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Economia

Como transformar Erechim em uma Cidade Inteligente – Final

Na última reportagem da série que discute como transformar Erechim em uma ‘Smart City’, o Bom Dia entrevista um dos principais ideólogos do projeto, o professor Romano Toppan. Vale a leitura – e a reflexão. Agradecimento, também, ao Instituto Jaci De Lazeri, pela parceria

‘Numa cidade inteligente, o capital social vem antes do capital econômico’, diz Toppan
Por Salus Loch
Foto Divulgação

Com o Sr definiria uma cidade inteligente?

As cidades inteligentes não são uma descoberta de hoje; elas também existiram no passado. Veneza, Florença, Paris, e mesmo Atenas, já adotavam, em diferentes períodos e guardada as proporções, proposta semelhante ao conceito contemporâneo. Isso serve para dizer que a fórmula da cidade inteligente, hoje, com a globalização e a expansão de novas tecnologias, pode ser implementada por qualquer cidade do mundo, desde que seja capaz de adotar um estilo de governo aberto à inovação, atenta às necessidades de desenvolvimento sustentável, dotada de liderança inteligente e capaz de assegurar uma forte coesão social e cidadania ativa.

Neste aspecto, qual o conceito essencial?

A centralidade do capital ou da riqueza "intangível" em relação ao tangível. É o refinamento de seu capital social e imaterial sobre o material e o visível. A capacidade de criar redes de conexão entre os cidadãos para uma solidariedade profunda, para uma identidade compartilhada e criatividade na lógica de uma economia orientada para o bem comum – de uma economia fundada na qualidade de vida, em bem-estar. Seria a economia da felicidade, que pode gradualmente substituir os indicadores tradicionais do PIB por indicadores inovadores da FIB, ou seja, a Felicidade Interna Bruta dos cidadãos.

Como nasce uma cidade inteligente?

Para se tornar uma "smart city", a organização EasyPark, que publica todos os anos ranking das 100 melhores cidades inteligentes do mundo, exige a presença dos seguintes indicadores: uso de energia limpa e alternativa na lógica de proteção ambiental e desenvolvimento sustentável; planejamento urbano correto; ecossistema empreendedor organizado na rede que inclua todos os atores do sistema econômico (empresas, distribuidores, fornecedores, clientes e órgãos públicos ou governamentais) em termos competitivos e cooperativos;  uso da internet de alta velocidade e a alta penetração de smartphones, com acesso on-line efetivo e rápido aos serviços públicos do governo local e estadual e, por último, mas talvez o mais importante, participação ativa dos cidadãos na qualidade global da cidade.

Quais as principais barreiras para que Erechim se torne uma smart city?

Erechim tem uma estrutura urbana que oferece vantagens importantes para a criação de uma cidade inteligente: não é muito grande e embaraçante, não tem subúrbios de pobreza e marginalização das favelas, criminalidade e discriminação social. Está no centro de um sistema territorial com forte identidade e funciona como um atrativo "ímã" para o Alto Uruguai. Tem alto índice de desenvolvimento sócio-económico (Idese) e é líder em um dos fatores mais importantes de cidades inteligentes: o sistema educacional, que promove a investigação, a inovação, a disseminação do conhecimento, especialmente com a contribuição de escolas como a URI, UFFS, UERGS e o Colégio Anglicano Barão do Rio Branco. Erechim é também uma das primeiras cidades modernas que adotaram critérios urbanos inspirados nos modelos de capitais como Paris, Buenos Aires e Belo Horizonte, com ruas largas e fluidas. Tem uma boa reputação e sua gestão política parece ter sido boa no passado e ainda é positiva hoje. A cidade, porém, tem limites que são um certo atraso em novas tecnologias e novas economias, especialmente na adoção de sistemas de rede e gestão integrada tanto das suas empresas de produção quanto das cadeias de valor econômico do entorno e da província de referência. Obviamente, devemos superar os pontos fracos e aproveitar ao máximo os pontos fortes: o caminho para a cidade inteligente começa com a participação ativa dos cidadãos, com uma tabela de valores compartilhados por todos, por exemplo, na gestão do ambiente natural e urbano, no tráfego, nos sistemas de produção, na capacidade de promover a criação de empregos e negócios inovadores.

Este modelo de cidade é compatível a municípios de todos os portes?

Com certeza. Na verdade, nos primeiros lugares do ranking de cidades inteligentes do mundo encontramos cidades de porte médio como Copenhague, Boston e Vancouver e cidades muito grandes como Tóquio. Depende apenas do grau de coesão social e cultural dos cidadãos e dos governos em torno das diretrizes da cidade inteligente.

E o cidadão 'comum' como pode contribuir? Onde entram as universidades?

