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Erechim

Indígenas permanecem acampados em Erechim

As 18 famílias indígenas que montaram acampamento em Erechim desde segunda-feira (7), permanecem em um terreno localizado entre os prédios da Justiça federal e Ministério Público Federal.

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Por Antonio Grzybowski
Foto Antonio Grzybowski

As 18 famílias indígenas que montaram acampamento em Erechim desde segunda-feira (7), permanecem em um terreno localizado entre os prédios da Justiça federal e Ministério Público Federal. Até o fechamento desta edição não havia solução para o problema que surgiu após confronto entre grupos armados na Reserva do Votouro, localizada no interior do município de Benjamin Constant do Sul. A situação de conflito foi agravada no dia 8 de março deste ano com a morte do indígena Vítor Hugo dos Santos (22). 

Adelino Domingos é o interlocutor das famílias acampadas com a imprensa, órgãos de segurança e entidades. Ele afirma que as condições de aproximadamente 70 pessoas é precária, pois todos permanecem no local apenas com colchões, cobertas e algumas roupas. No terreno localizado Rua Clementina Rossi existe água potável canalizada e um ponto de luz, mas não há cobertura para abrigar especialmente as mulheres e crianças que passam o dia e a noite ao relento. 

Indagado sobre os motivos que levaram as famílias a deixar a reserva, Adelino Domingos explica que a decisão foi tomada para garantir a segurança e a vida das pessoas ligadas ao jovem morto no mês de março. O indígena acusa o cacique de negligência ao não apurar "algumas coisas erradas que aconteciam" na reserva, sem especificar exatamente quais seriam estes problemas. Domingos relata ainda que o pivô da crise interna seria Neri Francisco, pai de Vitor Hugo, considerado por eles como um homem correto que buscava solução de alguns problemas da reserva onde vivem mais de 1.500 pessoas e que ainda cobra esclarecimentos sobre a morte do filho. O suposto homicídio está sendo investigado pela Polícia Federal.

Saída espontânea
Por telefone o cacique da reserva explicou que as famílias deixaram espontaneamente a reserva, inclusive com ônibus fretado. Eliseu Garcia ressalta que o clima de tensão permanece, mas ponderou que se "lá está bom para eles, aqui ficou melhor ainda", disse a liderança ao comentar uma entrevista em que Adelino Domingos dizia que mesmo em condições precárias, as famílias acampadas em Erechim estavam ao menos podendo dormir e em segurança.

Disputa por liderança
Eliseu Garcia relata que a situação de confronto foi criada por Neri Francisco, que estaria formando um grupo para assumir a liderança da reserva. Junto dele estariam alguns jovens que, segundo Garcia, desrespeitavam a leis internas e desobedeciam a polícia indígena. No dia em que Vitor Hugo foi morto, ainda segundo o cacique, os jovens estariam refugiados na casa de Neri Francisco, local onde teria ocorrido resistência à prisão e, em circunstâncias ainda não esclarecidas, a vítima teria sido atingida por disparo de arma de fogo e morreu no local. 

Garcia diz que os índios que realizaram a operação foram afastados da polícia indígena, inclusive o vice-cacique, "por decisão da Polícia Federal, Justiça Federal e Ministério Público Federal". Diante desta situação, segundo Garcia, os amigos de Vítor Hugo estariam ameaçando de vingança todos os envolvidos na ocorrência, gerando reação dos mesmos e agravando a situação na reserva.

Indígena contesta argumento
Ouvido pela reportagem, Neri Francisco contesta a acusação de estar liderando um grupo de oposição ao atual cacique. Segundo ele o argumento de Eliseu Garcia é uma tentativa de justificar as represálias cometidas contra sua família e justificar a morte de Vítor Hugo, mas ponderou que acredita na Justiça e que os culpados pela morte do filho sejam identificados e punidos.

Segurança para voltar e ficar
Adelino Domingos informou no fim da tarde de ontem que foi procurado por um cacique de uma outra reserva, que teria oferecido segurança para o grupo retornar para Benjamin Constant do Sul. No entanto, argumentou que as famílias precisam de segurança para viver na reserva e que  continuará aguardando providências dos órgãos competentes. Pediu compreensão aos moradores de Erechim e doações de alimentos e roupas para mulheres e crianças que poderão enfrentar situação de chuva nas próximas horas.
Ministério Público Federal acompanha o caso

Por meio de nota o Ministério Público Federal informou que já ouviu os indígenas acampados, "está ciente de toda a situação, sendo que o caso está sendo tratado com toda a prioridade".


Nota oficial
"Representantes dos indígenas da Terra Indígena de Votouro que estão acampados ao lado da Sede do MPF em Erechim participaram de reunião com a Procuradora da República, Luciane Goulart de Oliveira.
Os indígenas manifestaram preocupação com a situação de insegurança, inclusive com risco de morte, dentro da referida comunidade indígena, em razão da presença de grupo armado no local.
O conflito na TI de Votouro vem sendo acompanhado pelo MPF desde início de março, inclusive quanto aos homicídios consumado e tentados ocorridos na comunidade em 08/3/18. Investigações foram realizadas pela Polícia Federal e o inquérito está sob apreciação do MPF. Após ouvir o pleito dos indígenas, a Procuradora da República explicou aos representantes do grupo que o MPF está ciente de toda a situação, sendo que o caso está sendo tratado com toda a prioridade e cautela exigidas."

 

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