Euro R$ 3,82 Dólar R$ 3,25

Publicidade

Rural

Abandono da atividade preocupa setor leiteiro

Por Rosa Liberman - rosa@jornalbomdia.com.br
Foto Arquivo/BD

Trabalhar no vermelho e receber em torno de 50% do valor ganho no mesmo período do ano passado traz desestímulo aos produtores de leite do Alto Uruguai e de todo Rio Grande do Sul. Essa dinâmica tem levado ao abandono da atividade. 

Na região, o número de produtores diminuiu em 16,5% nos últimos dois anos. Em 2015 eram 6.759 envolvidos na atividade e hoje são 5.647. O número de animais também recuou em torno de 4 mil, passando de 87.867 para 83.266, consequentemente, a produção diminuiu em 8 milhões de litros/ano, passando de 291.390 milhões/litros/ano para 282.555 milhões litros/ano – uma redução de 3%.

Neto de agricultores, o produtor Alex Carlos Giacomelli (36), tem sua propriedade no KM 14, Dourado. São 22 hectares ocupados com grãos e frutas. A soja é para comercialização e frutas para subsistência. Por 22 anos ele, a esposa e a mãe trabalharam com produção de leite. Eram 14 animais com uma produção diária de 25 litros/animal, mas há um ano e meio ele abandonou a produção e leite. “O retorno financeiro era pouco, não compensava pelo elevado custo de produção e a mão de obra que exigia era grande, sem contar às crises que vivenciei, que foram muito mais do que as épocas boas. Acabei perdendo o gosto pela atividade”, conta.

Alex arrumou um trabalho fora do campo e hoje é pedreiro. Diz estar feliz na atividade, pois sua remuneração é certa. Sua esposa também está trabalhando duas vezes por semana em uma agroindústria vizinha. “Por enquanto vamos permanecer no cultivo da soja, mas não sei até quando, pois os riscos são grandes, tem a seca, as chuvas em excesso. Vamos levando, só não sei até quando”, diz.

O agrônomo da Emater Regional, Vilmar Fruscalso, assistente técnico em Sistemas de Produção Animal, comenta que o desestímulo do setor é grande e isso tem levado a desistência da atividade. Mas a expectativa com a medida de suspensão da importação de leite do Uruguai é de que o preço do leite aumente para o produtor, porque haverá redução na oferta do produto. “Diminuindo o leite que entra em quantidade muito grande como nunca antes, a indústria vai ter que apelar para o leite nacional e assim, a conseqüência direta seria o aumento de preço para o produtor”, diz.

 

Valor recebido está 50% inferior ao praticado em 2016

Atualmente, a média recebida está em R$ 0,85 o litro e, de acordo com Fruscalso este valor é 50% a menos do valor recebido no mesmo período do ano passado. Ele atribui essa queda no preço recebido a três fatores: a importação do leite; alta oferta de produto nacional, pois no verão ele planta grãos e no inverno sobram muitas áreas, aumentando a oferta de pasto, consequentemente, a produção de leite fica cerca de 50% acima da média. Ou seja, a média é de 10 litros/dia e hoje está em torno de 15l/dia. E o terceiro fator seria a crise econômica. O desemprego ainda está elevado no país e a instabilidade econômica provocou a queda no consumo de lácteos em pelo menos 20% em 2017.

O agrônomo enfatiza ainda que a conseqüência deste cenário também refletiu no bolso do consumidor. O preço do leite longa vida semanalmente está em oferta. É possível encontrar o produto por R$ 1,69 nas gôndolas dos supermercados. “Este seria o valor que o produtor deveria esta recebendo para cobrir os custos de produção, transporte, intermediação, impostos, entre outros. No momento, ele está trabalhando no vermelho”, salienta.

A previsão, segundo Fruscalso, é de que a partir do fim do mês de outubro, o produtor de leite comece a receber mais pelo produto, seguindo esta tendência mais forte para janeiro , quando diminui a oferta do produto e se intensificando em março, quando as pastagens diminuem, a produção de leite também reduz e o produtor recupera o prejuízo. “Mas também é a época em que muitos produtores desistem da atividade. Além disso, todos os dias muitos têm desistido da atividade por vários fatores, como falta de qualificação, desestímulo, entre outros. Nos últimos dois anos, cerca de 23% dos produtores no Estado desistiram da atividade e o número de animais diminuiu em 9%. Já a produção caiu em 2%.

 

Preço ao consumidor

De acordo com o gerente de um supermercado de Erechim, Oswaldo Rossi, quando o fornecedor de leite tem grande oferta ele coloca um preço melhor no produto e o supermercado consegue comprar por um preço mais baixo, possibilitando disponibilizar ao consumidor o leite longa vida em valores menores. Por isso, quase que semanalmente, o leite está em promoção. Rossi diz que é possível encontrar o produto em torno de R$ 1,85 a R$ 2. Ele salienta ainda que há cerca de três meses os preços estão estáveis e o consumo não chegou a cair. Quando o preço está promocional o consumidor acaba estocando o produto.

 

Cooperalfa acredita em crise passageira

A Cooperalfa que está atuando em Erechim desde janeiro viu sua produção dobrar, assim como o número de produtores também aumentou. De acordo com o supervisor de filiais para o Noroeste gaúcho, Jorge Brock, é recebida a produção de mais de 20 municípios e o recebimento da cooperativa é de 75 mil litros de leite/dia de 330 produtores. A atuação começou com 232 produtores e pouco mais de 20 mil litros no primeiro mês. “Aumentamos o número de produtores e estamos buscando ampliar também a produção para viabilizar em torno de 150 mil litros dia que é a capacidade da unidade de resfriamento de leite”, diz.

Com relação ao atual cenário da cadeia leiteira, Brock diz que o preço é uma conseqüência do mercado nacional, com importações acima do consumo nacional e o produtor está de certa forma descontente. “Mas acreditamos que é algo temporário e o produtor leiteiro está capitalizado. Esperamos que essa situação não seja douradora”, pontua.

O produtor que entrega o leite para a Cooperalfa recebe conforme o padrão de qualidade. A variação do valor pode ser de menos R$ 0,10 até R$ 0,15 a mais sobre o preço estabelecido.

 

Suspensão do leite do Uruguai

O Brasil suspendeu as licenças de importação de leite do Uruguai, na última terça-feira (10), pelo ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Blairo Maggi. Conforme informações da Agência Brasil, também há possibilidade de suspensão da importação do leite do Mercosul. O leite vindo do Uruguai de acordo com Maggi, tem contribuído para a crise no setor no Brasil, e a situação está se transformando quase insuportável para o produtor local, em função dos custos que inviabilizam competir com o produtor do país vizinho.

Conforme a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), o Brasil foi destino de 86% do leite uruguaio em pó desnatado e 72% do integral em 2017. Nos primeiros seis meses deste ano, já foram importados 41.811 toneladas de leite em pó do país. A tarifa zero em vigor e a ausência de uma negociação de cota, desagradam produtores nacionais.

 

 

Leia também

Publicidade

Publicidade

Blog dos Colunistas