Imuno-oncologia: uma nova fase no combate ao câncer
Segundo oncologista de Erechim, terapias têm o potencial de revolucionar a forma de tratamento de muitas formas da doença
Há várias décadas, cientistas em todo o mundo, estudam o papel que o sistema imunitário pode desempenhar no combate do câncer. Tratamentos como o BCG em pacientes com câncer superficial de bexiga e o interferon em pacientes com melanoma de pele avançado, por exemplo, já são utilizados e permitem que o sistema imunológico “trabalhe” contra a doença.
No entanto, o médico oncologista clínico de Erechim, César Albuquerque Arnt, explica que recentemente descobriu-se que as terapias imuno-oncológicas proporcionam benefícios a longo prazo a doentes que anteriormente tinham poucas opções. Segundo ele, estas terapias representam uma “inovação” na terapia oncológica e têm o potencial para revolucionar a forma de tratamento de muitas formas de câncer. O uso de vacinas, citocinas, anticorpos monoclonais direcionados ao tumor e inibidores do ponto de verificação imunológica, são algumas nas terapias novas que estão aparecendo.
Como funciona
Cesar destaca que nosso sistema imunológico é o sistema de defesa natural do organismo. É um conjunto de órgãos, células e moléculas especiais que ajudam a proteger o corpo contra infecções, o câncer e outras doenças. Quando um organismo estranho entra no corpo, por exemplo, uma bactéria, o sistema imunitário identifica-o e, em seguida, ataca-o para impedir que cause danos. Este processo é denominado resposta imunitária.
“Entretanto, o câncer se forma através de alterações genéticas e multiplicações celulares em células do nosso próprio corpo. Uma vez que as células tumorais são muito diferentes das células normais, o sistema imunológico ataca-as quando é capaz de as identicar. No entanto, as células tumorais muitas vezes encontram maneiras de serem reconhecidas como células normais, pelo que o sistema imunológico nem sempre é capaz de as identificá-las como perigosas”, salienta, citando que, tal como acontece com os vírus, as células do câncer podem mudar ao longo do tempo escapando, assim, da resposta imunológica. De igual modo, a resposta imunológica natural contra as células tumorais nem sempre são sucientemente fortes para combate-las.
O processo pelo qual o sistema imunológico reconhece, destrói e modifica os tumores é conhecido como imunoedição. Existem três fases na imunoedição:
- Eliminação: as células cancerígenas são detectadas e/ou eliminadas pelo sistema imunológico. Células cancerígenas não destruídas podem entrar na fase de equilíbrio.
- Equilíbrio (“dormência do câncer”): algumas células cancerígenas persistem, mas o sistema imunológico impede o crescimento do tumor;
- Escape (progressão do câncer): as células que tiveram mutações/transformações ao longo de sua vida, se tornam resistentes e adquirem a capacidade de se esquivarem da detecção ou eliminação imunológica. Isso resulta em doença clinicamente aparente.
A meta da terapia imuno-oncológica é restaurar a capacidade do sistema imunológico de eliminar células cancerígenas pela ativação direta do sistema imunológico ou pela inibição dos mecanismos de supressão pelo tumor.
Por que as terapias de imuno-oncologia são diferentes ?
A) Ajudam o sistema imunológico do próprio doente;
B) Permitem que o sistema imunológico reconheça e ataque as células tumorais;
C) Proporciona uma resposta duradoura com adaptação do sistema imunológico ao câncer ao longo do tempo.
Conforme Dr. Cesar, os resultados de pesquisas clínicas sugerem que os efeitos das terapias de imuno-oncologia sobre as células tumorais podem durar um longo período, treinando o sistema imunológico para lutar contra as células tumorais, mesmo após a remissão.
“Esta característica interessante das terapias de imuno-oncologia oferece, pela primeira vez, esperança de sobrevivência a longo prazo com qualidade a muitos doentes para os quais o prognóstico era anteriormente muito pobre. Um exemplo muito impressionante de resultados foi a quantidade de drogas aprovadas e testadas (com benefício clínico) em pacientes com diagnóstico de melanoma malígno metastático – doença que por muito tempo a medicina não apresentava resultados satisfatórios de terapêutica”, ressalta.
Sendo assim, as terapias de imuno-oncologia podem ter um impacto positivo crucial sobre a capacidade dos doentes para voltar ao trabalho e levar uma vida saudável e produtiva.
As terapias de imuno-oncologia já estão disponíveis para doentes com melanoma avançado, câncer de próstata, tumores de pulmão de células não-pequenas, tumores renais, linfomas, e muitas mais, estão sendo estudadas em vários tipos de câncer que são considerados mais difíceis de tratar. A expectativa, relata Cesar, é que no futuro, deverão tornar-se uma parte importante da terapia contra o câncer, juntamente com a cirurgia, a radioterapia, a hormonioterapia, a quimioterapia e o tratamento com anticorpos contra tumores que expressam alvos-específicos (anticorpos monoclonais).
No entanto, a ciência da imuno-oncologia ainda está em evolução e há uma série de questões importantes que continuam sem resposta. Por exemplo, as terapias de imuno-oncologia não funcionam em todos os doentes (na verdade, os trabalhos falam que pode funcionar em até 20% dos casos), e uma grande parte da investigação centra-se em tentar entender o que faz com que um determinado doente responda a uma terapia em particular. Outra questão de importância é o fator econômico: todos sabemos que as novas tecnologias em saúde chegam ao país sempre com valores muito elevados. Dessa forma, a incorporação dos tratamentos por planos de saúde e pelo Sistema Único de Saúde, dá-se de forma diferente. A sociedade civil organizada e as sociedades médicas devem lutar para que nossos pacientes possam se beneficiar dos melhores tratamentos disponíveis.