Humor e sexo
O título bem que poderia ser “amor e sexo”. É como costumávamos ouvir por aí. De toda forma, acho que não ficaria bem para uma crônica. Imagino que os leitores, que infelizmente são cada vez menos, apreciem textos que despertam uma certa dose de curiosidade. Logo, falar de amor e sexo poderia ser cansativo e até ultrapassado. A contar pela queda na demografia, amor e sexo perigam estar em extinção, mas o humor não! Este jamais poderá deixar de existir.
Notas sobre o humor
Quando aqui me refiro ao humor, não quero dizer que se trata do sentido real da palavra “fazer humor”. Quem bem fazia humor era o Jô Soares, o Agildo Ribeiro e alguns outros que, no tempo da ditadura, publicavam livremente. Fosse hoje, qualquer piada com algum ministro, desses com “m” minúsculo, seria motivo de perseguição. A relação que pretendo aqui explorar é justamente outra, a do bom humor com o amor – ou do mau – tudo depende. Uma simples ligação entre o humor e o “fazer amor” ou, se preferirem, sexo. Por mais que existam pessoas bem-humoradas e que são solitárias e sexualmente inativas, ousaria dizer que elas justificam a regra, por serem exceção.
A ciência I
De nada valeria o argumento de um cronista caso a ciência não desse respaldo contra os críticos de plantão, geralmente mal-humorados. São inúmeras as pesquisas realizadas nesta área. Todas apontam no mesmo sentido. Há uma relação de mão dupla entre o humor e a prática sexual. Para os cientistas, o estado emocional afeta tanto o desejo quanto o desempenho sexual. Por consequência, a atividade sexual acaba por ser um fator determinante no humor das pessoas.
A ciência II
Na grande maioria dos casos, o stress, a tristeza e a ansiedade são fatores que impactam diretamente no desejo sexual. As pesquisas também apontam que a frequência sexual diminuiu na última década. Eu culpo o celular. É ele o vilão. Entrega pornografia e outras distrações com facilidade e, como reflexo, aniquila a prática sexual, responsável pela liberação de substâncias que animam o ser humano e melhoram o seu estado de humor. Pronto, ultrapassados os pormenores do conhecimento científico, voltamos ao senso comum, território preferido dos cronistas.
O que importa
Eu concordo que o sexo não é a coisa mais importante do mundo. Mas o bom humor é. Não há nada mais agradável do que encontrar alguém com um sorriso no rosto, boas maneiras, mansidão e leveza. O contrário disso é sempre pior. As pessoas de mau humor espalham as suas angústias, pesteiam os ambientes por onde passam e criam situações que precisam de um bom tempo para serem limpas e regeneradas. Ousaria dizer que os mal-humorados são, no fundo, péssimos amantes. Até porque o sexo, para ser praticado em condições ditas “normais”, precisa contar com o consentimento de outra pessoa. E quem toparia algo com um chato de galochas?
A cultura do ego
Este assunto levanta muitas questões, por mais comezinho que seja. Numa sociedade que ao mesmo tempo é libertária e castradora, intolerante e crítica, ninguém se insurge contra o poder da individualidade. Logo vem alguém dizer que é coisa de comunista ou algo do gênero. O individualismo é, sem dúvida, um dos grandes causadores desse mau humor generalizado que paira sobre a nossa psicosfera. As pessoas que põem o ego acima de qualquer relação deixam de se importar com os outros, muitas vezes até mesmo na hora do amor. Lamentavelmente, este é o mundo em que vivemos. Basta ir a um restaurante e observar um jantar entre duas pessoas. Não raro as vemos isoladas, cada uma com o seu celular. Será que na hora do sexo é assim? Cada um na sua?
Por derradeiro
Entre os dois extremos do humor, do bom e do mau, há também uma série de pessoas que buscam amar de outras maneiras. São pessoas que, embora tristonhas, ainda mantêm um brilho no olho, uma meiguice ao falar. Mesmo as mais solitárias, as que não encontraram a cara-metade, o chinelo velho para o seu pé torto, mesmo essas sabem que o amor é fundamental para que o mundo tenha paz. Diante desses dias tão mal-humorados em que vivemos, peço a Deus que surjam novos movimentos de paz e amor, como pregavam os hippies, contrários a qualquer guerra. Por mais sexo, por mais alegria e que novas crianças possam vir ao mundo, já envelhecido de tanto egoísmo, soberba e individualidade.