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Ensino

Comunidade surda comemorou escolha de tema da redação do Enem

Por Najaska Martins - najaska@jornalbomdia.com.br
Foto Najaska Martins

Jogadora de futebol surda e professora de Libras comentaram sobre a proposta escolhida para esta edição do exame

Desde que anunciado, o tema da redação deste ano do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) repercutiu nas redes sociais. Apesar de considerado difícil por muitos candidatos, a proposta foi elogiada principalmente pela comunidade surda, que acredita que a discussão sobre o tema dá visibilidade à inclusão. Jogadora de futebol, a erechinense Stefany Krebs é surda. Ela fez a prova no domingo e diz ter ficado emocionada e surpresa com a abordagem do tema na prova. “Fiz o Enem esse ano e sinceramente nunca imaginei que esse seria o tema da redação. Quando abri a prova do Enem e li a [proposta da] redação, fiquei muito feliz e comecei a imaginar muita coisa. Quero parabenizar o MEC pela iniciativa. Foi a melhor redação da minha vida fiquei muito feliz por terem escolhido esse tema [que] é muito importante para comunidade surda. Agora é a hora de todo mundo ter que aprender a dar valor aos surdos, conhecer e entender o que é a comunidade surda, a cultura surda”, ressaltou.

Sobre quem falou mal da escolha do tema, Stefany acredita que seja por desconhecimento da cultura surda. “Infelizmente muitas pessoas estão reclamando sobre o tema da redação, falaram muitas palavras horríveis. Falta de respeito e conhecimento. Acharam que o tema não tem importância, não pararam para pensar como seria se estivessem no nosso lugar. Imagino que a maioria não conseguiu escrever na redação porque não conhece muito, mas a sociedade já teve várias oportunidades de reconhecer o que é ser “surdo”. Lamento para quem não tinha interesse em conhecer, aprender ou achava que os surdos não são nada, são coitados ou não são capazes”, destacou.

Sobre os efeitos da escolha do tema, a jogadora tem boas expectativas. “Acredito que a sociedade vai melhorar. Espero que o MEC continue assim [fazendo coisas para] no futuro melhorar a comunicação com a comunidade surda, promover mais amor, mais respeito e mais educação. Os surdos estão muito felizes e emocionados. A sociedade precisa saber que os surdos existem, sim. Somos surdos com muito orgulho e amor”, completou.

“As diferenças estão em nosso meio e é preciso pensar nelas”

Professora de Libras na Universidade Federal da Fronteira Sul e grande defensora da inclusão, Sonize Lepke comemorou a escolha do tema. “Primeiramente gostaria de dizer que vibrei com a escolha do tema da redação. Acredito e defendo a pertinência do tema da redação. Também não concordo com as afirmações de que o tema é especifico demais para estudantes do ensino médio, pois já tivemos temas complexos em outras edições. A polêmica em torno do tema, parece muito mais evidenciar a dificuldade que temos de falar do outro, aquele diferente de mim, que é entendido e narrado com inferior e incapaz. Escancara também o nosso preconceito, a apontar que este tema é inadequado. Seria inadequado falar dos problemas que assolam a educação se estivéssemos falando dos "desafios para formação educacional dos estudantes"? O que difere ao pensar a educação dos estudantes e dos estudantes surdos? Seria fácil inclusive elaborar uma redação a partir desta perspectiva, mas isso exige ver o outro, o estudante surdo como um sujeito com possibilidades, direitos e deveres. Exige também pensar que as diferenças estão em nosso meio e é preciso pensar nelas”, destacou.

Questionada de alguma forma a abordagem do tema pode conscientizar a sociedade, Sonize diz não acreditar neste efeito. Não acredito neste efeito. “As políticas públicas exigem discussões e mudanças das escolas para que os processos inclusivos sejam viabilizados nos últimos 20 anos. E se analisarmos o número de escolas com estrutura física acessível e com Salas de Recursos Multifuncionais nas escolas de Erechim e região percebemos que apenas 40% estão observando a legislação. Estes são os dados do Observatório do Plano Nacional de Educação. Os estudantes surdos e as pessoas com deficiência são invisibilizados”, afirma.

Sobre as reclamações acerca da escolha do tema, Sonize volta a questionar: “Como um adolescente teria facilidade para escrever sobre o violência sexual ou bullying e não poderia escrever sobre o estudante surdo? Estaria esta revolta calcada na indiferença por se tratar de uma minoria historicamente excluída?”, questiona, ao destacar que esta foi a primeira prova do Enem a qual candidatos surdos tiveram acesso ao exame em Libras. “Aproximadamente 24% da população brasileira tem algum tipo de deficiência, é um tema que deve ser urgentemente discutido. O tema trouxe à tona não somente a comunidade surda, mas tantas outras deficiências que são ignoradas”, completou.

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