Os cidadãos comuns, através de organizações como o Fórum aberto a todos, participam de grupos ou associações de trabalho e pesquisa sobre temas específicos, comprometendo-se a contribuir ao longo do planejamento do desenvolvimento sustentável da cidade: definir os objetivos gerais e específicos, adotar métodos de trabalho individuais e de grupo consistentes com os objetivos propostos, monitorar passo a passo a consecução dos objetivos e a correção de erros ou as falsas providências adotadas, verificando se a qualidade de vida melhora ou não ao longo dos anos. Exemplo: percentuais de poluição, melhoria do clima, uso de fertilizantes ecológicos para o trabalho dos campos, crescimento de compras verdes e consequentemente da produção de produtos biológicos, etc. As Universidades, que são para Erechim um fator fundamental de pesquisa e criação de idéias inovadoras, desempenham um papel vital e devem ser o braço operacional mais próximo do governo da cidade, especialmente ao mobilizar as energias dos jovens, que são mais rápidos em compreender e adotar tecnologias digitais e de informação e do networking e as redes das redes.

O Sr enfatiza a importância da cultura da colaboração e do espírito de inovação numa cidade inteligente, como pilares fundamentais dessa nova visão.

Exatamente. Os conceitos que expus no início retornam: o capital social vem antes do capital econômico e a inovação se acentua e acelera o processo. Um dos economistas pioneiros nessa nova maneira de conceber a economia capitalista é precisamente o brasileiro Hélio Mattar, que tive a honra de conhecer pessoalmente. Uma análise interessante da relação entre ativos tangíveis e intangíveis e o crescimento dos ativos intangíveis em relação aos ativos tangíveis da atividade econômica atual e futura pode ser encontrada no seu relatório à Conferência Internacional sobre 'O Imaterial” realizada em Ravello, na Itália, no início dos anos 2000, com o título: “Integração Econômica e Responsabilidade Social”. Atualmente opera na Fundação para o Empreendedorismo Social em Genebra, na Suíça. Mattar analisou a relação entre os ativos intangíveis e os ativos tangíveis e valores materiais da economia mundial de 1941 a 2000: em 1941, os ativos intangíveis representavam 17% da economia, hoje superam os 70%. Um exemplo? A economia do turismo é um componente muito significativo desta transição para a economia intangível e tem a maior volume de negócios de todas as outras economias, incluindo as do petróleo. E o turismo distribui emoções e experiências, não produtos materiais. Hoje as formas de economia intangível são numerosos e estão crescendo em importância: em primeiro lugar a economia da felicidade (o bem-estar, que foi elaborada pelo economista Daniel Kahneman, prêmio Nobel de economia em 2002), em segundo lugar a economia do dom, nomeadamente a economia do setor voluntário e terceiro. E ainda a economía da cultura e do conhecimento, a economia digital e assim por diante Está mudando radicalmente a avaliação da riqueza das nações: medida de acordo com critérios tradicionais do PIB, não satisfaz quase ninguém e muitos grandes economistas, entre tais como Amartya Sen, Joseph Stigliltz, Jean-Paul Fitoussi, propõem de maneira cada vez mais fundamentada a necessidade e a urgência de mudar os parâmetros de avaliação da riqueza de um país ou de uma cidade, introduzindo indicadores ligados à qualidade do capital social e cultural, aos bens relacionais e à medida da felicidade. A cidade inteligente é uma palavra-chave que tenta introduzir uma nova visão e uma nova forma de avaliação da riqueza e prosperidade das cidades e nações. Neste contexto, recordo a mensagem que o Fórum Social Mundial lançou há algum tempo: "Outro mundo é possível". Considere que as quatro primeiras edições deste importante Fórum foram realizadas em Porto Alegre. Se juntarmos os documentos finais da Conferência do RJ sobre o desenvolvimento sustentável e os documentos finais do Fórum Social Mundial, podemos dizer sem hesitação que o Brasil é o país que contribuiu para lançar no mundo de hoje quase 100% dos valores e dos princípios dum novo mundo, incluindo os das cidades inteligentes, que estão na base de um programa de desenvolvimento sustentável e inovador. Uma nota final que diz respeito à história do Rio Grande do Sul: uma das primeiras experiências de "cidade inteligente" foram as missões jesuíticas, com um modelo de governo semelhante ao da República de Veneza.. Além disso, as missões jesuíticas Guarani anteciparam o direito ao trabalho: fixaram o dia de trabalho em seis horas por dia, o que permitiu que os índios tivessem tempo suficiente para realizar outras atividades. Mas, atenção! O caminho em direção das cidades inteligentes pode ser bloqueada pelas mesmas forças que bloquearam e destruíram as missões.

