Blog do Rodrigo Finardi

Foto 1.JPG

Manuscritos de ‘Mandellão’ podem virar livro de memórias

Por Rodrigo Finardi
Foto Rodrigo Finardi

O filho caçula de José Mandelli Filho, Marcos José Mandelli, 64 anos, passou o feriadão de 7 de setembro, em Erechim. E na noite de domingo (10), recebeu à coluna Pente Fino para um bate papo agradável onde contou um pouco de sua infância em Erechim, a vida em Brasília a partir de 1964, quando seu pai virou deputado federal.

Conta que seu pai é sua maior inspiração de vida e acima de tudo seu herói. Relata que Brasília mudou muito – que antes eram adversários políticos e não de vida – e que voltaria a morar em Erechim, pois acha uma cidade linda, mas não deixou de apontar alguns problemas que vislumbrou na Capital da Amizade. Fez um apelo às autoridades do município e acredita que a região pode ter um deputado federal desde que se uma em prol de algum nome e realmente queira que isso ocorra

José Mandelli Filho, Tabelião, natural de Bento Gonçalves, foi um dos principais políticos de Erechim. Foi prefeito em duas oportunidades: de 1952 a 1955. Na época não existia reeleição e ao final do mandato concorreu à vereador e foi eleito com uma votação estrondosa para época em termos de percentual, considerado um feito no país e difícil de ser atingido por outro político. Foi presidente da casa legislativa, líder da bancada de governo de seu partido (PTB). Depois foi novamente eleito prefeito de Erechim, cargo que ocupou de 1º de janeiro de 1960 à 31 de dezembro de 1963.    

Na metade deste mandato, concorreu à deputado federal em 1962 e ficou como suplente. Após o término do mandato como prefeito em 1964 (abril) assumiu uma vaga na Câmara dos Deputados quando vários parlamentares foram cassados durante a Ditadura Militar que acabou depondo o presidente João Goulart. No ano seguinte, em 1965, se filiou ao MDB (Movimento Democrático Brasileiro), numa época em que o Brasil ficou com apenas dois partidos – MDB e Arena -.

Em 1966 se reelegeu para deputado federal e dentro do Congresso ocupou importantes cargos como presidente da Comissão de Agricultura e Política Rural. Reelegeu-se outras vezes mantendo mandato ininterrupto de abril de 1964 até janeiro de 1979. Em 1978 concorreu mais uma vez a reeleição mas ficou na sexta suplência. Após sua saída da Câmara Federal continuou a residir em Brasília até sua morte. José Mandelli Filho teve seis filhos com Clélia Maria Mandelli.  

A seguir algumas passagens da conversa com Marcos José Mandelli que é Analista de Gestão em Saúde da Fiocruz

 

Que lembranças tem de teu pai como político em Erechim?

Marcos José Mandelli: No primeiro mandato como prefeito era muito pequeno, mas no segundo lembro que meu pai me levava em tudo que envolvia a política. Naquela época era comum caminhões e máquinas abrindo ruas pela cidade e sinto o cheiro da terra até hoje. E o pai era uma pessoa carismática, gostava de estar junto ao povo e várias vezes lembro dele subindo nos caminhões e máquinas e ele mesmo dirigindo e abrindo ruas.  Eu gostava de estar junto com ele.

 

Fazia tempo que não vinha para Erechim?

Mandelli: A última vez foi quando da inauguração do Largo José Mandelli Filho em 2005 em frente à prefeitura (onde tem o famoso ipê roxo). E até aproveito o momento para pedir um favor ao poder público. Tem uma placa no monumento como sendo de minha autoria. Na verdade aquele texto foi feito a quatro mãos, por mim e minha irmã Marília Mandelli. Gostaria de ver o nome dela na placa.

 

E o que achou da cidade?

Mandelli: Conheço o Brasil de norte a sul e de leste a oeste. Erechim é uma cidade limpa, uma cidade linda, diferente de tudo. Basta viajar por aí e ver o que estou falando. Apesar dessa percepção o que me deixou chateado foi ver a Avenida Maurício Cardoso com suas fachadas em Art Decó coberta por grandes placas de letreiros. Precisamos resgatar isso...

 

....Mas tem uma lei municipal que fala sobre isso das fachadas.

Marcos: Pois é, tem que fazer esse resgate, é uma cidade linda que se bem explorada pode render frutos com o turismo. Mas é preciso querer fazer. Pela experiência que tenho e tive em várias funções é possível ajudar na busca de recursos até internacional, desde que se tenha bons projetos.

 

Você saiu bem jovem de Erechim?

Mandelli: Tinha 10 anos em 1964. O pai virou deputado federal e a mãe não se habituava em Brasília então queria um dos filhos lá e como eu era o caçula, a rapa do tacho, acabei indo morar lá.

