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Rural

Desvalorização do milho e baixo estímulo na produção

Por Karine Heller
Foto Antonio Grzybowski

Principal parceiro da soja no sistema de rotação de culturas, a área de milho encolheu nas lavouras do Rio Grande do Sul e também no Alto Uruguai gaúcho. A redução de cerca de 10% na área cultivada com milho na região é uma das marcas da produção agrícola nessa safra. No Estado, a redução é de 12% de acordo com a Emater e a queda na produção pode representar quase um milhão de toneladas a menos disponíveis no mercado.

Ainda, dados divulgados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) revelam, que a queda é uma constante há seis anos. Serão apenas 708,3 mil hectares cultivados com o grão, o que representa a menor área semeada com milho na história do Estado e praticamente 50% do que já foi cultivado no RS há 10 anos.

Desvalorização do grão

Para o assistente técnico de produção vegetal da Emater regional, Nilton Cipriano Dutra de Souza, um dos fatores que influenciam esse cenário é o alto custo na produção do milho, aliado ao baixo preço repassado ao produtor rural, que gira em torno de R$ 25 a R$ 28 neste ano. Além disso, outro fator que colabora para essa problemática nas lavouras de milho, é o custo menor para a produção da soja e a maior rentabilidade na hora da venda pelo produtor.

“Essa questão realmente é muito séria. A desvalorização do grão é a grande responsável pelo encolhimento da área, que recebe, cada vez mais sementes de soja em seu lugar. Ainda que a oleaginosa também tenha recuo nos preços (de cerca de 15% em um ano), o baque na cotação do milho tem sido mais pesado. O grão despencou 31% em apenas 12 meses. Além da necessidade da rotação técnica nas culturas, onde indicamos que o produtor destine 1/3 da área para a produção do milho, para o acúmulo da palha no solo, que pode prevenir a erosão e auxiliar na fertilidade, há o impacto direto na cadeia alimentar”, explicou o técnico da Emater.

Alerta no abastecimento de aves e suínos

De acordo com Nilton, esse panorama ascende um novo alerta em relação à rotação de culturas e ao abastecimento das criações de aves e suínos - que têm o cereal como produto base para criação dos animais. “O desestímulo em relação à cultura vem principalmente do mercado. O preço da saca de milho no Estado está girando em torno de R$ 25. Há exatamente um ano, a cotação chegava a R$ 43. A questão é econômica. O produtor precisa ter um mínimo de rentabilidade”, disse o técnico do setor.

A perda de espaço do milho nas lavouras gaúchas não é de agora, e vem se acentuando nos últimos quatro anos, quando a soja alcançou valorização recorde no mercado internacional. De lá para cá, a área vem encolhendo ano a ano. “Vale ressaltar novamente que a recomendação técnica é de que o produtor mantenha cerca de 30% das áreas de soja rotacionadas com o milho, mas o que se vê na prática é bem distante disso”, lamentou o técnico da Emater.

Nilton ainda aponta que a região consome muito mais do produz. “O Alto Uruguai não produz nem a metade do milho necessário, o que resulta em importação do Centro do País”, esclareceu.

Colheita

A colheita do milho na região do Alto Uruguai atingiu mais de 25% da área total de 33,3 mil hectares para a produção de grãos. Os dados da Emater regional também apontam que o clima favorece as lavouras. A média do preço do milho praticado na região, no início dessa semana é de R$ 28. “Apesar do cenário mostrar cada vez mais lavouras menores de milho, a safra colhida apresenta produtividade dentro da expectativa e boa qualidade do produto. Além disso, como na grande maioria das lavouras, o milho está maduro por colher e outra parte sendo colhido, e o clima chuvoso desses dias melhora a qualidade do solo, responsável por levar todos os nutrientes para a planta”, relatou o técnico da Emater.

Baixo estímulo para a produção

Na propriedade de 12,5 hectares de milho e soja, do produtor Jacir Carlos Antonietti, localizada no Km 6 – Dourado em Erechim, a colheita do milho foi realizada na última semana. O pequeno produtor rural segue o modelo indicado pela Emater e destina parte da propriedade para a produção do grão. Porém, somente 16% da área é utilizada para o plantio do milho.

“O milho é utilizado para consumo próprio e para alimentação dos animais, pois a nossa maior produção é de soja. Hoje está muito cara a produção do milho. Como somos pequenos produtores e temos pouca terra, destinamos a maior parte para a produção de soja, pois há muito mais rentabilidade. O milho é plantado mesmo para a rotação da cultura e para o uso na propriedade e alimentação dos animais. Em relação a colheita, apesar de termos enfrentado períodos de tempo seco, avaliamos como boa a produção do grão na nossa propriedade. A nossa região não foi muito afetada pelo tempo, diferente de outras do Estado que registraram perdas nas lavouras”, contou o pequeno produtor rural.

Conforme reforçou Antonietti, o baixo estímulo para a produção do milho vem do preço em queda do grão, do custo mais elevado da lavoura e, ainda, do risco maior de perdas por problemas climáticos que venham a ocorrer.

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