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Crise

Por Gilberto Jasper

Repete-se à exaustão que a crise é combustível para a criatividade. A partir das dificuldades que soam insolúveis, o homem encontra soluções inimagináveis e que, muitas vezes, estavam ali ao alcance da mão.

Outra consequência deste conjunto de obstáculos é a autoanálise coletiva. As pessoas, desarmadas de subterfúgios, arquivam as desculpas esfarrapadas de décadas, fazem um mea culpa sincero e encaram seus defeitos de frente.

O costume de terceirizar a culpa, impingindo a outros as causas de suas fraquezas, é um esporte nacional no Brasil, especializado em ser - para sempre - o país do futuro. A crise econômica, política e moral que tormenta os brasileiros é uma preciosa oportunidade para varrer o vício de culpar os outros, sempre.

A variedade de desculpas para justificar procedimentos condenáveis vai do baixo nível da educação recebida até o ambiente de trabalho, passando pelo salário percebido ("eu não ganho pra fazer isso"), carga genética ("herdei dos meus antepassados este defeito"), local de nascimento e até desvios crônicos de caráter ("no Brasil, ser honesto é ser trouxa").

É hora de assumir nossas culpas ao invés de apontar o dedo para políticos corruptos. A corrupção está em todos os lugares, como estamos cansados de saber. Na hora de pagar o dentista/médico e abrir mão do recibo em troca do desconto, no momento de ficar com o troco a mais dado pelo caixa do supermercado ou estacionar na vaga de idoso/deficiente físico quando o segurança não está por perto.

A simplificação da vida também pode ajudar na solução de muitos problemas. Existe uma crescente necessidade de fazer drama em tudo. A simples reclamação pelo prato mal preparado no restaurante vira escândalo tipo Operação Lava-Jato. Chamar o garçom ou gerente para conversar civilizadamente está fora de cogitação. É preciso demonstrar a "injustiça" perpetrada. mostrar poder, mesmo que seja no grito.

Qualquer revés na vida é considerado uma ofensa que dispara uma desculpa imediata, lastreada em algum elemento externo. Como escrevi acima, a "terceirização da culpa" impede o aperfeiçoamento humano, a melhoria das relações, o incremento do amor e da educação. É raro encontrar alguém que, ao deitar a cabeça no travesseiro, admite um erro, acorda e vai pede desculpa ao seu desafeto.

Fingir, mentir, maquilar a verdade, manipular versões, reagir com truculência, bater antes de apanhar, dirigir com a raiva de carona. Estes comportamentos estão em todos os lugares. Certamente o leitor lembrou de muita gente do dia a dia. O resultado é um mundo moderno, de comunicação instantânea, densa em agressividade, barbárie em vários quadrantes do planeta.

Tomara que a crise sirva para que possamos enxergar a culpa de cada um afinal de contribuir para melhorar as relações humanas. Do contrário, tenho medo do futuro que nos aguarda.

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