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Ensino

Sem prestígio, carreira docente é vista como desafio

Fechamento de licenciaturas e queda na procura pelo magistério em Erechim são alguns dos aspectos que ratificam cenário apontado no estudo “Profissão Professor na América Latina”

Carreira docente ainda é vista como desafio
Por Najaska Martins - najaska@jornalbomdia.com.br

O Brasil, assim como outros países da América Latina, tem dificuldade em atrair jovens para a carreira de professor. Essa é uma das conclusões do estudo “Profissão Professor na América Latina - Por que a docência perdeu prestígio e como recuperá-lo?”, divulgado na última semana pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e replicado pela Agência Brasil. Segundo a pesquisa, no país, apenas 5% dos jovens de 15 anos pretendem ser professores da educação básica, enquanto 21% pensam em cursar engenharia. Entre as razões para o desinteresse estão questões como os baixos salários e a falta de infraestrutura das escolas.

O estudo reflete um cenário já observado localmente quanto ao interesse dos jovens pela licenciatura. Na URI, maior universidade de Erechim, apesar de cursos de formação de professores serem uma tradição, a baixa procura tornou inviável a abertura de novas turmas. A queda resultou no fechamento de cursos que foram os primeiros de ensino superior oferecidos no município pela instituição. “Os cursos de licenciaturas ofertados neste período foram: Letras, Geografia, História, Filosofia, Matemática, Ciências Biológicas, Educação Física, Pedagogia e Química. Com o decorrer do tempo, principalmente a partir de 1992 os bacharelados foram completando o portfólio de cursos da URI, além das licenciaturas citadas. No período de 25 anos seis cursos de licenciaturas deixaram de ser ofertados devido à baixa procura o que tornava inviável a abertura de novas turmas”, explica a diretora acadêmica da universidade, Maria Elizabete Zanin.

Atualmente a instituição segue ofertando apenas três cursos voltados à formação de professores Pedagogia, Educação Física e Ciências Biológicas. Segundo a professora, os motivos apontados para a baixa na procura são, além dos salários pouco atrativos, a desvalorização social da profissão e a falta de condições de trabalho, incluindo a violência nos espaços escolares.

Também com foco na formação de professores, o magistério também registrou queda na procura em Erechim. Em entrevista recente ao Bom Dia, a diretora do Colégio Estadual Normal José Bonifácio, Susiê Moreira, apontou que nos últimos sete anos a quantidade de ingressantes no magistério veio registrando baixas. Inicialmente ingressavam cerca de 90 alunos, divididos em três turmas as quais pelo menos duas concluíam o curso. No decorrer dos anos, porém, este número foi sendo reduzido. Em 2015, por exemplo, duas turmas ingressaram no magistério, sendo que metade dos estudantes desistiu no segundo ano e a previsão era de que apenas uma turma se formasse. Tal situação era projetada que se repetisse para este ano, com perspectiva de que somente uma turma concluísse o curso.

A coordenadora de práticas pedagógicas do curso de magistério da instituição, Mara Rodrigues Terra, na época elencou ainda como uma das motivações para o desinteresse para a docência a ampliação do leque de possibilidades ofertado aos discentes. “Antigamente era bastante comum que principalmente as meninas buscassem o magistério por desejo, mas também porque era essa uma das poucas opções às quais elas visualizavam uma oportunidade de formação. Isso era reforçado também pelas famílias. Hoje aumentaram as opções e todos têm à disposição uma quantidade muito maior de cursos e oportunidades”, enfatizou.

Persistência pela docência

Mesmo diante dos problemas apontados, há quem persista na carreira, a exemplo da estudante Carolina Stefania Pietski, de 23 anos. Cursando o oitavo semestre do curso de Pedagogia, ela trabalha há três anos como auxiliar de desenvolvimento infantil em uma escola particular. Ela conta que o interesse pela profissão iniciou ainda na infância, mas na medida que foi crescendo, chegou a criar uma certa resistência à docência, por conta de toda a dificuldade em seguir na carreira no Brasil. “Então inicialmente me formei em Tecnólogo em Design de Moda, mas, após começar a trabalhar em uma fábrica, já na área, percebi que realmente a docência era o que me interessava. Então, apesar das dificuldades que sabia que enfrentaria, decidi por fazer uma tentativa e entrar no curso de Pedagogia, decisão da qual não me arrependo”, relata.

