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Ensino

Taxa de abandono do ensino médio preocupa

Entrada precoce no mercado de trabalho é apontada como uma das principais motivações para a evasão

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Por Najaska Martins - najaska@jornalbomdia.com.br
Foto Arquivo Jornal Bom Dia

Entrada precoce no mercado de trabalho é apontada como uma das principais motivações para a evasão

Divulgado nesta semana, o Censo Escolar da Educação revelou um dado preocupante sobre o ensino médio. O levantamento aponta queda no número de matrículas e um percentual de evasão de 11,2% no ano de 2017. A entrada no mercado de trabalho é considerada um dos fatores para o abandono, medida que busca ser revertida pelo Ministério da Educação por meio da reformulação desta etapa do ensino. “A expectativa é que a possibilidade de o estudante traçar seu caminho profissional estimule e motive os jovens a prosseguir seus estudos, diminuindo, consequentemente, a evasão”, afirma notícia publicada pelo MEC junto à divulgação dos dados.

Embora o cenário nacional aponte para um percentual de 11,2% de evasão em 2017, as estatísticas locais ainda não podem ser acessadas, visto que o Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais (Inep) iniciou recentemente a coleta de dados de rendimento e movimento de alunos. Entretanto, os dados referentes ao ano de 2016 mostram que das 2.783 matrículas no ensino médio das escolas públicas de Erechim naquele ano, pelo menos 170 estudantes não concluíram esta etapa, configurando um percentual de evasão de 6,1%.

Para a coordenadora pedagógica da 15ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE), Paola Baldissera, o abandono desta etapa do ensino visando uma colocação no mercado de trabalho está diretamente ligada à característica de imediatismo das novas gerações, somada à desmotivação pelos estudos. “Cada vez mais eles buscam agilizar etapas, não querem ter que esperar se formar para poder ter uma certa liberdade que eles conquistam por meio do emprego e do salário. Soma-se a isso o fato de se sentirem desmotivados com a educação. Além disso, há em muitos casos a pressão da família, especialmente nos últimos anos, em que vivemos um período de crise econômica e consequente de endividamento familiar”, afirma.

Realidade da população mais pobre

Doutor em Sociologia e professor da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Luís Fernando Santos Corrêa da Silva afirma que a entrada prematura no mercado de trabalho é uma realidade principalmente para a população mais pobre. “Enquanto os jovens de classe média e alta tendem a ingressar no mercado de trabalho somente após a conclusão do ensino superior ou da pós-graduação, uma parcela significativa dos jovens mais pobres precisa procurar uma colocação antes mesmo de concluir o ensino médio.  Na maioria dos casos, a renda do trabalho desse jovem é decisiva para a manutenção do grupo familiar”, afirma.

Neste contexto, o professor destacar que, em um primeiro momento, a escola é vista como um empecilho ao ingresso no mercado de trabalho e isso provoca a evasão. “Contudo, após algum tempo, os jovens percebem que a escolarização é uma credencial fundamental para acessar as ocupações mais valorizadas no mercado de trabalho e aumentar a sua remunerações”, avalia.

Sintoma disto é a procura expressiva por jovens com idades entre 19 e 25 anos pela Educação de Jovens e Adultos (EJA). Segundo o Censo Escolar, o Brasil tem hoje 3,6 milhões de alunos frequentando a Educação de Jovens e Adultos (EJA), sendo que a oferta de ensino médio nesta modalidade teve aumento de 3,5% em 2017.

Além do trabalho, outros motivos pesam para o abandono da escola, a exemplo da falta de interesse dos estudantes, como analisa o professor de Sociologia. “Muitos estudantes, principalmente aqueles que não almejam o ensino superior, veem uma desconexão entre os conteúdos do ensino médio e a vida prática. Essa é uma característica da sociedade brasileira, que não valoriza a educação como um fim em si mesmo, mas apenas do ponto de vista instrumental, como trampolim para o ingresso no mercado de trabalho”, afirma, ao destacar que as motivações variam bastante de acordo com o período e a região.

Questionado sobre alternativas que possam mudar este cenário, o professor cita a necessidade de políticas públicas para enfrentar essa realidade. “Entretanto, é preciso entender que os índices elevados de evasão escolar são uma característica de sociedades profundamente desiguais. Sem resolver estruturalmente a desigualdade de oportunidades de vida dos jovens dificilmente essa realidade será modificada”, completa.

Reforma do ensino médio

Apresentada em 2016, a Reforma do Ensino Médio foi aprovada por meio de Medida Provisória e posta como uma maneira de tornar esta etapa do ensino mais atrativa aos estudantes e, consequentemente, barrar a evasão. Conforme o MEC, por meio dela o “ensino médio aproximará ainda mais a escola da realidade dos estudantes à luz das novas demandas profissionais do mercado de trabalho. E, sobretudo, permitirá que cada um siga o caminho de suas vocações e sonhos, seja para seguir os estudos no nível superior, seja para entrar no mundo do trabalho”, sendo que a carga-horária letiva também foi ampliada.

Todavia, Luís Fernando chama atenção para alguns aspectos, quando questionada se a reforma de fato pode mudar as estatísticas da evasão. “Historicamente, um dos principais problemas do ensino médio foi o seu caráter quase enciclopédico, quase descolado das questões cotidianas e da vida dos estudantes. A reforma do ensino médio tinha o objetivo de aproximar esse nível de formação com o mercado de trabalho. Contudo, o sucesso da reforma esbarra na falta de estrutura das escolas e na desvalorização dos profissionais da educação. A simples mudança curricular não resolve o problema da evasão”, finaliza.

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