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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

Fotografia desbotada

Por Marcos Vinicius Simon Leite

Foi por acaso. É como o óbvio costuma aparecer. Da pouca importância que damos ao simples é que tiramos grandes reflexões. E lá estavam elas, estanques, com a leve poeira que ficou da frieza do inverno, pairando sobre o balcão da sala de jantar. Três registros históricos. Variações do mesmo tema. Três porta-retratos, um de cada filho. Memórias que só mesmo a fotografia é capaz de congelar. Entre elas, uma constatação: o tempo desbota a vida.

A luz do sol

Por certo que o sol tem essa desvantagem, de fazer o que é colorido mudar de tom. Ao mesmo tempo em que dá luz, retira-a. Lá está, nas leis da física: as cores que vemos são reflexos da luz. De certa forma, toda a nossa vida é assim. Mesmo os seres mais iluminados, que buscam sempre o equilíbrio e o bem, tendem ao desbotamento. Ora é a maneira de pensar, que não acompanha a atualidade, ora é a maneira de sentir. Por vezes, os dissabores que acumulamos ao longo da jornada nos deixam assim, desbotados da sensibilidade. É como se o nosso coração sofresse de catarata e nele deixasse surgir uma película invisível, quiçá imaginária, que pouco a pouco faz endurecer o nosso sentir, descolando-o de nossa alma.

As fotos

Quem olha todos os dias para o mesmo retrato não se dá conta. Mas é verdade, as fotografias envelhecem. Não que criem rugas. Não é para tanto. Apenas desbotam, perdem a cor. Até mesmo aquelas em preto e branco parecem sofrer do mesmo fenômeno. Ou seria nossa imaginação? Se bem que as tiradas em preto e branco já nascem velhas. Deve ser isto, só pode! De qualquer maneira, olhar para um retrato que não perde a cor é também algo frio, quase artificial. Quando se perde alguém jovem, que tinha a nossa idade ao desencarnar, também nos causa estranheza rever as fotos. Mas com nossos filhos é diferente. Por mais que cresçam e envelheçam, nunca perdemos a oportunidade de chamá-los de crianças. Eis porque olhar a fotografia de um amigo que partiu cedo é, digamos, duplamente desbotante.

Matizes

Falar sobre fotografia é sempre inspirador. Lembrar-se de tudo o que passamos naquele recorte da história não deixa de ser um exercício para a memória. Vasculhar os recantos de nossa existência, revisitar cenas de um passado distante, tudo isso faz parte da vida. E é sempre assim, mesmo que seja uma simples fotografia. É como se o filme da memória também desbotasse. Não é incrível? Lembrar-se do passado com os matizes atenuados talvez seja um recurso mental, algo que criamos em nossa mente para separar o tempo presente daquele que já se foi. Até o cinema faz uso deste recurso. Usa cores desbotadas para dar a verdadeira noção do tempo.

As três fotos

E lá estão elas, imóveis por cima do balcão da sala de jantar. Sorte a minha, pois sei que lá estão eles, os meus três filhos, cheios de vida e cheios de cor, não só ao alcance dos meus olhos, como muito próximos do meu coração. Estão comigo. Por quanto tempo? Não sei. Podem as fotografias envelhecer, desbotar? Podem. Afinal, os filhos crescem, o tempo passa e as memórias ficam. Pensando bem, há coisas que são muito piores do que estar olhando uma fotografia desbotada. Uma tristeza que não tem a ver com o passado. Tem a ver com o futuro, justamente quando, no tempo presente, já não se pode ver as cores vivas. Como é gratificante não precisar das fotografias! Como é bom poder contar com a colorida presença dos filhos. Um verdadeiro presente.

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