0°C
Erechim,RS
Previsão completa

Publicidade

Blog de Coluna do Leitor

  • O outro lado do Cosmos

    Por Coluna do Leitor

    No meu tempo de menino, a viagem ao Morro dos Conventos, litoral de Santa Catarina, era a ida ao fim do mundo, último pedaço sólido da Terra.

    A Rural Willys, ano e modelo 1959, tração nas quatro rodas, partia na madrugada escura, com carga total, muito acima de qualquer limite de razoável prudência. Serpenteava lenta e pesada por caminhos sinuosos que pareciam nunca terminar.

    A saída era por Lagoa Vermelha, trajeto de lama e pedras. Cruzava pontilhões de tábuas brutas e aldeias indígenas. Depois surgia Vacaria, já no final da manhã. Nesse ponto se atingia o meio (bom) da empreitada. Logo em seguida vinha a outra metade, ainda mais incerta, com maiores riscos e dificuldades - muitas vezes intransponíveis. Com bravura, conduzida pelos braços fortes do pai, a camioneta singrava os verdes campos de cima da serra. Adiante apareciam Bom Jesus, São José dos Ausentes e outras paragens de grande altitude: centenárias cercas de taipas (feitas por mãos escravas), cerradas neblinas e ventos cortantes que faziam estremecer.

    Entre uma parada e outra, ao consertar alguma avaria veicular, saboreávamos os formidáveis queijos serranos. Depois, lá na frente, alcançávamos os imponentes Aparados. O limite entre os Estados dava em uma passagem escarpada entre os rochedos da Serra do Mar. Na realidade não se tratava de um caminho, e sim, uma picada incrustada ao imenso paredão sem fim. Na descida, a cautela recomendava o uso de marcha reduzida enquanto a valente Willis bufava, rangia e gemia desesperada, agarrada ao saibro liso do chão inclinado. Quinze fantásticos quilômetros de íngreme declive separavam mil e trezentos metros de altitude, divisor de águas, do nível do mar.

    Na sequência do percurso, velhas pontes feitas de madeira completavam a paisagem da estradinha de seixos, ermas planícies do rio Araranguá. Finalmente, depois de mais de uma dezena de horas, chegávamos ao almejado destino, muito além de tudo que até então existia, o outro lado do Cosmos.

    Foi daí que descobri que a Terra não é pequena e muito menos plana. É sim vasta e cheia de dobras, recortes e redundâncias que insistem em desafiar o tempo e a curiosidade da criança que resiste em mim. O mar, por sua vez, sim, é plano, planíssimo, imenso e azul, quase do tamanho do céu - onde um dia todos nós vamos morar.

    Pelo menos foi assim que aprendi e ouvi da avó ao brincar na areia branca da praia, naquele passado tão lindo para mim. Passado, hoje perdido no tempo e na memória, distante para sempre, longe demais para voltar.

     

    Dr. Alcides Mandelli Stumpf

    Médico

Blog dos Colunistas

Publicidade

Horóscopo

Peixes
20/02 até 20/03
Trabalhar em equipe e trocar ideias com os colegas pode...

Ver todos os signos

Publicidade