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Antonio Grzybowski

É preciso reter talentos

Por Antonio Grzybowski
Foto Karine Heller

Em pouco mais de um ano participei do velório de dois jornalistas da região que construíram trajetórias extraordinárias, desconhecidas por mim e pela maioria da população. Primeiro foi Renan Agnolin. Poucos dias antes da sua morte ocorrida no desastre com o avião  da Chapecoense, fui à loja de molduras do pai Luiz Carlos, que orgulhoso prometeu trazer o filho para bater um papo na redação do Bom Dia. A visita não ocorreu, pois o "menino de ouro" voltou morto da Colômbia. Renan custeou a própria passagem, pois queria registrar mais um feito histórico do clube catarinense e transmitir isso para seu leitores, ouvintes e expectadores. Seu trabalho era sua vida! O reconhecimento maior surgiu no velório coletivo realizado no Estádio Indio Condá, quando torcedores da "Chape" ovacionaram seu nome na cerimônia de despedida.

A última perda foi Robson Pandolfi (31), jornalista formado pela PUC Porto Alegre. Morreu afogado nas águas perigosas do Oceano Pacífico ao desfrutar período de férias no Uruguai. "Robi" nasceu fruto de um relacionamento entre o pai Décio Pandolfi e a mãe Clara Spengler. Até os 17 anos morou e trabalhou na pequena cidade onde nasceu. Mariano Moro é fim de linha para a empresa que realiza o transporte intermunicipal de passageiros, pois o município está situado na divisa entre os estados do RS e SC. Para ir para outra margem do Rio Uruguai é preciso utilizar uma balsa.

Robson uniu os talentos do pai e da mãe. Décio é empresário do ramo de comunicação em Santa Catarina. A mãe é empresária e professora em Mariano Moro. Cursou o ensino fundamental na terra natal. O ensino médio foi concluído em Erechim. Destacava-se pela alegria de viver e visão profissional no mercado da comunicação. Amigos contam que a voz não ajudava para o rádio, mas mesmo assim fazia transmissões esportivas pela Rádio Monte Castelo. Naquele tempo, a cultura do interior ainda prezava por "vozeirões" ao microfone. Depois, Robson seguiu para a capital em busca da concretização dos sonhos profissionais.

Além de jornalista, fez mestrado em Economia e Computação Aplicada e virou professor universitário no curso de comunicação da Uniritter. Foi o responsável pela criação e implantação da disciplina de Jornalismo Interpretativo e Literário. "Presenciei a transformação de centenas de alunos dos cursos de Jornalismo e de Relações Internacionais em profissionais qualificados", afirmou em post publicado no mês de dezembro. Investiu na criação de uma agência de conteúdo e em uma revista. Era respeitado pelos principais nomes do jornalismo gaúcho. Em Erechim, era um desconhecido.

Escrevo estas linhas para refletir sobre os inúmeros talentos que perdemos. Renan e Robson são exemplos de profissionais que deixaram Erechim e região sem oportunidades de trabalho. Talvez não a buscaram. Eu também! Ainda jovem, sem formação, recebi oportunidades maravilhosas em rádios de Getúlio Vargas e Carazinho e na RBSTV Passo Fundo. Na Assembleia Legislativa, ouvi do então deputado Alexandre Postal, palavras positivas sobre o trabalho realizado. "O melhor em 30 anos", disse o parlamentar ao visitar o gabinete do deputado Gilmar Sossella, que me levou com seu assessor de imprensa no ano de 2007. Elogios nunca me envaideceram. Pelo contrário. Em 2010 decidi deixar o parlamento gaúcho para estudar e conquistar o diploma de jornalista. Hoje tenho a responsabilidade de editar um jornal diário, muito bem administrado pelo empresário Hélio Ruben Correa da Silva, o maior em circulação da região Norte do RS. Sou grato pelas oportunidades que recebo aos 51 anos.

Sobre a retenção de talentos, recordo palavras do professor e diretor da URI-câmpus Erechim. Em recente encontro de fim de ano, Paulo Sponchiado afirmou que o curso de Medicina foi criado com diversos propósitos. Um deles é reter talentos. Sim, vamos reter talentos, jovens ou velhos e investir em suas potencialidades. Talentos na saúde, educação, engenharia, agricultura, comunicação, artes, esportes, em todas as áreas, inclusive os não graduados. Vamos reter os talentos para que todos ajudem a construir os próximos 100 anos de Erechim, a "Capital da Amizade" e de inúmeros talentos.

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