Com planos de inicialmente atuar nos anos iniciais da educação básica, no ciclo de alfabetização, por considerar este um dos níveis em que se há mais dificuldade, mas também mais recompensas pessoais, Carolina afirma que também pretende futuramente lecionar em universidades, principalmente pela recompensa salarial oferecida. Quanto ao estudo, a jovem diz concordar com o cenário apontado. “Hoje a profissão de professor deixou de ser um atrativo aos jovens, justamente pela desvalorização não somente em questões salariais, mas também da pessoa que se coloca como docente, muitas vezes sendo vista de modo inferior se comparada com profissionais de outras áreas. A precarização das escolas e do sistema de ensino também contribui com esse cenário”, lamenta, ao apontar os aspectos que considera necessários para aumentar o prestígio da profissão: “uma conscientização geral e uma mudança cultural quanto à docência”. Neste sentido, ela ressalta que além de haver uma necessidade de mais investimentos na área da educação, incluindo infraestrutura, materiais didáticos e significativo aumento no piso salarial dos professores, “o plano de carreira e a falta de incentivo quanto a formação continuada também são problemáticas que precisam ser revistas e replanejadas de modo coerente”.

Por fim a estudante destaca ainda a questão relacionada às mudanças sugeridas ao currículo escolar que, segundo ela, levam muitos professores a desistirem da docência ou desanimarem por influenciarem diretamente na profissão do professor. “Elas são sugeridas, e até mesmo implementadas, por pessoas alheias às questões pedagógicas, estudadas incessantemente em todas as licenciaturas. Isso acaba desestimulando quem possui anos de estudo e carreira diretamente na docência, já que seu trabalho e esforços não são reconhecidos e valorizados, enquanto em outras áreas não ocorre o mesmo ou, se ocorre, é de modo bem menos corriqueiro”, completa.

 

Opção motivada pelo desejo de mudar

Da mesma forma que aconteceu com Carolina, as incertezas da profissão fizeram com que a carreira docente inicialmente não fosse cogitada pelo paulistano Paulo Aberto Duarte Junior, de 28 anos. Morando em Erechim desde 2015 para cursar licenciatura em História na Universidade Federal da Fronteira Sul, foi se deparando com os problemas apontados na pesquisa “Profissão Professor na América Latina” e com a realidade dos estudantes que o jovem mudou de ideia. O curso, que inicialmente foi escolhido por ser a opção mais acessível financeiramente, acabou motivando a mudança nas perspectivas de Paulo. “Eu sabia que o curso era de licenciatura para entrar na sala de aula. Mas queria me formar e conseguir um bom emprego depois, pois ter um curso superior já é um diferencial na contratação de alguém. Nunca me via como professor, devido várias variantes que observava, desde baixo salário, sucateamento das escolas, educadores(as) desmotivados, sem brilho nos olhos nas aulas, ou aulas sem partir da realidade dos educandos(as) e aulas que visavam a pura transferência de conhecimento. Por isso, a carreira docente era distante. Quem quer ser professor ou professora em contexto de degradação da profissão?”, questiona, ao destacar que chegou a cursar a mesma graduação em uma universidade particular de São Paulo.

Entretanto, na primeira experiência como professor dentro do Programa Mais Educação em uma escola de Erechim, Paulo viu os problemas como um desafio. “Me deparar com a realidade de muitas crianças que não tinham nem mesmo um caderno ou um lápis me fez repensar o meu lugar de atuação na sala de aula e querer de alguma maneira reverter o que observava na realidade social da escola e da comunidade como educador”, destacou.  “Admito que entrei na escola pela falta de dinheiro no começo e creio que ainda hoje muitos escolhem a profissão por acharem mais fácil, complementar renda, ou por ser o curso mais barato ou a nota que deu para ingressar em tal curso, sendo essa a segunda opção. Em suma, a dura realidade de educandos e educandas fez-me repensar e querer ser um docente”, relatou.

Agora com o objetivo de atuar na educação básica, o jovem ressalta que mesmo diante dos problemas observados em sua experiência, é necessário não desistir. “Se formos educadores(as) engajados, nós conseguiremos avançar e lutar por uma carreira digna e uma educação básica de qualidade aqui em Erechim e no Brasil. Sem esquecer que devemos ser um educador(a)-pesquisador(a), estar sempre se reinventando com rigor e alegria”, pontua Paulo. O estudante também ressalta, entre outros aspectos, o que considera ser fundamental para mudar o cenário de desprestígio em torno da profissão. “Creio ser determinante na graduação tentar mudar o pensamento de quem não quer seguir carreira docente, apontar problemas, se envolver nas escolas com projetos e gerando diálogo de saberes, discutir a carreira docente, pois vejo pouca discussão na universidade sobre a escola e a sala de aula. Ninguém nasce professor ou professora, nós vamos nos tornando na prática, ao caminhar. No estágio no final dos cursos podemos ter um susto ao pisar na sala de aula sem ter um mínimo de discussão sobre o chão escolar”, completou.

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