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Opinião

Covid-19, mortes e mídia abutre

Dr. Alcides Mandelli Stumpf Médico e Membro da Academia Erechinense de Letras
Por Alcides Mandelli Stumpf
Foto Rodrigo Finardi

Abordar um assunto denso e triste como a morte é difícil. Mas, neste momento de pandemia, entendo que não devo evitá-lo.

Basicamente a morte consiste na razão central de religiões e filosofias. Isso acontece praticamente desde que a humanidade passou a habitar a Terra.

Passo então a apresentar de modo singelo e desajeitado meus canhestros conceitos sobre tão profundo tema, ciente de que a concisão de raciocínio, às vezes pode levar a simplificação grosseira ou mesmo a desonestidade intelectual.

Entendo que nós ocidentais bebemos de duas grandes vertentes de pensamentos relativamente recentes sobre o que é a morte.

 A primeira - não por ordem de importância ou tampouco cronológica – provém da Grécia Antiga e seus filósofos, que por volta do século VI a.C passaram a discutir o tema mais a miúde. A segunda tem raízes religiosas, no caso específico, judaico–cristã, por doutrina sacramentadas e escalas de valores e retribuições bem definidos desde tempos imemoriais.

Insisto que ao simplificar corro o risco de incorrer em erros e fiascos que a banalidade demasiada enseja.

 Mesmo assim, vamos em frente: relativo aos filósofos, atento apenas a Epicuro e Lucrécio. Para estes sábios, a morte representa o fim da vida e, portanto, não se pode ter conhecimento dela; desse modo, não pode ser classificada como um mal e tampouco objeto de medo. De outra forma: quando há vida não existe morte. E quando a morte surge, deixa de existir vida. A não existir vida, não há possibilidade de percepção. Não havendo percepção, não há como avaliar a experiência.

Na visão religiosa, por sua vez, a morte propicia o redentor encontro com o Ser Supremo e todas as consequências resultantes da vivência mundana e seus correspondentes desdobramentos espirituais.

Existe, portanto, um espectro imensurável e complexo de combinações, ajustes e sincretismos entre os polos opostos do entendimento. A esquerda está o materialismo filosófico; na direita - adotando como referência o mito de Er de Platão-, a espiritualidade luminosa.

Dessa forma entendido e aceito, se torna natural que esse leque de nuances e crenças seja tratado com o devido respeito pelas diferentes pessoas e entidades. A liberdade de pensamento, fé e opinião é um direito inalienável do cidadão conquistado na Revolução Francesa – e por decorrência, igualmente, a sua dignidade ao morrer.

Eu, particularmente, atribuo ao fim da vida uma conotação individual única e singular, tanto no modo de acontecer como no sentir. Portanto, para mim, tudo que se refere a esse momento é absolutamente íntimo e intransferível.  Lembro com muita dor que há poucos dias perdi uma grande amiga e um amigo querido, e somente eu sei o que senti.

Porém, independentemente de qualquer raciocínio ou ideação, há evidente mudança de plano existencial quando a morte chega. Essa transição se dá de forma dolorosa para quase todos – embora pareça confortante para alguns que sofrem antes da partida. 

De qualquer modo, a passagem do estado de vida para o estado de ausência de vida terrena – muitas vezes presenciados e assistidos por nós médicos – certamente consiste no momento mais solene da existência de cada um.

Por tudo isso e muito mais, tal acontecimento deve ser tratado com profundo respeito e suprema consternação.

Assim, a não ser na presença de doentias contendas pessoais ou nos ainda mais doentios confrontos ideológicos ou bélicos, a morte de semelhantes jamais justifica ou configura razão para júbilo ou comemorações por parte de quem quer que seja. Antes consiste em motivo de tristezas profundas e pesares infinitos.

Superadas as considerações preliminares, vou ao ponto crucial desta crônica.

Desconheço, no curso da pandemia e inevitáveis mortes, uma nação que tenha sido tão gravemente desrespeitada e maltratada pela imprensa como o Brasil.

Tais ofensas se repetem todos os dias. Famílias inteiras são obrigadas a assistir no reduto dos lares - por ignorância ou falta de opção - a nefasta comemoração das mortes de compatriotas.

A desgraça geral é apresentada pela televisão com fanfarras e sensacionalismo de campeonatos esportivos. No desdobramento das aterradoras imagens, entre risinhos e trejeitos, exibem um reality show com requintes de crueldade e escarnio ao público, jamais imaginados.

Simplesmente a mídia podre transformou a morte em espetáculo e armamento de guerra usando-a despudoradamente no embate político.

A abordagem oportunista e abjeta de tema tão precioso tem por fim único semear o caos e o medo no seio da comunidade pacífica, que atônita sequer reage, vítima de crime encomendado.

Assim, conglomerados pavimentam morte-a-morte, pedra-a-pedra o caminho do desespero e da convulsão social.

 Não se ouve sequer um pio, não vê sequer uma sombra sobre uma boa ação, um alento; não falam palavra em prol da esperança e do bom ânimo. Tudo está errado para os facínoras mancomunados com os bandidos.

Os noticiários espúrios enterram vitórias recentes, números positivos e curas, ao mesmo tempo que desenterram cadáveres e promovem a desesperança pública. 

Sim, cada vez mais somos empurrados um pouco na direção da cova comum, da queda vertiginosa que aguarda o final da marcha fúnebre.

E continuamos em casa, passiva e bovinamente no isolamento social, a assistir a   destruição criminosa da unidade nacional e a liquefação de um futuro minimamente fraterno e promissor, promovidos por materialistas na sua pior expressão e seu insaciável apego ao poder.

Espero que - não tarde demais- as pessoas, o povo e o legítimo tribunal da história julguem e condenem esses abutres que persistem no desprezo à verdade em favor de seus nefastos e inconfessáveis objetivos.

Por fim deixo aos leitores os sagrados escritos do Apocalipse 21.4: Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou.

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