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Dad Squarisi

A lição do corpo e da língua

Por Dad Squarisi
Foto Divulgação

Recado

“O talento é a capacidade de tomar cuidados infinitos.”

Oscar Wilde

 

A lição do corpo e da língua

A língua aprende a lição do corpo. No corpo, tudo o que existe aos pares tem harmonia. Temos duas orelhas, dois olhos, duas narinas, dois braços e duas pernas. Uma orelha é igual à outra, um olho igual ao outro, uma perna igual à outra. Eles são iguais porque têm funções iguais. A dos olhos é enxergar; a dos ouvidos, ouvir; a das narinas, cheirar, a das pernas, andar; a dos braços, abraçar.

Na língua vigora a mesma ordem. Os termos e orações com funções iguais devem ter estruturas iguais. O que acontece quando as embaralhamos? O mesmo que com o corpo. Imagine um rosto com um olho grande e outro pequeno. Ou uma pessoa com a perna de um lado e o braço de outro. Ou um tronco com um peito no lugar dele e o outro no lugar do umbigo. A harmonia se vai.

Paralelismo

O lé com lé, cré com cré linguístico chama-se paralelismo. Termos e orações com funções iguais devem ter estruturas iguais. É o caso das enumerações. Se um item se inicia com verbo, os demais não têm saída. Vão atrás. Se por nome, idem. Veja:

São funções do Banco Central:

a.    emitir moedas;

b.    fiscalizar o sistema financeiro nacional; e

c.     controlar a moeda e o crédito.

São funções do Banco Central:

a.    a emissão de moedas;

b.    a fiscalização do sistema financeiro; e

c.     o controle da moeda.

Misturar estruturas? Valha-nos, Deus! É cruzar girafa com elefante. O resultado é este mostrengo:

São funções do Banco Central:

a.    emitir moedas;

b.    a fiscalização do sistema financeiro; e

c.     controlar a moeda.

Xô!

Mais

Paralelismo não se observa só em enumerações. Ele pede passagem também em termos da oração. Se, por exemplo, um verbo tem dois objetos diretos, eles devem ter a mesma construção sintática. Misturar estruturas é pisar o paralelismo. Assim: Ele negou interesse no projeto e que o telefonema do deputado tivesse relação com as propostas nele apresentadas.

Ele negou dois fatos: a) interesse no projeto e b) que o telefonema do deputado tivesse relação com as propostas nele apresentadas. Os dois fatos, por serem objetos diretos do mesmo verbo (negou), deveriam ter a mesma estrutura: ou os dois nominais ou os dois verbais:

Ele negou interesse no projeto e a relação do telefonema do deputado com as propostas nele apresentadas.

Ou:

Ele negou que tivesse interesse no projeto e que o telefonema do deputado tivesse relação com as propostas nele apresentadas.

 

Olho vivíssimo

Cuidado com o e que. Só se pode empregar a duplinha quando houver o primeiro quê, claro ou subentendido: Ele negou que tivesse interesse no projeto e que o telefonema do deputado tivesse relação com as propostas nele apresentadas.

Na falta o primeiro quê, se aparecer e que, o paralelismo chora de dor: 

As pesquisas revelam grande número de indecisos e que pode haver segundo turno no Distrito Federal (corrigindo: as pesquisas revelam grande número de indecisos e a possibilidade de segundo turno no Distrito Federal). 

Os trabalhadores precisam assegurar o poder de compra dos salários e que seja mantida a garantia de emprego (corrigindo: os trabalhadores precisam garantir o poder de compra dos salários e manter a garantia do emprego).

É isso: lé com lé, cré com cré.

 

Leitor pergunta

Sempre que uso o verbo rir, paro e penso. Não raro me confundo. Acho certas pessoas e certos tempos esquisitos. Por favor, jogue uma luz na minha interrogação: como conjugar o monossílabo?

Sandra Leite, Recife

Rir se flexiona em todas as pessoas, tempos e modos. Veja: eu rio, ele ri, nós rimos, eles riem; ri, riu, rimos, riram; ria, ria, ríamos, riam; rirei, rirá, riremos, rirão; riria, riria, riríamos, ririam; que eu ria, ele ria, nós ríamos, eles riam; se eu rir, ele rir, nós rirmos, eles rirem; se eu risse, ele risse, nós ríssemos, eles rissem.

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