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“Tudo bem se você não for uma mãe exemplar”

Por Najaska Martins - najaska@jornalbomdia.com.br
Foto Divulgação EBC

Profissionais destacam a importância de entender a decisão de mulheres que não atendem às expectativas sobre maternidade

“Amo meu filho, mas não gosto de ser mãe”. Bastou a afirmação de uma jovem em uma rede social para que a questão acerca da maternidade real viesse à tona. De um lado apoio, mas de outro e em muito maior quantidade, uma leva de críticas. O caso aconteceu no ano passado quando mães foram desafiadas a postar fotos sobre a maternidade. De lá para cá, emergiu o debate que ainda hoje segue em evidência. Afinal, ser mãe é de fato “padecer no paraíso”?

A professora de sociologia e mestranda em Educação, Anelize Duarte Fantin, afirma que a maternidade ainda é posta culturalmente como algo inerente à mulher. “Precisamos desconstruir esta perspectiva, especialmente porque este não é um papel que todas visualizam ocupar um dia. E mesmo aquelas que vão de acordo com essa ideia, não necessariamente irão atender às expectativas – muitas vezes equivocadas e limitadas – que a sociedade tem das mães. Por que? Porque em lugar nenhum no mundo existe uma receita para ser uma mãe modelo, portanto, tudo bem se você não for uma mãe exemplar, você não precisa ser”, comenta.

Questionada sobre o que seria a mãe modelo, ditada pela sociedade, ela exemplifica com o mesmo case da jovem citada acima. “Há imposições implícitas e até mesmo explícitas sobre como deve ser a maternidade. Isso vem sendo reforçado pelas mídias a cada novo Dia das Mães, o que denota que elas devam seguir determinados padrões, como serem sempre responsáveis, promover uma educação adequada aos filhos, serem pacientes, corajosas, amáveis, compreensivas. Os próprios filhos esperam isso das mães. Devemos lembrar, porém, que acima da mãe, há uma mulher desempenhando esse papel, e talvez seja uma mulher que não se vê nesses papéis, o que não significa que ela não ame seu(s) filho(s). Essas imposições tornam-se ainda mais questionáveis quando analisamos que o mesmo tipo de cobrança não ocorre com os pais que não atendem a estas mesmas expectativas e, quando ocorre, é em uma proporção muito menor”.

Conceito imbuído de estereótipos

A psicóloga Vanessa Algeri e a enfermeira Leda Peres Mendes, que atuam na 11ª Coordenadoria Regional de Saúde, também comentam acerca das expectativas colocadas sobre as mães. “Mãe, profissional, cuidadora, dona de casa, mobilizadora, agente social. Funções vivenciadas por muitas mulheres de hoje, que se contorcem para dar conta de todos de todos os papéis que foram assumindo na sociedade. Dentre atribuições, tem-se o de ser mãe, trazido culturalmente como um momento, sublime, mas de dor, representado com a frase: “Ser mãe é padecer no paraíso”. Sentimentos se misturam com relação ao ‘ser mãe’, sejam alegrias, angústias e incertezas. Processo dinâmico e permanente, de acomodar e desacomodar”, resumem.

Elas destacam ainda que a própria palavra ‘Mãe’ vem carregada de sentidos e significados que são repassados culturalmente, ao longo das gerações. “É um conceito imbuído de estereótipos, de estigmas, de valores, os quais vêm trazendo certo desconforto para as mulheres e para a sociedade. Ser mãe é ser mulher. Será? Toda mulher precisa ser mãe. Será? Ser mãe é gerar o seu filho. Será? Precisamos olhar para o nosso mundo, perceber que a sociedade e as pessoas estão se transformando e que, se uma vez era assim, hoje já não é mais”, destacam.

Sobre a escolha por ter filhos, elas salientam ainda que cada mulher, cada homem, precisa voltar para si mesmo e pensar: qual é o meu projeto de vida? “Pode ser inúmeras coisas, inclusive ser mãe e ser pai. Se a escolha for por este projeto ele será para além da vida, será um projeto que necessita constante, revisão, adaptação, compreensão, cuidado, pois o projeto e, nós mesmos, vamos mudando, nos transformando.  Infelizmente, o biológico é implacável para as mulheres, assim iniciar um projeto de gerar um filho, necessita ser pensando, tendo cuidado com a postergação, embora ser mãe, não se resuma a isso”, afirmam Vanessa e Leda. “Não é algo que se nasce sabendo, que está escrito em nosso DNA. É um processo interno que se institui ao longo de nossas vivências, dos vínculos que construímos, das relações que estabelecemos. Assim, se este processo é interno ele é singular, se é singular é de cada um, e cada um é protagonista de sua vida”, completam.

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