Blog do Gleison Wojciekowski

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José Luis da Silva e o canto coral

Por Gleison Wojciekowski

Um garoto negro, oriundo de uma família pobre, que através do canto coral modificou a vida de diversas pessoas com quem teve contato. Pelo seu toque de Midas transforou adolescentes não somente em cantores e regentes, mas essencialmente em cidadãos. Esse foi o legado da vida do maestro José Luis da Silva, ou somente Zé Luis.

Nascido em 04/07/1951, na cidade de Campinas (SP), filho de Euricoda Silva Neto e de Juraci da Silva, tendo mais cinco irmãos (4 consanguíneos e 1 adotivo) era chamado carinhosamente de Zé pelas pessoas próximas. Apaixonado pela música do compositor alemão J. S. Bach, teve uma infância difícil e desafiadora. Seu primeiro contato com a música surgiu através das aulas de violão no Conservatório Carlos Gomes, pelas mãos do professor Isaías Sávio, mas foi em um projeto social chamado Patrulheiros Mirins da cidade de Campinas (SP), onde adquiriu uma sólida formação humana e artística.

Nessa instituição para menores, José Luis teve seu primeiro trabalho profissional relacionado à música. Deu aulas de violão, criou um grupo coral, além de compor a melodia do Hino do Patrulheiro, isso aos 14 anos de idade.

Por ocasião do cinquentenário da instituição em 2016, José Luis recebeu uma homenagem naquela cidade, momento em que a Orquestra Sinfônica Patrulheiros de Campinas executou o hino sob a regência de seu compositor.

Estudou na escola jesuíta e posteriormente participou dos cursos livres da Unicamp, tendo aulas com professores como Benito Juarez, Almeida Prado, Raul du Vale, Vilma Coelho Brandeburgo além de outros. Ainda em Campinas graduou-se em Filosofia pela PUC.

José Luis da Silva estudou composição na Faculdade de Música Mozarteum (SP), e violão com Isaías Sávio, graduou-se em música com habilitação em Regência Coral, ambas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, em Porto Alegre.

Os seus estudos incluem ainda a graduação em Teologia pela Sociedade Brasileira de Educação - FASP, mestrado em Planejamento e Gestão Ambiental pela Universidade Católica de Brasília – UCB, e iniciou o doutorado em Políticas Públicas de Gestão Ambiental pela Universidade Federal de Brasília – UNB, interrompido em 2007.

Zé Luis veio para o Rio Grande do Sul na década de 1970, onde prestou concurso público para o estado. Foi casado e teve dois filhos, Nina Rosa (nasc. 1981) e Rodrigo (nasc. 1983), este inclusive passou pelo Ipiranga de Erechim como jogador de futebol.

Em Porto Alegre, José Luis trabalhou como regente do Coral Juvenil Ars Nova (ligado à Escola de 2º Grau da Brigada Militar e à Escola Estadual de 1º e 2º Grau Paulo Gama), regente do coro Renascente (1984 até 1986), e coordenador de Educação Artística da Diretoria Pedagógica na Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul – SEC/RS (além de dirigir o coro da SEC).

Em 1990 e em um curso de regência coral que estava ministrando no Colégio São José na cidade de Erechim, teve contato com a então professora e regente de orfeões Eni Maria Scandolara, que encantada com seu trabalho, o apresentou para a então secretária de Educação e Cultura Maria Elisa Zordan Franceschi e para o prefeito da época Elói João Zanella.

Graças à sensibilidade do prefeito, esse encontro resultou na criação do Coral Juvenil de Erechim em 1990, que naquele momento era uma inovação, pois na cidade de Erechim existiam coros adultos (Coro da URI, Coro Misto São José, Coro Misto São Pedro) e orfeões infantis (Orfeão Bem-Te-Vi), sendo uma novidade o trabalho com essa faixa etária.

