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Blog do Rodrigo Finardi

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Histórias individuais de um Erechim coletivo – Parte I

Por Rodrigo Finardi

Estamos num ano emblemático. Um ano histórico. Não é todo dia que uma cidade completa 100 anos. É inevitável que neste momento a nostalgia contagie a todos. Mesmo com os problemas e desafios que uma cidade centenária se depara todos os dias, amamos Erechim. Essa é a evolução, e a cidade precisa sempre recontar sua história, reescrevê-la, acrescentar detalhes. Mesmos os mais críticos, gostam da Capital da Amizade. Resmungam mas gostam. E Erechim foi colonizado por várias etnias. Milhares de pessoas vieram da região, fora dela para aqui fazer sua vida. Logo, todos indistintamente têm sua parcela de contribuição na construção desta cidade. Todos têm suas histórias individuais de um Erechim coletivo. Aproveito minhas férias para mudar o estilo da coluna, e escrever um pouco da minha história. Não nasci aqui, mas antes de completar oito anos, aqui cheguei e aqui fiquei. Tenho certeza que muitas pessoas que lerem essas minhas lembranças (algumas já escrevi, mas acrescentei novas), se colocarão nelas, pois também as viveram, também tem suas histórias individuais que se fundem com a história deste Erechim coletivo.

Não vivia a verticalização de suas construções

Abril de 1978, alguns dias antes de Erechim completar 60 anos. Era início de abril. Foi quando vim de Porto Alegre morar em Erechim. Não tinha oito anos completos. Lembro como se fosse hoje, chegando pela ERS 135, num ônibus da Unesul, minha mãe Stela, recém separada e meus dois irmãos, mais novos que eu – Maurício e Leandro. A primeira pergunta que fiz para a mãe quando estávamos chegando e vi a cidade foi: “mãe aqui não tem prédios?”. Não recordo da resposta dela, mas lembro do prédio do Condomínio e dos silos da CESA e da Cotrel. Erechim ainda não vivia a verticalização de suas construções.

Sempre me senti abraçado

Não sou erechinense de nascimento (nasci em Passo Fundo), mas com certeza sou de coração, pois já se passaram quase 40 anos e praticamente todas as minhas lembranças reportam para a Capital da Amizade. E durante quatro décadas não poderia ser diferente, mesmo nos períodos que morei fora era para cá que sempre voltava. E queria voltar, rever amigos, família. Voltar para onde sempre me senti abraçado. Onde sempre me senti bem desde o primeiro dia.

Tarefa nada fácil

Selecionar algumas passagens deste período não é tarefa fácil, mas tentarei fazer um relato do que eu vivi, mas que de pano de fundo mostrará o crescimento da cidade. Todo mundo tem sua história na Erechim centenária.

A primeira moradia

Ainda em 1978, o primeiro lugar que morei foi naquele prédio em frente ao posto abandonado no Bairro Três Vendas. Na época ele “bombava” tamanho o movimento. Nesta época, ainda na Ditadura Militar acabei conhecendo os primeiros amigos em Erechim – Marcos Busetto e Rodrigo Pessin. Próximo ao Clube Brasil tinha um terreno baldio e nele um caminhão tanque abandonado onde brincávamos de submarino (sim naquela época criávamos os próprios brinquedos).

Um lugar provisório

Mas aquela moradia era um lugar provisório. Um apartamento alugado e meu tio Heládio Michielin (irmão da mãe), recém casado. Imagina que belo início de casamento, com a irmã e mais três pirralhos. Mas ele foi generoso num momento delicado de nossas vidas.

Na época o prédio era branco e azul

Depois disso, já estabelecida e com emprego na Ovel (trabalhava com óleo vegetal e foi o embrião da Olfar, hoje uma das maiores empresas de Erechim), minha mãe alugou um apartamento na Rua Germano Hoffmann, do Fuzinatto, onde hoje funciona a Confraria dos Colorados. Que ironia do destino, na época o prédio era branco e azul.

Vi o trem passar

No terreno da Ovel de propriedade do Tio Benedito Borghetti (faleceu no ano passado) e da Tia Lorena, lembro dos pés de nectarina e amoras. Não lembro ter comido uma sequer madura. Devorávamos as amoras e nectarinas verdes. Sorte que tinha uma latrina bem perto.

