentos, coração e alma, não consigo tolerar tanto descaso com a vida. Imagina então, a dor dos seus familiares: É simplesmente insuportável, inconcebível e desumano. Teria ainda muito a dizer, mas o espaço, infelizmente não me permite. 

          

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