O Coral Juvenil de Erechim agregou grande número jovens, sendo necessário a criação de um coro “B”, chamado carinhosamente pelo maestro de “Coral Escola” (no intuito de dar vazão a todos os  alunos interessados). O número de integrantes que se apresentava variava de acordo com a capacidade do transporte (ônibus) que estivesse à disposição, chegando a mais de 50 componentes.

O trabalho desenvolvido junto ao Coral Juvenil de Erechim resultou em diversas premiações, como inúmeros “Troféu Popular” da Fecors, festivais regionais, apresentações no Palácio da Guanabara no Rio de Janeiro, culminando com o segundo lugar no I Concurso Nacional de Coros, realizado na Sala Cecília Meireles no Rio de Janeiro.

O Coral Juvenil excursionou por diversos estados brasileiros além de países como Uruguai, Argentina, Paraguai e Chile. Em 1996 o Coral Municipal Juvenil de Erechim gravou um CD com 16 canções, entre elas a Canção do Entardecer, uma composição de José Luis. Este CD foi produzido pela LC Produções e Gravações a pedido da prefeitura municipal de Erechim.

O Coral Juvenil de Erechim se apresentou por diversas cidades da região e o impacto destas apresentações resultou na contratação do maestro José Luis para reger diversos coros das cidades vizinhas, como Gaurama (atualmente Coro Vida e Canto), Marcelino Ramos, Getúlio Vargas, Sarandi entre outros, além, de um convite para dirigir o Coro da Fapes (atualmente URI), em substituição à maestrina Neiva Grock. José Luis permaneceria frente ao grupo até ser substituído pelo maestro Aldo Ademar Hasse. José Luis dirigiu também o Coro Adulto São José, além de participar da fundação do Coral Acorde.

Em 2002 foi convidado para assumir a Coordenação do Movimento Coral da Universidade Católica de Brasília, transferindo-se para Brasília (DF), onde permaneceu até 2008, quando retornou ao Rio Grande do Sul para trabalhar em um projeto do Sesi em Porto Alegre.

Após sofrer dois AVC´s (acidente vascular cerebral), acometido de doença hipertensiva e em dificuldades financeiras, no final do ano de 2010, Zé Luis foi acolhido novamente por seus ex-cantores, mobilizados pela família Batista que, de forma carinhosa o convidaram para voltar a reger.

Em 2011 surge o Coro Cantares (inicialmente chamado de ACORDE) reacendendo a chama do canto coral através da promoção dos Festivais de Inverno de Erechim, além da participação em diversos eventos da região e estado.

A recepção da Tocha Olímpica (em conjunto com a Orquestra Belas Artes ) assim como o evento Natal da Amizade, foram pontos marcantes do  Coro Cantares em Erechim.

José Luiz compôs mais de uma centena de canções, além de ter elaborado dezenas de arranjos corais. Para citar algumas de suas composições: Canção do Entardecer, Milonga para Maria, Sonho e Paz e Magnificat.

Incentivados pelo maestro, dentre seus alunos muitos fizeram da música como profissão, como Fernando Montini (cantor e regente), Jean Domingues (violonista e baixista), Maurício Castelli (regente), Bernardo Grings (regente), Fabiana Lucion (regente), Fernando Savegnago (violonista e médico), Goy Komosinski (regente), Martinez Nunes (regente e compositor), Alexandre Pompermaier (instrumentista e professor), além de outros.

José Luiz da Silva foi encontrado morto no apartamento onde morava, localizado no bairro Morada do Sol no dia 9 de maio de 2017 em decorrência de mais um AVC. Foi sepultado no dia seguinte, no cemitério Municipal Santa Cruz do Bairro Presidente Vargas, onde seus coristas e amigos o homenagearam cantando músicas que aprenderam com seu mestre.

A música e os ensinamentos de José Luis da Silva continuam vivos através destes cantores e regentes, essencialmente com o movimento do canto coral em Erechim que, segundo o ex-prefeito Elói Zanella “pode ser dividido entre o antes e o depois do trabalho de Zé Luiz”.

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