Vi o campeão mundial jogar

Em frente ao prédio um grande terreno, com campo de futebol, árvores, até cipó tinha. Os meninos que moravam próximo ao local usavam o espaço para tudo. Jogos de futebol, trocar figurinhas, se balançar no cipó para ver quem pulava mais longe, até fogueiras de São João eram feitas no local, caça ao ninho entre outras brincadeiras. Nessa área foi construída uma grande loja de matérias de construção da Bigolin. Naquele campo vi jogar o goleiro erechinense e campeão mundial Gilmar Rinaldi.

Merengue rosa

Mas o pote de ouro no fim do arco íris, era do outro lado da rua, depois do campinho, onde hoje funciona o SESC. Ali era a fábrica da Boavistense e tinha uma loja de doces. Tinha de tudo: balas, gomas, jujuba, aqueles bolachão de mel e principalmente merengues quadrados. Lembro daqueles rosas que a cada mordida sentia a cárie de tanto açúcar.

Infância sadia na sua essência

Pouco mais para frente da casa de doces tinha um barranco, onde tem a 11ª Coordenadoria Regional de Saúde. Ali, tinha campeonato de papelão e folhas secas de coqueiro. Ia-se até o topo do barranco e se largava morro abaixo. Só que antes de chegar na calçada tinha um pequeno muro que dividia o terreno. Os joelhos e cotovelos sempre esfolados. Era uma infância sadia na sua essência. Só voltava para casa quando estava escurecendo e a mãe gritava na janela.

Nem imaginávamos o perigo

Outro fato que me traz grandes lembranças, que neste local era bem próximo a viação férrea e naquela época o trem com dezenas de vagões cortavam a cidade. Passavam devagar e eu e meus irmãos corríamos para subir na escada e andar alguns metros de “carona clandestina”. Nem imaginávamos o perigo que estávamos correndo. Mas graças a Deus nunca aconteceu nada demais apesar de nossa imprudência. Com relação ao trem, tem outro fato.

Casa na árvore

Tinha um terreno na parte alta com grandes árvores. Entre os galhos colocávamos pedaços de tábua, tipo casa na árvore e enchíamos os trilhos de pedras para ver os vagões esmagar. E aquele pó de brita que ficava das pedras esmagadas eram recolhidos e usados em várias brincadeiras, até para tapar buracos do campinho de futebol.

O corcel azul calcinha

Nesse período (entre 1978 e 1984) estudava no José Bonifácio. Entrei com o ano letivo em andamento no segundo ano do primeiro grau (hoje, ensino Fundamental) e fiquei lá até a oitava série. E guardo recordações de todas as ordens deste tempo. Primeiro que íamos para a escola num corcel azul calcinha do marido de uma prima irmãde minha mãe. Dentro do carro, todos os dias, seis crianças. Era uma aventura diária.

Amigos que cultivo até hoje

No JB lembro bem que discutiam o Meio Ambiente quando poucos falavam do assunto. Já no primeiro grau existia a Patrulha Verde, onde cada turma tinha seus representantes para discutir sobre a importância do tema. EMOCI (Educação, Moral e Cívica) e OSPB (Organização Social e Política Brasileira) eram disciplinas obrigatórias da grade curricular. No José Bonifácio fiz amigos que cultivo até os dias atuais.

Lembro do gosto e sinto o cheiro

Como era bom os ensaios para o desfile de Sete de Setembro, os campeonatos interescolares, hora da merenda, a cantina que tinha sonhos fantásticos que atéhoje lembro do gosto e sinto o cheiro. Cheiro também sinto do álcool do mimeógrafo e do queimado da madeira feito pelo xilógrafo. 

Que saudade do galinheiro

Mas um lugar especifico, jamais será esquecido por quem estudou no JB. O famoso galinheiro. Uma pequena construção dentro da escola, feita de madeira onde algumas disciplinas eram ministradas. Não me lembro quantas salas eram, mas era um lugar mágico apesar de não ter nada físico que lhe desce essa condição. Mas proporcionava o mais importante: integração e conhecimento. Que saudades do galinheiro.

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