Blog do Coluna do Leitor

Neusa Cidade Garcez 29-07.jpg

O inferno se chama mala

Por Coluna do Leitor

Neusa Cidade Garcez
Historiadora e Historiógrafa

O inferno é temido por alguns. Ridicularizado por outros. Comumente ele é situado "embaixo". Dante o localizou ali e Virgílio "desceu" a procura de seu amor.
Um importante pensador escreveu que o inferno são os "outros". Levei um bom tempo para entender. Porém, agora a expressão é perfeitamente entendível e, acredito verdadeira.
Basta observar os governantes que nos massacram.
Quando algo acontece de errado, ou quando tropeço etc, para não dizer um palavrão, solto o nome que me aterrorizava outrora: Inferno!! Mas, pensando bem, julguei mais apropriado nominar a mala como habitat do capeta, pelos revezes que ela já me causou.
A mala em verdade é o suplício de muitos. 
Minha primeira experiência com ela, foi durante um passeio de dois dias com o colégio das freiras. Todas as meninas viajaram com seu uniforme bem passadinho. As golas das blusas deviam estar bem engomadas. A minha o foi em demasia e começou a machucar meu pescoço. Comecei a sentir um calorzinho. Coloquei os dedos na gola que sairam vermelhos de sangue. Eu estava sendo degolada pela blusa. Levantei-me depressa para abrir minha pequena mala no porta bagagem, e não sei como se abriu um topwear onde minha mãe havia colocado creme de laranja, que amo. Querida mãe! Tomei um banho de creme de laranja lambuzando-me cabelos, roupa e tendo que ficar, creme e sangue até o fim da viagem. Inferno de malinha! Inferno! A freira que ouviu, disse que ao retornar a Erechim eu ficaria de joelhos de castigo. Inferno!
Ainda criança outra mala marcou-me com angústia. Era verde, parecia ser de lona. Quando ela estava sobre um roupeiro no quarto de meus pais, era sinal que a saúde de meu pai estava bem. Quando eu não a via ali, meu pai estava internado ou na Santa Casa, no São Francisco ou como ficou muitas e muitas vezes no Canceição ou Ernesto Dornelles. A mala verde sinalizava tristeza, incerteza ou alegria, quando ela voltava a estar sobre o roupeiro. Que inferno! Essa mala sempre, tanto na infância como na juventude, angustiou meus dias. Em viagens a mala nunca deixou de ser o inferno. No aeroporto de Hamsterdan, a mala de minha irmã apareceu sem uma rodinha. Ela bufava, se espremia para arrastá-la. Mas, fomos para cá, para lá, viajando com a a mala capenga. Na volta ao Brasil, minha irmã levava uma bengala por estar com sérios problemas nos joelhos. Ficamos duas horas de pé no aeroporto de Tel Aviv. De repente nos damos conta que a bengala sumira. Só nos foi devolvida no exato momento do embarque. Mas a mala sem uma perna foi aberta, revistada e quando tentei ajudar minha irmã a colocá-la na esteira quase apanhei da mal criada mocinha que a examinaria. No final, já em casa dei-me conta que o "Inferno de mala", continha 14 pares de sapatos. Para que? Fiquei espantadíssima. 
Minha irmã exagerou. Daquela vez a mala era inocente!
Em mil ocasiões a mala me assustou, me deixou sem forças para arrastá-la, ou passou do limite de peso. Certa vez fiquei desesperada quando ao chegar ao aeroporto de Atenas a mala não apareceu. Fiquei 3 dias sem ela. Oh inferno!! Minha sorte foi a bagagem de mão onde sempre levo algo para vestir e calçar.
Na primeira vez que fui a Brasília, ainda bem jovem, ficamos 3 dias em Salvador. Na saída, após o ônibus rodar uns 100 km, a Polícia o parou dizendo que o bagageiro estava aberto e havia deixado cair inúmeras malas na rodovia. Quando recolheram todas, percebi atônita que uma delas era a minha. Mas que inferno! Precisava recebê-la toda suja e estragada? Inferno!
Entretanto nenhuma mala me amargurou, me humilhou, me deixou em fúria como as malas cheias de dinheiro carregadas por canalhas, por vendilhões da pátria, pela camarilha que manda nesse pobre país, habitado por nós, gente sem força e impeto para tomar atitudes severas, para varrê-los como lixo que em verdade o são. Que inferno de malas que cuspiram no rosto de quem trabalha honestamente! Esses abutres riem de nossa passividade, de nossas costas curvadas em desemprego, sem educação e sem saúde.
Vamos ou não vamos nos erguer e enfrentá-los? Vamos julgá-los, vamos expulsá-los do cenário nacional. Tenhamos vergonha na cara e respeito por nós. Inferno! Que inferno esse bando encima do muro! Que triste esse povo sem coragem de lutar.

 

 

 

Blog dos Colunistas

Publicidade

Horóscopo

Sagitário
22/11 até 21/12
Pode receber um dinheiro inesperado ou ter boa...

Ver todos os signos

Publicidade