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Amor que preenche lacunas

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Por Najaska Martins
Foto Najaska Martins

Mães sociais cumprem importante papel no cuidado e educação de crianças e adolescentes

Sentada no sofá, tímida e ansiosa, Zenilda Rosa, de 44 anos, se preparava para responder as perguntas que a reportagem do Bom Dia lhe faria. Assistida por uma plateia de três crianças, parecia escolher as poucas palavras que a timidez lhe permitia a cada resposta aos repórteres. Pouco a pouco, foi se sentindo à vontade e então começou a falar sobre o importante papel que desempenha há quase uma década no Lar da Criança de Erechim. 

Tia Zê - como é carinhosamente chamada – é mãe social, isto é, reside e trabalha no Lar da Criança, fazendo o papel de “mãe” das crianças e adolescentes que passam pelo local depois de terem recebido medida de proteção de abrigamento pelo Conselho Tutelar e Juizado da Infância e da Adolescência. Além dela, a entidade conta com outras seis mães sociais, sendo que três, incluindo Zenilda, residem nas três casas-lares do local, enquanto as demais atuam em períodos alternados, além de fazerem plantões.  

São elas as responsáveis por dar o exemplo positivo de “família” às 43 crianças e adolescentes com idades entre dois meses e 17 anos atendidas na entidade. Tia Zê, apesar de tímida, parece não esconder o orgulho que sente do trabalho que desempenha. Nos oito anos em que trabalha no Lar, diz ter visto muitas crianças por ali passarem. Com elas, construiu laços, criou vínculos e, acima da tudo, trocou amor: “é que a gente se apega”, resume, ao contar que se sente feliz por poder proporcionar carinho aqueles que, por motivos distintos, foram parar no lar. “Alguns me chamam de mãe, e eu me sinto orgulhosa”, comenta.

Tia Zê mora em uma das casas do Lar da Criança, junto com seus 15 filhos. Destes, três são filhos biológicos. “Mas pra mim não tem diferença nenhuma, porque trato todos eles da mesma maneira, como se fossem meus”, alerta. E é este tratamento que faz a diferença no desenvolvimento de cada um que convive com Zenilda. “Acordo cedo, faço o café, chamo aqueles que têm que ir para a aula e os encaminho. Arrumo a casa, depois faço o almoço e também organizo aqueles que vão para a aula de tarde. ...” relata a mãe social, mostrando nitidamente a rotina de uma família normal, tal qual preconiza a entidade.

A relação dos abrigados com a tia Zê é de companheirismo, embora, como em qualquer família, em alguns momentos marcada por discordâncias, afinal, são pessoas de diferentes personalidades convivendo juntas em um mesmo lugar. Mas, de modo geral, o carinho entre mãe e filhos é nítido: “ela é nota 10”, comenta um dos filhos, que em seguida é complementado por outro: “na verdade ela é nota mil”. Quando questionada sobre o que deseja para o futuro dos filhos, Zenilda é enfática: “Quero que eles cresçam bem, que estudem, que construam carreiras e que sejam felizes”.

A importância das mães sociais

A coordenadora técnica e psicóloga do Lar da Criança, Adriana Secchi, explica que por meio das casas-lares, a entidade busca proporcionar um ambiente o mais próximo possível de uma família normal, na qual convivem crianças e adolescentes de diferentes idades, sem diferenciação de sexo. “O único momento em que eles são divididos é na hora de dormir, pois meninos têm um quarto para eles e meninas um para elas. Fora isso, no dia a dia eles convivem todos juntos, os pequenos com os maiores, cada um com suas diferenças, com seus gostos, com momentos bons e ruins, tal qual em uma família normal, na qual há diversidade e onde a mãe é quem orienta e coordena tudo, impondo as regras necessárias para a boa convivência”, explica.

A psicóloga destaca ainda que na maioria dos casos, as crianças e adolescentes que chegam ao lar vêm com uma experiência negativa de família. “De modo geral, a visão que eles trazem de família é diferente da que a gente conhece, pois muitos foram retirados de suas famílias por motivos muito graves. Então, nos primeiros dias é difícil para eles assimilarem que aqui eles não vão apanhar, que não terão a comida negada, que não serão colocados para fora de casa. Também é diferente ao passo que aqui há regras, há horários para comer, para tomar banho, para dormir. E se por um lado eles reclamam que a ‘a tia mandou fazer isso’, ou ‘a tia brigou porque fiz algo errado’, por outro é nítida a percepção do quanto eles se sentem bem sabendo que tem alguém cuidando deles, alguém olhando por eles”, explica.

Neste contexto, Adriana destaca que as mães sociais cumprem bem o papel de mães, seja dando afeto e carinho, seja cobrando por obrigações. “Nos sábados à tarde temos horário de visita aqui no lar, que é quando algumas mães, avós e/ou parentes vêm visitar as crianças. Nestes momentos, é comum que eles contem às famílias o que fizeram, o que comeram, o que as tias impuseram... E na sequência eventualmente os familiares nos questionam quanto a isso. Nestes momentos a gente sempre tenta mostrar que é assim mesmo que precisa ser, afinal, às vezes a mãe social tem sim que cobrar, tem sim que ensinar, afinal, é este o papel dela aqui e que deveria ser feito pelos familiares também”.

A psicóloga reforça ainda que é feito um trabalho permanente voltado a questão dos vínculos que mães sociais e crianças e adolescente estabelecem uns com os outros. “Às mães a gente procura passar que tratem todos como filhos, mas sempre lembrando que este são filhos que irão embora, que terão outras famílias ou que poderão voltar para suas famílias de origem. Além disso, procuramos não incentivar que os abrigados chamem as mães sociais de ‘mãe’, mas às vezes isso acaba sendo inevitável, pois elas estão ali preenchendo uma lacuna aberta nestas crianças e adolescentes. Por isso é necessário estarmos sempre trabalhando estas questões com o cuidado também para que a criança não crie um elo tão forte com a mãe social a ponto de não conseguir construir um novo vínculo com outra família que vai acolhê-la, ou mesmo reconstruir o elo com sua própria família biológica”, pondera. 

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Lei da mãe social

Adriana lembra que desde que foi criado, o Lar da Criança foi pensado de maneira a funcionar com casas-lares e não no formato de orfanato com monitores e turnos, portanto, sempre trabalhando com mães sociais. Neste sentido, ela ressalta a lei da mãe social, que permite o trabalho desta maneira. “É uma lei muito antiga e específica das mães sociais, que permite este tipo de trabalho, no qual a mulher reside no local e trabalha 24 horas, sendo remunerada por isto. Hoje temos três mães sociais que residem nas três casas aqui do lar, além de termos outras quatro mães sociais que auxiliam nos plantões e folgas das que residem aqui. Hoje não temos nenhuma das mães daqui casadas, mas, se eventualmente fossem, seriam um casal residindo aqui, tal qual uma família comum”, completa.

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