Gostaria que o Sr citasse algum modelo de cidade inteligente que se adequaria ao perfil de Erechim.

No topo do ranking das “smart cities” no mundo há Copenhague. Considerando que a Dinamarca tem estado muitas vezes na vanguarda da felicidade das nações, sugiro que o governo de Erechim faça contato com o governo de Copenhague: os dinamarqueses são pessoas sérias, ativas e de mente aberta e certamente estarão dispostos a cooperar, para transferir boas práticas e modelos de gestão de cidades inteligentes. A capital dinamarquesa derrotou Cingapura (número 2) e a capital da Suécia, Estocolmo (número 3), pela honra da "cidade mais inteligente". Uma boa colaboração também pode ser obtida com Boston ou Toronto. A primeira cidade brasileira na classificação de smart cities é São Paulo, número 80 em 100: grande demais para ser um modelo apropriado para Erechim. Ou um contacto muito útil pode ser Lisboa, não só por causa da afinidade linguística que facilita relações, mas também pela criação de intercâmbios de especialistas, e talvez até ajuda económica derivada do fato de Portugal estar na União Europeia, que concede financiamento neste campo.

Por fim, como o Sr imagina as cidades daqui a 20 anos? E qual o papel dos jovens nesta construção?

As cidades em 20 anos serão quase um corpo e uma alma, através da economia das redes. O homem se tornará como um homem-aranha (spiderman), depois do homo erectus, do homo de Neanderthal e do homo sapiens: um homen novo, cheio de conexões e redes, e os cidadãos poderão viver um fórum permanente de troca, ajuda, informação e aumento de serviços e bens comuns. Por exemplo, a posse do carro será substituída por compartilhamento de carros. Nessa nova geração, que nasceu com todo o equipamento digital e de informática dentro de seus cromossomos (hoje uma criança de sete anos conhece e usa a internet e o aplicativo melhor do que um adulto de 50), serão os protagonistas de todos os principais eixos da cidade inteligente, que são:

•  uma economia inovadora, criativa, concreta; •  mobilidade inteligente (sustentável, leve, com um impacto ambiental muito baixo); • um ambiente inteligente (paisagem urbana atraente, coleção separada de resíduos, economia de energia, marcas de ecoturismo); • pessoas inteligentes (capital humano, inclusão social, solidariedade, trabalho em equipe em todos os lugares); • uma vida inteligente (estilo de vida orientado para o bem-estar, felicidade, mais do que dinheiro, bens relacionais em vez de bens materiais); • Governança inteligente (liderança competente, democracia generalizada, participação ativa, perspectiva ascendente, competência e integridade moral). Portanto, agora, imediatamente, é necessário favorecer a criação de novas empresas com novas tecnologias, sobretudo para os jovens, com a ajuda do webcasting.

 

Quem é Romano Toppan:

Nascido em Treviso (Vêneto, Itália), o professor Toppan, 73, é formado em Filosofia e Teologia na Universidade Pontifícia, de Roma. Além disso, é mestre em Psicologia Educacional, na Universidade de Pádua, e em Economia do Turismo pela Universidade Luigi Bocconi, de Milão. Participou de dois períodos de estudo com bolsas em Sistemas de Educação na Inglaterra (1975) e na Alemanha (1986). É especialista do Programa de Desenvolvimento Local; de programas de criação de emprego; do Projeto de Turismo Sustentável, conservação e valorização do patrimônio ambiental e cultural; de certificação de qualidade em regiões italianas e no exterior, em particular no contexto de atividades da Organização Internacional do Trabalho, do Conselho da Europa, da Organização Mundial do Turismo e da União Européia. Foi Gerente de Educação da Business School para as Pequenas Empresas e de Artesanato da Região de Vêneto, onde realizou durante oito anos (1974-1982) o maior programa de treinamento até agora conhecido no mundo, envolvendo 16 mil pequenos empresários e artesãos, garantindo a consolidação do modelo de desenvolvimento original e surpreendente da Região do Vêneto.

Também já foi vice-diretor do Centro Europeu de Formação de Artesãos para a Conservação do Patrimônio Arquitetônico, fundado pelo Conselho da Europa, em que projetou e coordenou programas de capacitação e de graduação para mais de 1.500 artesãos e técnicos para a conservação do patrimônio cultural mundial (Europa, Ásia, África, Austrália e Américas).  É docente de Economia do Turismo na Fundação ITS-Universidade de Veneza. Realizou mais de 100 palestras em congressos nacionais e internacionais e escreveu mais de 300 publicações sobre diversos temas. Fluente em Português, Inglês, Francês, Espanhol e Alemão.

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