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Segurança

Dia das mães atrás das grades

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Por Najaska Martins
Foto Najaska Martins

Esperança de receber a visita de uma das filhas é alento para a apenada W.M. neste domingo 

“Se eu tivesse ouvido minhas filhas, hoje não estaria neste lugar”. A frase pronunciada enquanto as lágrimas escorriam pelo rosto resume o sentimento de arrependimento que toma conta do coração de W.M.*, de 49 anos. Reclusa no Presídio Estadual de Erechim desde maio do ano passado, ela poderá ter seu primeiro Dia das Mães longe das filhas, de 28 e 29 anos, que vivem em Foz do Iguaçu, distante mais de 500 quilômetros da Capital da Amizade.

Além do Dia das mães, o mês de maio será representativo para W também por outros motivos: neste domingo (13) – Dia de libertação dos escravos, como ela mesma faz questão de lembrar ao associar à cor de sua pele negra – ela completa seu 50º aniversário e, no decorrer da semana, conclui o primeiro dos seis anos aos quais foi condenada à prisão por associação para o tráfico. Num misto de sentimentos pelo significado de cada uma destas datas, uma das únicas expectativas positivas que ela nutre é a de ver uma das filhas. “A psicóloga está vendo para a mais velha conseguir vir me visitar no Dia das Mães, porque faz um ano que não vejo mais elas”, conta, esperançosa. 

Dos 12 meses em que está no presídio, W se orgulha por trabalhar há pelo menos nove no setor de faxinas. A cada três dias de serviço, um dia a menos de sua pena. Mas, embora significativo, esse não parece ser o principal motivo pelo gosto que ela tem pela função. “Antes de vir para cá, eu fazia faxina, sempre gostei de limpar a casa, de ajeitar minhas coisinhas, aprendi com a minha mãe desde pequena. Aí aqui me deram essa oportunidade e tudo que eu faço, é com amor e carinho, e isso me deixa orgulhosa e engrandece meu coração. Enquanto eu trabalho, consigo forças para continuar aqui, para não pensar em coisas ruins. Depositaram em mim uma confiança e eu estou retribuindo porque quero sair daqui de cabeça erguida”, projeta. 

Atendida por um defensor público, W também é otimista com a possibilidade de conseguir mudança para o regime semiaberto. Segundo a direção do presídio, ela só aguarda a expedição de guia de recolhimento para que a família possa buscar emprego e, assim, a apenada possa iniciar uma nova etapa do cumprimento da sua pena.

A opção por caminhos tortuosos

Ao falar dos motivos que a levaram para prisão, o desconforto de W ao lembrar da situação é nítido. Segundo ela, tudo começou quando conheceu o segundo marido e, mesmo contrariada pelas filhas, optou por viver com ele em Erechim. “Minhas filhas sempre foram contra essa relação, pediram que eu ficasse com elas. Mas eu amo ele, tinha conhecido a mãe dele, que era uma idosa de 95 anos e escolhi vir com ele para ajudar cuidar dela”, relata. Com o companheiro preso por tráfico, W afirma que seguiu cuidando da sogra. “Foi aí que aconteceu o que aconteceu”, resume ao pontuar as circunstâncias que, segundo ela, culminaram com sua prisão.

Ao se referir aos caminhos que a levaram à atual situação, W só diz lamentar não ter ouvido as filhas e destaca a saudade, que se estende também ao neto, de nove anos. “As minhas filhas choravam, diziam para eu não vir, para eu ficar com elas e com meu netinho, que eu amo tanto. Mas eu também amava meu marido, eu me sensibilizava pela mãe dele, que era idosa e só tinha ele como filho. Fiquei muito dividida. Eu hoje me arrependo de ter seguido ele, mas sinto que fiz um papel importante na vida dele e principalmente da minha sogra. Talvez se eu tivesse ouvido elas nada disso teria acontecido. Meu sonho agora é conseguir me perdoar por ter deixado três pessoas que amo muito longe daqui. Hoje minha vida é pensar nas minhas duas filhas e no meu neto que sinto saudades todos os dias”, conta, ao afirmar que atualmente o único contato com os familiares é intermediado pela psicóloga do presídio.

Para o domingo de Dia das Mães, a única certeza de W é a de que irá completar mais um ano de vida. A possibilidade de ver ao menos uma das filhas, por enquanto, é apenas uma esperança motivadora. “Eu torço muito que ela consiga vir, mas eu entendo o quanto é difícil para elas, pois trabalham, têm poucas condições, a passagem de lá para cá é muito cara. Acho que a [filha] mais velha conseguirá vir e por um lado ficarei muito feliz mas por outro seguirei triste porque não poderei ver minha outra menina e meu netinho”, finaliza.

* As iniciais do nome da entrevistada são fictícias para preservar sua identidade

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