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Erechim 101 anos

"Há muito por se fazer ainda"

Por Igor Dalla Rosa Müller
Foto Divulgação

Essa é a avaliação da técnica em Turismo da prefeitura municipal de Erechim, Michele Sansigolo dos Santos, sobre o setor turístico de Erechim. Segundo ela, é preciso criar um Plano de Desenvolvimento e uma legislação específica de Turismo Rural. "Há a urgente necessidade de investir em marketing turístico, de qualificar o trade e vender Erechim turisticamente", afirma Michele que também é pós-graduada em Gestão Hoteleira e Gestão de Eventos.

BD - Mesmo em períodos de instabilidade econômica, as cidades com turismo têm, nessa atividade, um fonte de renda e desenvolvimento. Na sua avaliação, como está o turismo em Erechim?

Michele - O Turismo contribui diretamente para o incremento do PIB, criação de empregos, geração de impostos, aumento da distribuição de renda e em todas as atividades empresariais a ele direta ou indiretamente relacionadas. É um fenômeno que move milhões de pessoas e está em contínuo desenvolvimento. Além de movimentar economicamente o município, contribui significativamente para reforçar a identidade da comunidade receptora, que irá se mobilizar para gerar produtos, afim de atrair e fidelizar os turistas.

Em Erechim, a mobilização iniciou em meados da década de 90, com a criação do Departamento de Turismo e Eventos. A partir daí surgem vários movimentos de sensibilização para o desenvolvimento da atividade. Há a abertura de novos hotéis. O auge hoteleiro acontece entre os anos de 2010 e 2014. Hoje, são aproximadamente 1.600 leitos em 25 hotéis e pousadas. Inúmeros restaurantes, bares e lancherias, além de boates e locais para happy hours, pontos de táxis - estrategicamente localizados, locais de fomento a cultura, centro de convenções, Centros de Tradições Gaúchas, propriedades de Turismo Rural, tudo isso, formando o trade turístico em Erechim.

Com toda esta estrutura, somando-se as riquezas naturais e culturais, precisamos consolidar Erechim como um destino de Turismo de Negócios e Eventos. Com a Linha Turismo, e os roteiros turísticos já formatados e ainda com aqueles em formatação, Erechim precisa de agentes de viagens e turismo, ou seja, de receptivos, que comercializem os nossos produtos e que divulguem o que temos para atrair novos consumidores/turistas.

BD - O município tem potencial para o turismo? É uma cidade hospitaleira?

Michele - Erechim é conhecida como a Capital da Amizade. Todos que aqui chegam comprovam este slogan. Nós sabemos receber bem. Temos simpatia e somos acolhedores. Quanto as nossas potencialidades, podemos destacar a nossa maior riqueza - o nosso povo, a cultura das etnias que colonizaram esta terra, além das propriedades rurais, da gastronomia diferenciada nas festas típicas, o Polo de Cultura e o Parque da ACCIE, o Estádio Colosso da Lagoa, as universidades, as manifestações religiosas e seus templos sagrados e históricos, os Centros de Tradições Gaúchas, o Centro Histórico que dispõe de um maravilhoso museu a céu aberto em arquitetura Art' Decó, os eventos já consagrados como o Rally Internacional e o Acampamento Farroupilha, o Castelo Alabardas, que além de uma arquitetura diferenciada, promove jantares com culinária internacional, o Parque Longines Malinowski, o Centro Cultural 25 de Julho, entre outras tantas atrações que diferem Erechim.

BD - Quais são os principais desafios para os próximos anos desse setor?

Michele - O principal desafio é consolidar Erechim como um destino turístico de Negócios e Eventos, Cultural - englobando aqui o segmento rural, de saúde e religioso. Para que isso aconteça, precisamos melhorar a infraestrutura turística, divulgar adequadamente os nossos produtos e serviços, mostrando o real valor turístico, e principalmente, qualificar os profissionais do setor. Isso tudo, por que o turismo não se faz apenas com belas paisagens. Todos os investimentos públicos no setor são significativos, mas se justificam, diante do retorno da atividade para a sociedade, principalmente, quando falamos em qualidade de vida.

BD - Quantos turistas passam por Erechim anualmente? Esse é um número satisfatório?

Michele - Os últimos estudos do Ministério do Turismo apontam que em 2016, Erechim obteve uma demanda doméstica de 74.445 turistas. Em 2017, este número avançou para 87.999 turistas. Já a demanda internacional foi de 1.539 turistas em 2017. Vale salientar que estes dados são fornecidos pelo Ministério do Turismo, e estão inclusos os turistas dos segmentos: negócios e eventos, culturais, de família, de saúde e de lazer.

