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Blog do Coluna do Leitor

30 de Agosto de 1965 (parte dois)

Por Coluna do Leitor

Neste contexto amadureceu o projeto da barragem de Mattmark em 1954. Assumiu o grandioso projeto a zuriquense ELEKTRO-WALT, ao vencer a forte concorrência de duas outras sociedades presentes há decênios no Vallese: A Grande Dixence e a Lonza. Foram longas controvérsias que se concluíram em 1959 com subentrada da SociedadeHidrelétrica Mattmark Spa com participação pública. Todavia, os trabalhos somente iniciaram em 1960 e a comunidade local desempenhou papel essencial. Em decorrência das condições atmosférica particulares que haviam tornado mais instável o excepcional frio do Allalin a mais de 2000 metros de altitude, em 30 de Agosto de 1965 sobreveio o irreparável: às 17:15 horas, em menos de trinta segundos, as barracas, a mesa e as oficinas do canteiro, expostas mesmo sob o aguaceiro, foram sepultadas debaixo de mais de cinquenta metros de aluvião, nevasca e chuva de pedra. Perderam a vida 88 entre operários, técnicos e engenheiros dos mais de 700 empregados naquele momento na construção da barragem em terra, a maior da Europa (o projeto descarta a possibilidade de construir uma barragem em cimento armado porque naquela situação local específica os custos seriam excessivos). No mínimo foram 56 as vítimas italianas, 17 das quais provenientes da província de Belluno. De episódios semelhantes ocorridos em anos anteriores deram notícia os jornais, sobretudo os locais: três operários italianos foram mortos, respectivamente em agosto de 1962 (explosão), em maio de 1963 (esmagamento por pá mecânica) e em agosto de 1964 (esmagamento por buldozer).

Em Mattmark operários estrangeiros representavam 73% dos empregados. Tenha-se presente que no triênio 1963-1965, apenas no setor de construções no Vallese se registrou, em média, uma presença anual que foi além de 15000 indivíduos. Na construção da barragem, a preferência apresentada nas comparações da imigração italiana provavelmente foi decorrente do fato de que nossos patrícios, repete Antonio Cortese, se adequavam facilmente às péssimas condições habitacionais e principalmente estavam dispostos a trabalhar até 15-16 horas diárias, domingo inclusive, em temperaturas que à noite caiam trinta graus.

A conclusão do fato no aspecto judiciário certamente não foi feliz. Em 29 de Fevereiro de 1972, no processo de 1º grau, o Tribunal distrital de Visp determinou finalmente o pagamento de multa de 1000 a 2000 francos, com absolvição de todos os imputados de homicídio culposo já que a catástrofe não teria sido previsível. Sucessivamente o Tribunal Cantonal de Sion não apenas confirmou a tese da imprevisibilidade da catástrofe, mas, confenou os familiares das vítimas ao pagamento de 50% das despesas processuais.

Decorridos quase 50 anos o Cantão Vallese inseriu a italianidade como bem imaterial para reconhecimento de sua tutela da parte da UNESCO. Portanto, não se pode esquecer que como reação a tudo quanto ocorrido em Mattmark, em 1966 surge a Associação de Emigrantes Bellunenses (AEB).

Para ulteriores informações remeto ao belo livro de Toni Ricciardi “Morrer em Mattmark” no qual me baseei abundamente para estas considerações, enfatiza A. Cortese. Que prossegue: “Agrada-me concluir com breves anotações relativas à imigração italiana naquilo que foi definido como “Época das infraestruturas”. Particularmente me interessa ressaltar que importantes atrativos de trabalho foram ofertados a nossos emigrantes para construção de ferrovias em várias partes do mundo. Coube aos trabalhadores italianos, e talvez mesmo a nossas empresas, a construção da primeira ferrovia de Montenegro (de Pristan a Vir), da ferrovia de Tonquim, na parte norte do Vietña, no comprimento de 855 quilômetros (muitos vênetos entre os mil operários italianos empregados), da linha Pequim-Hankow na China, um longo trecho da Transiberiana e muitas obras na Europa ou em outros continentes. Atenho-me mais exatamente na colaboração prestada por milhares de emigrantes italianos (os Belluneses não faltaram) na construção das travessias ferroviárias através dos Alpes (Simplon, Gottardo, Brenner e outros).

Tratou-se de trabalhos perigosos destacadamente pelo uso da dinamite na abertura de galerias. Para a construção do túnel do Gottardo, entre 1873 e 1882, registraram-se, por exemplo, ao menos 177 casos mortais e 403 casos não fatais (está escrito acerca de uma necrópole de trabalhadores italianos” os chineses da Europa”). Menciono porque se por Mattmark se falou em “Marcinelle esquecida” fica evidente que houve muitas outras catástrofes que envolveram nossos concidadãos, fatos sobre os quais valeria a pena rebuscar análise mais profunda.

Ernesto Cassol

Professor na URI/Erechim

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