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Cultura

À espera do teatro amador

Retomada de festivais é comemorada por quem viveu a época de ouro da artes cênicas na Capital da Amizade

Festivais serão realizados em agosto e dezembro no Centro Cultural 25 de Julho
Por Najaska Martins - najaska@jornalbomdia.com.br
Foto Najaska Martins

Retomada de festivais é comemorada por quem viveu a época de ouro da artes cênicas na Capital da Amizade

“Erechim vivia o teatro naquela época. Era uma semana inteira de peças maravilhosas no Centro Cultural 25 de Julho, nas praças e até nas ruas. Tinha espetáculo de manhã, de tarde e à noite, vinha muita gente de fora, seja para atuar ou mesmo para assistir.”. As memórias saudosistas do estudante Jailton Custódio Rodrigues remontam o período em que Erechim chegou a ser considerada a Capital do teatro amador e parece resumir a motivação para a retomada de festivais, anunciada nesta semana pela Prefeitura. Passados 11 anos desde a última edição do Festival Gaúcho de Teatro Amador, a cidade volta a dar passos para colocar Erechim novamente no cenário das artes cênicas.

A retomada da programação faz parte das comemorações relativas aos 100 anos do município. O primeiro festival deverá ser regional e acontecerá de 28 de agosto a 1º de setembro. Já em dezembro o município sediará do dia 11 ao dia 15 um evento com enfoque estadual, quando grupos vencedores de festivais realizados em outras cidades do RS devem se apresentar em Erechim. Ambos eventos terão como palco o Centro Cultural 25 de Julho.

Para quem viveu a época de ouro dos festivais de teatro amador, a notícia da retomada foi comemorada. Hoje formado em teatro, mas naquele período adolescente, o jovem que abre esta matéria já projeta bons resultados da iniciativa. “Sem dúvidas vai voltar a movimentar a cidade e retomar a cultura do teatro. Outro ponto positivo é que as crianças das escolas poderão assistir às peças e o teatro passará a ser uma referência para elas”, comentou Jailton.

O prefeito de Erechim, Luiz Francisco Schmidt explicou que a iniciativa está ligada ao legado cultural que se busca fomentar na cidade. “Nenhuma cidade deixa marcas pelas suas obras físicas, mas pela cultura que ela desenvolve com seu povo. Acredito que estes festivais vão desencadear uma série de movimentos de criação de novos grupos de teatro em Erechim, além de fortalecer a cultura local para além das escolas, mas da comunidade como um todo. Acredito que temos tudo para termos uma bela retomada do teatro amador no município, tal como a sociedade tanto esperou”, resumiu.

Márcio Meneghell: “Hoje sou ator graças também ao que vivenciei naquela época em Erechim”

Ator profissional o erechinense Márcio Meneghell elogiou a iniciativa de retomar a cultura do teatro amador em Erechim. Atualmente morando no Rio de Janeiro, ele relembrou do período em que vivenciou esta arte em sua terra natal. “Vivencio o panorama teatral de Erechim e naquela época essa cultura do teatro já era muito ativa na cidade. Erechim chegou a sediar o festival nacional, foi por um longo período considerada a capital gaúcha do teatro amador recebendo grupos renomados do Brasil inteiro, sendo que alguns ainda hoje são referências no país. Saber que há um esforço para este retorno da cultura teatral é algo sensacional para a cidade e só trará resultados positivos”, elencou, ao enfatizar que ainda hoje sempre busca trazer seus trabalhos para a cidade. “Sempre fiz questão de voltar, de estrear trabalhos em Erechim, que é minha terra natal e fico muito feliz por saber que que depois de tanto tempo teremos uma retomada desta arte”, pontuou.

O ator, que já atuou em peças de renome nacional e inclusive na televisão, enfatiza ainda a importância deste movimento no sentido de promover a cultura ao público em geral, em especial no infantil, já que escolas estarão envolvidas nas programações. “O teatro tem uma formação essencial na vida da criança, é a partir dessa fase que ela vai tomar gosto pela arte, pelo teatro. É importante que a cidade volte a ter estas expressões ao passo em que elas terão referências. Eu sou ator hoje graças também ao que vivenciei em minha época em Erechim, pois até então eu não pensava em seguir nesta carreira. Mas não se resume a isto, pois independente de seguir ou não nesta área, o teatro é de extrema importância para a formação social do ser humano”, destacou.

Por outro lado, Meneghell fez questão de pontuar os desafios que o município pode encontrar na construção desta nova cultura de teatro para a cidade. “Dar este primeiro passo é fundamental, mas é preciso ter em mente que por estar tanto sem estas atividades, é preciso retrabalhar estas questões, pois antes já se tinha uma cultura de frequentar e participar e agora é necessário começar do zero, reconstruir este movimento. Hoje talvez Erechim pudesse ser uma grande potência no teatro amador, sem modéstia alguma. Se este movimento tivesse uma continuidade desde lá atrás, a cidade poderia ser hoje uma referência nacional. Agora é um caminho que precisa ser galgado passo a passo, mas dar o primeiro já é algo sensacional”, completou.

Fabiano Tadeu Grazzioli: “Uma cidade sem teatro é uma cidade sem identidade”

Professor da URI, FAE e Colégio Franciscano São José, Fabiano Tadeu Grazioli vivenciou o período de ouro do teatro em Erechim, tendo sido, inclusive, um dos jurados do último festival, em 2007. “Era importante para a cidade porque proporcionava às pessoas momentos especiais em que parte assistia, e parte encenava. Essa é a essência do teatro, não se limitava somente ao lazer, pois se convivia diretamente com a arte da encenação, quando se recuperava a nossa ancestralidade, nosso vínculo com a história. Esta tentativa de retomada da cultura do teatro é muito válida, abre várias possibilidades para Erechim, pois uma cidade sem teatro, é uma cidade sem identidade. Proporcionar isto mais uma vez à população é grandioso”, pontuou ele, que além de doutorando e mestre em Letras pela UPF, também é diretor de teatro com registro profissional.

Sobre a recepção de Erechim a esta retomada, Grazioli é otimista. “Os tempos mudaram, mas eu tenho certeza que a cidade vai abraçar esta ideia. Um festival permite que muitos trabalhos de qualidade estejam disponíveis às pessoas, desde as crianças até os adultos. O público erechinense é ávido deste tipo de espetáculo e sem dúvidas, se houver dedicação nesta organização, poderemos ter um amplo e diversificado cardápio cultural disponível ao município”, completou o professor, que é um dos sócios fundadores da Dueto Produções Culturais e Artísticas, que apresenta desde 2006 o monólogo "Memórias de Nina".

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