Blog do Neivo Zago

Erros de linguagem

Efetivo, eficaz, eficiência e outras confusões

Por Neivo Zago
Foto Divulgação

É senso comum que não é fácil bem escrever e bem falar. Também é verdade, que tanto uma quanto a outra habilidade depende muito da prática. Alguém só pode saber onde está e aonde pretende ir se for eficiente e efetivo e souber colocar cada peça no lugar certo do tabuleiro quebra-cabeça que é a linguagem.

O cotidiano nos oferece diversos exemplos de malversação do uso da linguagem quando utilizadas as habilidades da fala e da escrita em contextos comunicativos. Basta-nos acessarmos a mídia escrita, falada e televisada para coletarmos o que comumente conhecemos como “pérolas”. Estas abundam mesmo em terrenos que, a princípio, não deveriam ser vistas ou ouvidas. Isso acontece, não apenas nos contextos envolvendo leigos, mas até em ambientes mais seletos e letrados. Obviamente que ninguém é perfeito, tampouco eu o sou, e todos cometemos equívocos.

E, desses contextos, os gramados do futebol são propícios para a proliferação de expressões nada condizentes com a linguagem padrão. De modo geral, raros são os atletas profissionais que usam devidamente as palavras quando entrevistados. A maioria dessa clientela possui um discurso limitado, transgride a gramática, mormente na concordância verbal, sem citar outros deslizes. Recentemente o ex-treinador Dunga em entrevista disse que “é sempre um privilégio para a seleção jogar em um país “aonde” moram muitos brasileiros (no caso a Copa América nos EUA). Certamente o eminente “coach”(treinador) do nosso escrete não sabe discernir entre “onde e aonde”. Poderia até saber onde até pouco estava, mas não teve competência para chegar aonde queria, com sua seleção. 

Por sua vez, já ouvi em entrevistas de outros treinadores declararem que, ao querer justificar a inoperância da sua equipe lhe faltou “efetividade”. Na verdade o que eles desejavam comunicar era que lhe faltou eficácia, eficiência. Efetividade houve, mesmo porque os seus atletas estavam efetivos (presentes) em campo. Por exemplo, um aluno pode ser efetivo, sem faltas, mas pouco eficaz, ou eficiente no que faz em sala de aula. Aliás, no mesmo viés e não menos infeliz se portou uma profissional da saúde em entrevista televisiva quando disse que “o uso de álcool gel é efetivo”. Efetividade parece foi o que lhe faltou nas aulas de português. Por isso, carece agora de eficiência na sua fala.

São por essas e outras que nós não nos surpreendemos mais ao ler e ouvir tantas agressões à nossa linguagem. O mais desanimador é ver quando certas pérolas são produzidas por pessoas consideradas cultas, com formação superior, chefias que deveriam zelar pela qualidade da fala e da escrita.

Abundam as restrições da língua padrão encontradas em receituários, contratos, produções escritas diversas e em textos de várias naturezas. Em suma, são resultados do tempo insuficiente dedicado à leitura e prática escrita nos insipientes estudos nos mais diversos níveis de ensino. Nesses dias um profissional da construção civil que compartilhava a sala de espera no consultório médico reclamava que profissionais recém formados não tinham condições de fazerem cálculos elementares que ele, sem formação superior sabia e precisava lhes ensinar.    
Não menos animador é quando reiteradamente ouvimos notícias ou nos deparamos com dados retratando a baixa efetividade dos nossos jovens e estudantes em leitura como recentemente foi noticiado: “jovens não conseguem vagas de trabalho porque não sabem ler falar e escrever adequadamente”.

E, apesar dessa negra realidade são tímidas as iniciativas para resolver o impasse. Apenas para ilustrar, em nível superior a língua portuguesa (nossa língua mãe) quando contemplada é estudada em apenas um semestre. Há cursos que, pasmem, relegam-na como disciplina eletiva. Em assim sendo, não há como nutrir esperanças de melhorias. Se o exemplo deveria vir de quem de fato e de direito, imagina então esperar de quem não tem responsabilidades e capacidades para resolver. A solução passa pela consciência individual perpassa o coletivo e não exime o institucional. 

 

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