 

E foi fácil para você essa adaptação?

Mandelli: Foi muito difícil no início, pois Brasília era uma cidade em formação, com várias culturas e vários sotaques. Deixei colegas e amigos principalmente no Colégio Medianeira, onde eu estudava. Até para se comunicar não era algo tão fácil e a comida era bastante diversificada cada um com seus costumes já que tinha gente de todo o país. Mas aprendi gostar de Brasília é uma cidade incrível, tanto é que saí, morei 20 anos no Rio de Janeiro e acabei voltando.

 

Imagino que sua adolescência em Brasília, o país pulsando entre a Ditadura e a redemocratização, tenha sido intensa.

Mandelli: Residíamos num prédio onde várias pessoas importantes moravam como Mário Covas, ministros, deputados de vários estados, senadores. Existia a figura do inimigo político, mas restrito ao debate ideológico. Convivíamos harmonicamente. Não eram inimigos de vida como é hoje.

 

Algum fato da época te vem a memória?

Mandelli: Tinha um deputado de Santos que morava num andar inferior ao nosso. E ele foi presidente do Santos. E às vezes o Pelé aparecia por lá e ele me avisava: “Mandellinho, desce que o Pelé está aqui”. Descia com um bloco e pegava dezenas de autógrafos e distribuía para meus amigos. E não sobrou nenhum para mim.

 

E a relação política em Erechim era diferente também?

Mandelli: Também, a exemplo de Brasília. O Gladstone Osório Mársico, um grande escritor com sua ironia e sarcasmo escrevia muito contra o meu pai. Mas no dia a dia conversavam, eram amigos.

 

O José Mandelli era uma figura bastante criticada pelo seu estilo? A que você atribui isso?

Mandelli: O pai queria ver as coisas acontecerem e ele tinha uma personalidade forte, mas era muito justo. Quando fizeram a Praça da Bandeira colocaram as iniciais dele nas pedras que revestem a praça. A oposição criticou muito a ação, como se ele estaria usando a máquina pública para se promover. Na verdade aquilo foi uma ação dos trabalhadores da obra que resolveram homenageá-lo. Outra vez o Presidente Ernesto Geisel convidou os deputados para irem ao Palácio do Planalto. Mas o pai era oposição, mas como um MDB moderado compareceu. Foi muito criticado, mas queria saber mais sobre as ideias do presidente, foi isso. 

  

O teu pai (José Mandelli Filho) deve ter muita coisa guardada. O que está sendo feito com este material?

Mandelli: Olha, tem muita coisa. Inclusive comecei um trabalho de digitalização das fotos que são intermináveis (e mostrou num tablet algumas). Muitas destas fotos precisaram ser restauradas. Sempre insisti muito para que o pai escrevesse sua história. E ele escreveu. Só que esbarrei em dois problemas. Primeiro a letra, já que escrevia muito rápido e não consigo entender tudo o que foi escrito e segundo a disponibilidade de tempo para contextualizar tudo isso no período histórico que aconteceu. Mas é um material riquíssimo.

 

Não tem a pretensão em transformar esses manuscritos e fotos num livro de memórias?

Mandelli: Como disse o problema é o tempo, quem sabe quando me aposentar consiga me dedicar integralmente a esse projeto, mas sem data. Quem sabe...

 

Que ensinamento você tirou para a vida de seu pai?

Mandelli: Meu pai é minha inspiração de vida. Meu herói. Lembro uma passagem que me serviu como aprendizado para a vida. Era torcedor do Botafogo desde os tempos de Erechim quando eu e alguns amigos jogávamos futebol de botão. Um dia o Botafogo perdeu a final do campeonato carioca para o Fluminense num jogo onde foi clamorosamente prejudicado pela arbitragem. Ao final do jogo quebrei a televisão. O pai chegou em casa e me chamou no quarto. Achei que iria apanhar e com razão. Nada disso aconteceu. Meu pai me deu uma lição de moral, de conduta, de postura, numa categoria e isso eu trouxe para minha vida toda.

 

E sobre a representatividade política de Erechim?

Mandelli: Faz tempo que Erechim não tem um legitimo representante como foi meu pai. A região tem que pensar nisso. O que ela quer para seu futuro.

 

Você voltaria a morar em Erechim?

Mandelli: Olha, voltaria correndo com o maior prazer. É uma cidade agradável, de pessoas como uma boa cultura. Se tivesse a oportunidade não pensaria duas vezes. Mas a cidade não pode crescer muito para não perder sua essência.

 

Blog dos Colunistas

Publicidade

Horóscopo

Áries
21/03 até 20/04
Tenha cautela com informações que ouviu...

Ver todos os signos

Publicidade