Blog do Gilberto Jasper

Bergamota

Paisagem Gaúcha

Por Gilberto Jasper
Foto Divulgação

Tenho viajado todos os finais de semana por motivos familiares. A paisagem mais marcante sem dúvida são os pés carregados de frutas cítricas, principalmente laranjas de diversas variedades e bergamotas. Não recordo da última safra que tenha pintado de amarelo tantas árvores por este Rio Grande afora.

Sou fanático por laranja de umbigo e bergamota, do tipo montenegrina (ou mexerica), em detrimento da pokan, com de casca espessa e sabor menos marcante. Muito reclamam que as pequenas bergamotas têm o inconveniente do cheiro marcante que perdura por horas, até dias, nas mãos e na roupa.

As bergamotas são parte da minha infância. Nascido longe do perímetro urbano, num lugar de ruas de chão batido, no interior de Arroio do Meio, no Vale do Taquari, desde piá aprendi a identificar os frutos que estavam “no ponto”. Isso domou a minha pressa em subir nas árvores com primos e vizinhos, também ávidos por estrear as primeiras frutas da temporada de inverno.

Brincar num grande potreiro, com bois, vacas e bezerros, era rotina.  Desta convivência nasceu a cumplicidade para devorar os cítricos que pendiam em generosos galhos que quase tocavam o chão. Alcançávamos as bergamotas para os bovinos, com o cuidado de tirar a casca, providência completamente desnecessária, mas era um gesto de carinho.

As laranjas de umbigo aspergiam uma fina nuvem de líquido que tornava as mãos pegajosas. O primeiro desafio era conseguir descascar um exemplar, do início ao fim, sem cortar a casca que, ao final, parecia um espiral alaranjado. Surrupiávamos facas afiadas que facilitam o “descasque”, longe do olhar dos pais.

O desafio seguinte era tirar toda a “pele” esbranquiçada e o “umbigo”.  A suprema alegria consistia em partir a laranja com os dois polegares, sem deixar uma gota sequer de suco escorrer entre as mãos. O barulho dos gomos sendo separados até hoje permanece na memória.

Na minha casa havia todo tipo de frutos: melancia, butiá, maçã, pera, moranguinho, mamão, abacate e, é claro, bergamotas e laranjas de todo tipo (de umbigo, do céu e “para doces”. Meu pai era um curioso que não se contentava em contemplar árvores desconhecidas. Era comum estacionar no acostamento, sem motivos aparente. Pulava a cerca de arame farpado e retornava com um broto ou sementes para plantar nos fundos de casa. Até café nasceu para deleite do velho Giba!

Por tudo isso, a paisagem tingida de pontos amarelos na vastidão verde que emoldura as rodovias é uma viagem de doces lembranças. Longe das gôndolas do supermercado...

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