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Rural

‘O agronegócio só tem um risco: ficar parado e deixar as oportunidades passarem’

Afirmação é do sócio fundador da ZMP Inteligência Ltda, João Paulo Kriiner Zampieri

Para se ter uma ideia, em razão da guerra comercial entre EUA e China, a agricultura brasileira tem
Por Salus Loch
Foto Divulgação

Com mais de três décadas de experiência no mercado e atuação em empresas multinacionais, o engenheiro agrônomo e sócio-fundador da ZMP inteligência Ltda, João Paulo Kriiner Zampieri, participou de Webinar organizado pelo Grupo Agros para discutir o ‘Panorama Geral da Agricultura em tempos de coronavírus’.

Durante o bate-papo, o especialista apresentou sete tendências para o agro, destacou o papel do líder e garantiu: é hora de agir, sob pena de deixar que as oportunidades passem. Para se ter uma ideia, em razão da guerra comercial entre EUA e China, a agricultura brasileira tem sido largamente beneficiada, registrando recorde de exportação de grãos em abril, o que deve se repetir em maio.

Nesta entrevista, Zampieri também apresenta novas leituras do que está por vir. Confira os principais trechos da conversa:

 

Em razão da pandemia de coronavírus, a incerteza é uma das marcas do momento. O que o produtor deve fazer para seguir em frente?

Primeiro devemos reconhecer que vivemos uma crise global sem precedentes. Não sabemos quando e como ela irá acabar, nem tampouco qual será o período de transição para um novo normal, que, com certeza, chegará. Diante disso, tal qual um dominó, todas as áreas serão afetadas, umas mais do que as outras - o que deve servir de alerta, inclusive, para alguns setores do agro que ainda não foram impactados. Vale lembrar, contudo, que a definição de crise apresenta várias versões. Eu fico com a do grego (krisis, com ‘k’) - que indica mudança, ruptura, ação. Ou seja, a crise deve nos obrigar a agir; mesmo que estudos mostrem que 75% das pessoas travam em momentos como esse.

 

Como destravar e agir?

Colocando as peças (informações e números) em cima da mesa, observando tendências e algumas certezas. A partir disso, começamos a caminhar estabelecendo rotas racionais. Uma das peças é o caixa. Sabemos que novas epidemias poderão vir, como já tivemos nos últimos 20 anos - da gripe aviária à covid-19. A pergunta é: quais são os aprendizados tirados? O primeiro deles é que temos de ter caixa! O agricultor tem que ter reserva. O empresário, pequeno, médio ou grande, tem que ter caixa. As pessoas precisam guardar para enfrentar situações como essa. Acredita-se que no mundo podemos chegar a 200 milhões de desempregados devido ao coronavírus. Aqueles que não têm reservas, consequentemente, vão sofrer mais observando que a história mostra: em horas como essa, o maior fica ainda maior e o menor fica menor.

 

Além do caixa, o Sr elencaria quais outros elementos para que o empreendedor rural segure o rojão no atual momento?

Uma segunda grande tendência é o estabelecimento de parceiros de confiança, pois, como disse, novas crises são prováveis. E, nessa hora, quem você quer ter ao lado? O agricultor deve saber aquele fornecedor de defensivo que não vai deixá-lo na mão, ou o banco com quem pode contar. Qual empresa poderia te dar um suporte? Quais são as pessoas que realmente você pode confiar? Enfim, muitas vezes, vale mais a pena deixarmos de ser mesquinhos numa negociação para termos o parceiro certo, que estará ao seu lado na crise. O terceiro ponto é o ambiental (considerando a origem chinesa do vírus), e aqui o Brasil tem pontos positivos: somos o país com maior reserva florestal do mundo, com a energia mais limpa do planeta e, acima de tudo, embora tenhamos vocação agrícola, plantamos em apenas 8,4% do nosso território. Isso é maravilhoso. A quarta tendência é a rastreabilidade - que começa na própria China, a partir da definição que sua população deve comer melhor. O que também é ótimo para o Brasil, e deve impactar no consumo de alimentos já no 2o semestre de 2020, dando vigor, inclusive, para startups que mapeiam da saída do alimento da propriedade até a mesa do consumidor. Ligado à quarta tendência, vem a digitalização. Observe: o Brasil é um dos poucos países do mundo onde o agro não parou, mas não é porque ele não travou que não pode travar. Parou nos EUA, na Europa, na China. Então, temos que pensar em como administrar a fazenda caso a gente enfrente tal situação, ficando sem poder visitar a propriedade por um ou dois meses. A digitalização vai vir forte, permitindo comunicação a distância. A AGRO1 é um exemplo claro de expertise nessa área. Temos que ter capacidade de gestão do negócio por meio virtual/digital.

 

Certo. Em relação aos fornecedores, qual deve ser a postura do produtor?

Essa é a sexta tendência: a dependência de fornecedores. Todos os países do mundo estão olhando quem são os seus fornecedores. O Brasil deve fazer o mesmo porque, em nome do coronavírus, muita gente deixou um número expressivo de parceiros na mão. Faltou alimento, máscara... faltou de tudo. Agora, os presidentes e líderes vão tentar organizar a sua fonte de produção. E na questão de alimento estamos bem. O Brasil não deixou ninguém na mão, aliás, até abril fomos o único país do G20 onde a exportação cresceu, sem termos problema de logística. Acredito que essa questão de revisão de fornecedores globais vai nos trazer uma vantagem. Podemos ser a grande dispensa, a grande ‘lojona’ de alimentos do mundo.

 

O Sr tem batido, também, na tecla da liderança... qual é a diferença que um bom líder pode fazer nessa hora?

A liderança faz toda a diferença e, por isso, a classifico como a sétima e última tendência. Observo por dois lados: os líderes nacionais, considerando cenários e deixando o país bem postado para o mundo; e os líderes dos seus negócios, que devem provar, com a covid-19, quem é quem. Creio que, nessa hora, os falsos líderes serão descobertos, pois dificilmente resistirão à pressão e ao medo. Paralelamente, o líder de verdade deve se sobressair, especialmente, aquele que se preocupa com a saúde de seus colaboradores, sabe conversar, dar apoio, motivar e que se mostra legitimamente interessado nas questões pessoais. Se tiver que dispensar alguém, é importante fazê-lo com respeito, o que reduzirá o temor dos que ficarão. Nós, do agronegócio, particularmente, temos um cenário com menos ‘dor’ do que outras áreas. Diante disso, é fundamental a visão do líder, que aponta o futuro, constrói e inspira, passando por cima das fakenews e das incertezas. Ele deve transmitir positividade e, ao lado dos seus liderados, encontrar as soluções para o desenvolvimento do negócio.

                                

Qual o principal risco da pandemia para o agro? E o que dever para superá-lo?

O agronegócio só tem um risco: ficar parado e deixar as oportunidades que estão surgindo passar. Devemos manter a cabeça aberta, atentos às tendências e nos aprimorando nelas. É preciso agir. De preferência rápido e bem.

 

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