Analisando o ano de 2017, tivemos um total de 89.538 turistas. São praticamente 7.500 turistas circulando entre nós, todos os meses. Não percebemos, porque em nosso subconsciente ainda temos aquela ideia de turista segurando uma máquina fotográfica, usando uma camisa floral - "tipologia antiga". Atualmente não. Eles estão entre nós, e circulam naturalmente, sem percebermos. Estes turistas permanecem em Erechim, no máximo 48 horas, com raras exceções. A movimentação, em sua grande maioria, acontece entre terças e quintas-feiras.

Estes números são bons, mas não satisfatórios. Precisamos movimentar a rede hoteleira, principalmente, nos fins de semana, com eventos de qualidade e que tenham continuidade. Precisamos, também, fomentar os roteiros turísticos já formatados, ofertando-os nos finais de semana, e para o público que deseja "turistar" à tarde com as crianças ou a melhor idade.

BD - Quais são os principais eventos do ano? Existe uma programação definida?

Michele - Erechim dispõe de eventos consagrados como o Rally Internacional; o Acampamento Farroupilha; as Romarias, principalmente a de Fátima, que atrai milhares de fiéis, anualmente; o Natal Erechim, que precisa ter um programa tanto para público infantil quanto para as famílias como um todo; os eventos técnico-científicos das instituições educacionais, entre outros. Estes eventos precisam ser fortalecidos, criando um calendário permanente, através de legislação específica, planejando antecipadamente para uma melhor divulgação na região, no Estado e no País.

BD - Como o turismo está estruturado no município?

Michele - Em Erechim as políticas públicas do turismo estão vinculadas à Secretaria Municipal de Cultura, Esporte e Turismo, com uma diretoria específica. Nesta diretoria, dispomos da parte técnica, de um Conselho Municipal de Turismo e da Linha Turismo Erechim.

A Linha Turismo Erechim é uma linha de ônibus especial que circula nos principais produtos turísticos, e foi criada através da Lei Municipal nº 6.470, de 27 de junho de 2018, para fomentar a atividade turística, agregando valor aos produtos, melhorando a qualidade de vida tanto dos empreendedores como dos usuários, sejam eles turistas ou turistas cidadãos. É um atrativo diferenciado aos turistas e visitantes que chegam em Erechim e buscam por opções de turismo e lazer. Já, para a comunidade local, além da oportunidade de conhecer a própria história do município, é um intercâmbio social e cultural entre o campo e a cidade, o antigo e o atual.

BD - O ciclo do turismo vem crescendo ou está estagnado?

Michele - Nós crescemos regionalmente. Conseguimos a sensibilização dos municípios para a aprovação dos recursos junto a Consulta Popular, a qual objetiva a instalação de um Escritório Regional de Turismo, bem como, a execução de projetos de assessoramento para os municípios que integram o Fórum Regional de Turismo. Esta ação foi um marco para nós profissionais do turismo e para o setor, devido as demandas existentes nas mais variadas áreas desde a saúde e a educação.  Os recursos ainda não foram liberados pelo governo estadual, mas estão previstos no orçamento para os próximos meses. 

No município, houve um grande avanço nos equipamentos turísticos (hotéis, restaurantes, entre outros) nos últimos anos. Houve, também, o surgimento de novos produtos turísticos e o fortalecimento do turismo rural com a inauguração da Villa Trentin, do Moinho Emporium e Garden, do Café Colonial Andreola, e da La Cantina Slongo. Isso culminou na criação da Linha Turismo Erechim. No entanto, estamos estagnados na promoção de Erechim como um destino turístico, precisamos atrair turistas, injetar capital e movimentar a economia turística nos hotéis, restaurantes, bares e produtos turísticos.

BD - Há integração entre comunidade, associações culturais, hotéis, pousadas, restaurantes, bares, parques e administração municipal para fomentar o turismo?

Michele - Erechim dispõe do Sindicato dos Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Erechim - (SHRBS), que tem participação no Conselho Municipal de Turismo e contribui significativamente com o desenvolvimento da atividade turística, propondo ações conjuntas de qualificação e marketing do setor. Para os próximos meses, há um movimento para a realização dos cursos de qualificação dos trabalhadores do trade turístico. Os programas de qualificação são fundamentais para melhorar a competitividade do destino turístico, pois abrangem desde a alta gestão dos empreendimentos até os postos de trabalho na chamada "linha de frente" - camareiras, garçons, atendentes. Estes precisam saber sobre a cidade, indicar locais, saber falar mais de uma língua, indicar atrativos turísticos.

BD - Há investimento do poder público nesse setor? Como são concebidos e organizados os eventos?

Michele - O poder público deve incentivar o turismo através do investimento em marketing, infraestrutura e qualificação. Algumas atividades são fundamentais para fomentar o turismo na cidade. Dentre elas: a organização de um calendário de eventos durante o ano, evitando o acúmulo de atividades nas mesmas datas e promovendo um melhor planejamento das ações; a confecção de folders, catálogos ou guias turísticos; a valorização das festas típicas; o embelezamento da cidade; a valorização e a preservação do patrimônio histórico, artístico e cultural; a organização e a manutenção de um Centro de Apoio ao Turista; a realização de cursos de atualização e formação em turismo, em parceria com instituições de ensino; a realização de cursos livres de hospitalidade, línguas e gestão turística; a valorização das etnias; a organização do sistema de informações turísticas, que envolve o inventário turístico, as pesquisas de demanda e a construção de indicadores; a promoção do marketing turístico; e a manutenção da infraestrutura como estradas de acesso, e a sinalização turística.

