Blog do Coluna do Leitor

Esperanças

A fome do olhar

Por Coluna do Leitor

Lucas Subtil
Ana Carla Risson
Psicólogos

 

O restaurante encontrava-se praticamente lotado. Era um vai e vem de talheres, garçons, pessoas na fila do buffet. Para muitos o encontro dos ponteiros é tempo de restaurar as forças outrora devoradas pela avidez matinal. Para outros é sinônimo de reencontro: sentar-se à mesa com pais, esposa, marido, filhos, amigos, colegas e alimentar-se, também, de afeto.
Acomodo-me em uma mesa de canto e, de lá, fito uma cena. Uma mãe e um filho. O menino de aproximadamente quatro anos. Na verdade uma mãe, um filho e um poderoso intruso que teimava constantemente em aparecer: o celular. 
Era clarividente que o pequeno necessitava de ajuda para nutrir-se. Não detinha habilidades motoras plenamente desenvolvidas para cortar um pedaço adequado de bife, armar o garfo com espaguete ou organizar a imensa folha de alface em seu prato. O menino, a todo tempo, convocava-a: "Mãe, olha... Mãe, o que é aquilo? Mãe, acho que não quero mais." A mulher, vidrada no aparelho, respondia com balbucios, sem dirigir o olhar ao pequenino. 
Não sei, de fato, o que se passava com aquela mãe, podia estar às voltas com urgências a serem prontamente resolvidas por meio do telefone. Mas, diante de tal cena, me peguei a pensar: O que realmente nos nutre, além das proteínas, carboidratos e vitaminas? O que precisa um ser humano para constituir-se como tal? Do que, de fato, temos fome? 
Para um pequeno constituir-se em um ser humano forte desde dentro, não bastam que suas necessidades autoconservativas sejam saciadas. Não basta saciar fome e sede, não basta provir as necessidades fisiológicas, trocar as fraldas de um bebê, protegê-lo do frio ou calor... As características humanas não se herdam plenamente pela genética. É o psiquismo do adulto que servirá como matriz para esta construção. Logo, é fundamental que haja a presença de uma pessoa que seja capaz de investir afeto e de perceber a criança como um ser humano com demandas diferentes das de um adulto. E, assim, ao exercer essa função, estará ensinando a criança a olhar e respeitar a si, bem como considerar os outros. 
 "A gente não quer só comida", como bem cantavam os meninos do Titãs. Queremos mais. Temos fome do olhar. Fome de receber um olhar recheado de amor, que nos nutra de valor, que enxergue quem somos e, nesse enxergar, possa nos refletir. Seja aos 4, aos 14 ou aos 40 anos, precisamos de auxílio. Ajuda com o macarrão, ajuda frente às primeiras desilusões amorosas, nas dificuldades laborais com chefes rudes ou colegas inconvenientes... Precisamos de um olhar que nos ampare, nos incentive, nos freie, nos entenda. Um olhar que ajude a traduzir aquilo que ainda, volta e meia, fica confuso e inquietante. 
Fico na torcida que os ponteiros da vida do menino o presenteiem, em momentos distintos, com ricos olhares...

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