RS deve diagnosticar 46 mil casos de câncer neste ano
No Brasil, a estimativa para cada ano do triênio 2020-2022 aponta que ocorrerão 625 mil casos novos de câncer, de acordo com a última pesquisa realizada pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca). O diagnóstico precoce destes casos certamente tem potencial de oferecer grande impacto no aumento das taxas de curabilidade. De acordo com oncologista, Rodrigo Ughini Villarroel, uma das estratégias reconhecidamente eficazes para conseguir isso é o rastreamento, ou seja, a realização de exames em uma população de pessoas sem sintomas, cujo principal critério é a idade. “É o que diversas sociedades médicas nacionais e internacionais recomendam por exemplo em relação ao câncer de mama, câncer de próstata, câncer de pulmão, câncer de colo uterino e câncer de intestino”, pontua.
Todos os cânceres são causados por alterações nos genes. Quando os genes estão danificados, podem aparecer alterações conhecidas como mutações, que fazem as células crescerem de maneira descontrolada causando o câncer. “Para a maioria das pessoas com câncer, essas mutações acontecem ao longo da vida, frequentemente favorecidas por hábitos de vida não saudáveis”, salienta Villarroel. Entretanto, uma pequena parcela de cerca de 10-15% dos casos de câncer tem como causa principal uma mutação genética que é herdada de um dos pais, o que denomina-se como câncer hereditário. Segundo o oncologista, os outros cerca de 85-90% dos casos estão relacionados com múltiplos fatores, “nem sempre totalmente conhecidos, mas que incluem hábitos que aumentam o risco de câncer”. Só no Rio Grande do Sul, deve ser diagnosticado 46 mil novos casos de câncer neste ano, totalizando 138 mil ao fim do triênio 2020-2022, de acordo com as estimativas do Inca.
Câncer de mama lidera incidência nas mulheres
Nas mulheres, a maior incidência estimada pelo Inca, conforme a localização primária do tumor, aponta o câncer de mama com 66.280 novos casos, apenas neste ano. Conforme aponta o especialista, embora os fatores de risco influenciem a chance de desenvolver câncer, a maioria não causa diretamente a doença. “Algumas pessoas com vários fatores de risco nunca desenvolverão um câncer, enquanto outras, sem fatores de risco conhecidos poderão ter esse diagnóstico”, afirma. No caso do câncer de mama, pode-se citar fatores como uso de contraceptivos orais ou de reposição hormonal na menopausa e o fato de não ter filhos. Além disso, existem fatores de risco não modificáveis, “como idade acima de 55 anos, fatores genéticos herdados, histórico familiar, mamas densas, histórico pessoal de carcinoma lobular in situ, menarca antes dos 12 anos e menopausa após os 55 anos”, ressalta. Em 2018, o câncer de mama teve a maior taxa de mortalidade nas mulheres, com 17.572 óbitos.
Cerca de 13% de todos os novos casos de câncer são de pulmão
O câncer de pulmão é o segundo mais comum em homens e mulheres no Brasil, sem contar o câncer de pele. Conforme Villarroel, há mais de 30 anos ocupa a primeira posição em incidência e mortalidade no mundo. Os fatores de risco mais importantes são o tabagismo e a exposição passiva ao tabaco, que são responsáveis com cerca de 85% dos casos. “Infelizmente apenas 16% dos cânceres de pulmão são diagnosticados em estágios mais iniciais, o que resulta nas altas taxas de mortalidade observadas”, avalia o oncologista. Dados do Inca apontam que em 2018, o câncer de Traqueia, Brônquios e Pulmões liderou o ranking e foi responsável por 16.371 mortes nos homens.
Ainda, conforme Villarroel, a tomografia computadorizada é hoje a melhor forma de fazer um diagnóstico precoce do câncer de pulmão. Porém, na rede pública existe uma baixa disponibilidade de tomógrafos, o que dificulta o uso do exame em larga escala. “Outros fatores que dificultam o diagnóstico precoce são a falta de programas de rastreamento e o fato de os sintomas do câncer de pulmão estarem muitas vezes associados aos sintomas de uma doença respiratória comum, como tosse, fadiga, cansaço”, explica.
Nos dados do Inca, o Estado lidera o ranking das unidades federativas nos diagnósticos de câncer de traqueia, brônquio e pulmão, com taxa de 32,76 casos a cada 100 mil habitantes, variando em 41,06 para homens e 24,69 para mulheres.
Dar prosseguimento ao tratamento em meio a pandemia
A Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), emitiu um posicionamento oficial recomendando aos pacientes com câncer para não interromperem seus tratamentos oncológicos. “As entidades manifestaram a preocupação com a estimativa de que milhares de diagnósticos novos de câncer estão deixando de ser feitos no país durante estes meses de pandemia, pois no Brasil inteiro está sendo observado uma queda significativa no número de cirurgias e de biópsias feitas em comparação com esse mesmo período em 2019”, avalia Villarroel.
Além disso, o médico cita que os motivos são variados e incluem não apenas a recente suspensão de cirurgias eletivas em vários hospitais pela falta de insumos em todo o país, mas principalmente o medo dos pacientes de saírem de casa para a realização de consultas e exames. “Existe o temor de que esses fatores possam ter o potencial de piorar as estatísticas de mortalidade pelo câncer por estarem prejudicando a chance de um diagnóstico mais precoce, fundamental para melhorar as chances de sucesso no tratamento desta doença”, comenta.
Um a cada três casos de câncer poderiam ser evitados
De modo geral, dentre os fatores de risco evitáveis citados pelo oncologista, os principais são ingestão de álcool em excesso, tabagismo, uso de hormônios, obesidade, sedentarismo, alimentação pobre em fibras e rica em carne vermelha, fatores dietéticos e exposição inadequada ao sol. “Vale ressaltar a importância de estratégias que podem evitar casos de câncer por permitir um diagnóstico ainda em uma fase pré-câncer, como o exame de colonoscopia no caso do câncer de intestino ou do exame de Papanicolau no caso do câncer de colo uterino”, diz o médico, evidenciando ainda, que alguns tipos de câncer têm relação com infecções virais, portanto, o uso de vacinas para hepatite B e para o vírus HPV também tem potencial preventivo.