A pesquisa TIC Kids divulgada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) revelou que 80% da população brasileira na faixa etária entre 9 e 17 anos usam a internet e que o telefone celular é o meio mais usado pelo público com menos de 18 anos. Neste cenário, uma situação identificada recentemente em Erechim trouxe à tona novamente um alerta: quais são os conteúdos que os usuários – especialmente o público pré-adolescente – têm acesso.
O questionamento foi retomado depois que oito estudantes com idades entre 12 e 14 anos de uma mesma escola de Erechim se automutilaram e justificaram a atitude pelo fato de estarem participando de um jogo virtual disseminado via Whats App, no qual eram motivados a praticarem violência consigo mesmos. Chamada pela instituição, que por questões de privacidade dos envolvidos não teve o nome divulgado, a Comissão Interna de Prevenção a Violência e Acidentes Escolares (Cipave) já está trabalhando no caso.
Segundo a assessora da 15ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE), Miriam de Grandi, os estudantes envolvidos afirmaram estar participando de um jogo viral entre adolescentes. “Nesse jogo, conforme os alunos mesmo destacaram, além de serem incentivados à automutilação, os jogadores têm seus dados captados, o que os deixa ainda mais apreensivos e os obriga a cumprir com os desafios que são propostos”, destacou.
Diante da situação, além de chamarem os responsáveis pelos estudantes para conversar sobre o ocorrido, foram realizados exames de corpo de delito nos envolvidos e realizados boletins de ocorrência junto à Polícia Civil, que agora investiga o caso. Conforme o delegado Germano Lima primeiramente serão ouvidas as vítimas para buscar identificar a origem dos contatos que disseminam o jogo em questão e, a partir disso, dar os devidos encaminhamentos.
Conforme a assessora, psicólogos também estão fazendo acompanhamento com os adolescentes. “Por temermos que o alerta sobre este tema pudesse gerar o efeito contrário, de interesse e curiosidade em meio aos estudantes, inicialmente ficamos com receio quanto à divulgação. Mas depois chegamos à conclusão que a única maneira que tínhamos para alertar e evitar que mais casos aconteçam seria pedindo o auxílio dos pais no que se refere ao cuidado com o que os filhos acessam, principalmente no celular. Então pedimos que todas as escolas enviassem comunicados às famílias para que tivessem cuidado e orientassem seus filhos sobre”, destacou.
A assessora reforça a importância de as famílias monitorarem o uso do celular e o acesso à internet por parte dos filhos. “Hoje praticamente todos acessam as redes sociais, todos têm celulares e isso deixou principalmente os estudantes mais vulneráveis. Então é importante que esse uso seja monitorado, que os familiares conversem com os filhos e tenham conhecimento sobre o que eles acessam, a fim de evitar este tipo de problema”, completou Miriam.
Suporte familiar é fundamental
Segundo a psicopedagoga Mara Regina Froeder, o fato de os adolescentes se submeterem a este tipo de situações está ligado ao processo de transição da fase infantil para a adolescência. “Para eles são momentos de fortes mudanças que acabam sendo vistas de modo depressivo, pois há a transformação do corpo e dos seus papéis. Com isso, se instaura uma insegurança sobre o que vai acontecer dali para frente e é nesse contexto que eles sentem que precisam desafiarem-se em busca do diferente. Aí buscam fazer esse diferente, mas em grupo, por isso acabam se envolvendo nestas situações, junto com outros que também passam pelo mesmo problema”, resume.
A profissional destaca que este tipo de atitude é mais comum entre os que sentem-se mais isolados. “Por sentirem-se sozinhos, entendem a participação nestes jogos ou desafios como uma maneira de integrarem-se, pois mais pessoas também estão fazendo aquilo. E há uma busca pelo sensacionalismo, pela adrenalina. É aí que entra a função dos pais ou responsáveis em estarem atentos a esses adolescentes, pois se eles tiverem acesso a outros tipos de iniciativas que os desafiem positivamente, como o esporte, por exemplo, há menos riscos de se envolverem nestas situações que são perigosas, e que muitas vezes eles têm conhecimento de que assim o são, mas se envolvem mesmo assim”, pontua.
Por fim, ela destaca que o diálogo aberto, o relacionamento mais próximo e a promoção da confiança nas relações familiares são fundamentais para que o adolescente sinta-se seguro e motivado a buscar desafios de modo mais saudável. “A dica é que os pais ou responsáveis participem mais da vida deste adolescente, que ofereçam atividades, oportunizem experiências positivas para que ele sinta-se desafiado, mas de um modo direcionado”, completa, ao reforçar que em casos onde já há envolvimento em alguma iniciativa prejudicial, no lugar de punições ou julgamentos, é necessário fomentar o diálogo e buscar ajuda em conjunto.