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Blog de Salus Loch

  • Pensamento cristalizado, piloto automático e o raciocínio crítico/flexível

    Por Salus Loch

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    A humanidade vive um período marcado pela intolerância, nacionalismos e boa dose de ódio – assumido, aliás, sem medo nas redes sociais e nas ruas. Olhe para o lado e você verá. Uma dica, porém, não encare muito as pessoas em seu entorno: pode acabar em baixaria.

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    Os extremos vão da direita à esquerda e assustam. Preocupam. Entristecem.

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    Tempos sombrios rondam desde pequenas cidades, como Erechim, até conglomerados do tamanho de Nova York – a metrópole norte-americana que viu morrer, em 1975, uma das teóricas políticas mais influentes do século 20, Hannah Arendt. É sobre alguns conceitos e ideias dela que gostaria de falar hoje.

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    De origem judia, Hannah Arendt nasceu na Alemanha em 1906. Aos 27 anos, fugiu do Nazismo e, quatro anos depois, perdeu a nacionalidade alemã, virando apátrida até se tornar cidadã americana, nos idos de 1951.

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    O principal conceito de Hannah, o pluralismo político, defende a importância de existir igualdade política e liberdade, com tolerância e respeito às diferenças, visando à inclusão – servindo como princípio básico das democracias modernas.

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    No entanto, é sobre a ideia do ‘pensamento cristalizado’ desenvolvido pela teórica, que vou discorrer com mais profundidade. A excepcionalidade do alvorecer de 2019 pede esta abordagem.

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    Como revela a obra ‘Elástico’, do escritor norte-americano Leonard Mlodnow (que está em Porto Alegre esta semana, no 10º Forum Instituto Unimed), pensamentos cristalizados, na concepção de Hannah Arendt, nada mais são do que ideias e princípios profundamente arraigados que desenvolvemos algum tempo atrás e, desde então, deixamos de questionar.

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    Sob este ponto de vista, a confiança e a aceitação complacente de tais ‘verdades’ seria algo como um ‘não pensar’. Comportamento roteirizado, digno de um computador qualquer ou um ser humano em ‘piloto automático’.

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    Pessoas que funcionam sob os ditames de pensamentos cristalizados podem ser eficientes processadores de informação, mas aceitam cegamente ideias que se encaixam tal qual o seu modo de ver as coisas e resistem a aceitar as que não se encaixam, mesmo quando comprovadas por todas as evidências. Vide a ‘questão’ da Terra Plana.

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    O pensamento cristalizado acontece quando se tem uma orientação fixa que determina a maneira como se enquadra ou se aborda um problema.

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    O desafio contemporâneo é desligar esse modo operacional mental e reexaminar nossos pensamentos cristalizados quando for necessário. A proposta seria alcançar o pensamento crítico.

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    Para Hannah Arendt, o pensamento crítico seria um imperativo moral àqueles que estivessem interessados no imperativo do mal. Na ausência da análise crítica, uma sociedade poderia seguir o caminho da Alemanha Nazista, risco ainda presente em muitos países hoje.

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    Ainda assim, observou Hannah Arendt, um número surpreendente de pessoas não pensa criticamente. Nem ontem – e muito menos hoje, aparentemente. A incapacidade de pensar, reflete a alemã expatriada, não seria ‘burrice’, podendo, aliás, ser observada em gente inteligentíssima.

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    É uma ironia que o pensamento cristalizado seja um risco específico, considerando profissionais especialistas em determinadas áreas. Conforme Hannah, quando se é especialista, um conhecimento profundo tem realmente grande valor diante dos desafios habituais da profissão, mas a imersão nesse corpo de sabedoria convencional pode ser um empecilho para aceitar ou criar novas ideias, ou quando em confronto com o novo e a mudança.

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    Como explica Mlodinow – a quem tive a oportunidade de entrevistar esta semana –, assim como um experiente golfista pode ter dificuldade para alterar um estilo de tacada decodificado em seu córtex motor, muitos pensadores profissionais (no Brasil e fora daqui) têm dificuldade para se livrar das formas de pensamento convencional alojadas no córtex pré-frontal. E o pior é que, assim, eles seguem influenciando muita gente, inclusive, detentores de poder nas esferas públicas.

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    Mas, então, o que fazer para sair do ‘buraco’, quando ele já está cavado e cristalizado? A resposta passa, necessariamente, pela rápida capacidade de adaptação. Tornar-se flexível e aberto a mudanças de cenários e roteiros – tão prementes na era digital. Afastar-se da crença enraigada e se permitir observar, ler e analisar pensamentos diferentes, os quais, acredite, também podem ter sua dose de razoabilidade.

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    No começo, se abrir para novos conceitos e ideias pode ser desconfortável. Entendo. É difícil refutar crenças históricas. Mas, depender de uma doutrina fixa é um falso conforto, além de perigoso – se mudarem as condições e a doutrina não mudar, pode haver sérios desastres. Olhe para o lado e verá. Mas, não encare. Apenas mude, se achar prudente ou necessário.
    Seja elástico, sem perder o discernimento jamais.

    Para pensar:

    # Em seu último livro ‘Sobre a Violência’, Hannah Arendt sustenta que poder e violência são opostos; onde um domina absolutamente, o outro está ausente. A obra, rapidamente abordada pelo site Galileu, é inteiramente dedicada a compreender por que o mundo vivia (e ainda vive) uma escalada de destruição e guerras. Ela mostra que a glorificação da violência não se restringe à minoria dos militantes e extremistas. E que a base do poder é, na realidade, convivência e cooperação. Segundo Hannah, a violência destrói o poder, pois se baseia na exclusão da interação e da cooperação entre as pessoas.

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