A angústia do afastado
O sofrimento na vida pode ter vários motivos. Podemos ser atribulados em consequência dos nossos próprios erros. A maldade de outras pessoas pode atingir vítimas inocentes. Uma vez que o mundo, até a própria Natureza, foi corrompido pelo pecado humano, todos vivem sujeitos ao sofrimento.
Alguns dos Salmos de Davi identificam a fonte do seu sofrimento, seja derrotas no campo de batalha, a perseguição de um rei ciumento ou seus próprios pecados. Outros tratam do problema do sofrimento e a única solução sem identificar o contexto ou o motivo da angústia do autor. Percebemos o valor desses hinos quando passamos por provações sem conseguirmos discernir motivos.
Salmo 6 descreve o sofrimento de Davi ao se sentir afastado de Deus e fala sobre a busca da solução, a restauração da sua intimidade com o Senhor.
Na abertura do Salmo, Davi fala da ira de Deus, sugerindo que seu sofrimento fosse consequência do seu próprio pecado. Ele diz: “Senhor, não me repreendas na tua ira, nem me castigues no teu furor” (Salmo 6:1). Se Deus não fosse misericordioso, teria motivo justo de rejeitar todos, porque todos nós pecamos contra o Criador (Romanos 3:23).
Mas Deus é misericordioso, e Davi apela a graça divina: “Tem compaixão de mim, Senhor, porque eu me sinto debilitado; sara-me, Senhor, porque os meus ossos estão abalados. Também a minha alma está profundamente perturbada; mas tu, Senhor, até quando? Volta-te, Senhor, e socorre-me; salva-me por tua graça” (Salmo 6:2-4). Mesmo sabendo que seus pecados mereciam castigo, Davi não tinha poder para se livrar. Dependia da graça de Deus.
Quando ele pede para Deus voltar, ele revela o principal motivo de sentir perturbado. A maior angústia de Davi foi seu afastamento de Deus. Esse Salmo revela a polaridade do mundo na perspectiva do autor. Ele poderia estar cercado e dominado por pessoas que praticavam a iniquidade e, dessa maneira, afastado da presença de Deus, ou ele estaria em comunhão com Deus e protegido dos adversários.
Mil anos depois de Davi, o apóstolo João escreveu: “Deus é luz, e não há nele treva nenhuma. Se dissermos que mantemos comunhão com ele e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade. Se andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1 João 1:5-7).
Ou vivemos na paz da comunhão com Deus, ou na angústia do afastamento dele.