Atualmente, a estruturação administrativa do município, prevê a organização dos eventos com a equipe técnica do setor de Cultura. Cabe a este setor o fomentar os eventos. Claro, que o Turismo deve conversar e articular com a Cultura, o Esporte, a Agricultura, o Desenvolvimento Econômico. O Turismo é multifacetado, combina e articula com as mais diferentes áreas.

BD - O turismo traz resultados para o município? Cite exemplos.

Michele - O turismo é um grande gerador de fluxo econômico, é o propulsor de intercâmbios culturais e sociais. O turismo propicia a inclusão social das comunidades, gera empregos diretos e indiretos. De acordo com o Observatório de Turismo de Estado do Rio Grande do Sul, o Estado em 2016, registrou 115.245 empregos formais na atividade turística. Destes 61,8% no setor de alimentação e 14,6 no setor de hospedagem. Em Erechim, o número de empregos formais em 2016 é de 1.398 trabalhadores em 304 estabelecimentos característicos do Turismo. Este número elevou Erechim para a Categorização C do Ministério do Turismo, numa escala de A a E.  A categorização serve para identificar o desempenho da economia do setor nos municípios que constam no Mapa do Turismo Brasileiro. Dos 3.285 municípios que constam no Mapa do Turismo Brasileiro, 539 municípios estão na categoria C. Estamos em um grupo privilegiado, pois: 1961 municípios estão na categoria D;  549 municípios na categoria E. Nosso objetivo é atingir a categoria B, onde temos 179 municípios. Para isso, precisamos investir em políticas públicas do Turismo para atrair investidores na inciativa privada no turismo. Passando para a categoria B, o município é visto como um destino turístico indutor, consegue acessar mais recursos e consequentemente tem um tratamento diferenciado nas esferas governamentais Federal e Estadual. Mas, precisamos caminhar. Planejar, executar. Dispor de Políticas Públicas contínuas, envolvendo a comunidade e a iniciativa privada.

Vale destacar, também, que, quando um turista gasta dinheiro em produtos e serviços no município, ele está injetando capital novo na economia local.  Todos os setores se envolvem e lucram, desde os hotéis e restaurantes, até as lojas de souvenir.

Outro exemplo positivo é a visibilidade que o turismo dá ao município. Isso acontece desde os eventos turísticos realizados, às campanhas publicitárias ou pelos próprios turistas que divulgam o destino espontaneamente.

BD - Se tem a ideia de que o crescimento do turismo deve ser compartilhado entre o poder público e a iniciativa privada?

Michele - O turismo funciona como um sistema. Para o turismo dar certo, a parceria do Poder Público, da iniciativa privada e da comunidade deve ser permanente e efetiva. É dever do Poder Público incentivar o desenvolvimento do Turismo, criando uma Legislação específica - tendo um Plano de Desenvolvimento e leis que regram o setor, além da criação de um Conselho Municipal de Turismo, e inserindo o Turismo no Orçamento Municipal e nos Planos Diretores; buscando parcerias, investindo em marketing turístico, oferecendo infraestrutura como estradas de acessos, telefonia e internet, segurança, saneamento, além de promover cursos de qualificação e atualização para o trade turístico, buscando sempre a qualidade dos serviços prestados e o fortalecimento do destino turístico. O Poder Público funciona como o “cérebro” do sistema turístico. Os empresários e os profissionais do Turismo são o “coração” deste sistema. Eles injetam investimentos para que o turismo continue funcionando e crescendo. Este grupo é responsável pelos empregos diretos e indiretos. Já os empregados do setor de Turismo, nas agências, nos hotéis, restaurantes, transportes, são comparados as pernas e braços deste sistema. São os que movimentam "efetivamente" o sistema e vivem o dia-a-dia da atividade. E a comunidade, denominada como sendo as células do sistema, além de precisar aceitar e desejar que o turismo aconteça no município, é a responsável pelos serviços indiretamente ligados ao turismo.

BD - Para ser referência no turismo é preciso de envolvimento comunitário, infraestrutura, cuidados com as belezas naturais, segurança e limpeza. Estamos nesse caminho?

Michele - Já caminhamos muito buscando colocar a atividade turística de Erechim na vitrine. Mas ainda há muito por se fazer. Precisamos criar um Plano de Desenvolvimento e uma legislação específica de Turismo Rural. Há a urgente necessidade de investir em marketing turístico, de qualificar o trade, e vender Erechim, turisticamente, nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo, que são nossos maiores consumidores.

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