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Ensino

Enem 2018: bom desempenho atrelado à leitura de mundo

Professores comentam sobre conteúdo das primeiras provas do Exame Nacional do Ensino Médio

Milhares de candidatos de Erechim e região se mobilizaram para o primeiro dia do Enem
Por Najaska Martins - najaska@jornalbomdia.com.br
Foto Najaska Martins

O bom desempenho nas provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2018 está diretamente ligado à leitura de mundo do candidato. Esta é a percepção de dois professores consultados pelo Bom Dia quando questionados sobre a primeira parte do Exame realizado no último domingo (4) em todo o Brasil. Os profissionais destacaram a cobrança de maior rigor nos conteúdos e a ligação com o cotidiano presente nas questões cobradas.

A coordenadora do ensino médio da Escola de Educação Básica da URI, Viviane Domingues, que é professora de Redação, Literatura e Língua Portuguesa, destaca que a proposta do Enem é de uma prova diferente que requer muita leitura dos alunos. “E me refiro à muita leitura de mundo não só conhecimento didático. Nos últimos anos, as provas têm exigido basicamente isso. Não acredito que ela tenha se tornado mais complexa, e sim, que ela exija essa leitura mais geral, ou seja, conhecimentos de mundo, aliados aos conhecimentos da escola”, pontua.

Ela é complementada pelo sociólogo Thiago Ingrassia Pereira, que é professor na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). “O Enem começou como um exame final do ensino médio e passou, ao longo dos últimos anos, a ser uma espécie de "substituto" dos tradicionais vestibulares, sendo fundamental para acessar as políticas públicas de acesso à universidade. Certamente, sempre foi uma prova construída a partir dos conteúdos trabalhados na educação básica, particularmente no ensino médio. O que as últimas provas têm apresentado, é um maior rigor quanto à conteúdos, ainda que siga a tentativa de aplicação ao cotidiano. Nesse sentido, não vejo uma grande transformação na edição desse ano, mas um certo enfoque mais pautado em dados do que em posicionamentos, o que penso ser bom”, avalia.

Distância entre conteúdos

Quando questionados sobre a crítica de que há, muitas vezes, uma distância entre o que é cobrado no exame e o que é ensinado nas escolas, ambos reforçam a necessidade de que os candidatos sejam leitores e estejam atualizados. “Existe ainda, infelizmente, uma discrepância entre o que é ensinado em algumas escolas e o que é cobrado pela prova do Enem. Nós da Escola da URI conseguimos trazer para o aluno uma associação bastante significativa entre escola e prova. Mas na verdade, o que acontece é que o aluno também precisa ser leitor e estar atualizado e isso é algo que se constrói ao longo da vida escolar e que serve de base para uma boa prova”, pontua Viviane.

Neste sentido, Pereira reforça ainda outras questões que permeiam essa diferença. “Sabemos que há um currículo "oficial" que, entre outras coisas, prevê conteúdos, habilidades e competências por cada série do ensino médio. Igualmente, sabemos que há um currículo "real", que é de fato trabalhado nas escolas. Essa dimensão real é condicionada pelas condições materiais das escolas, pela formação e profissionalismo dos professores e pelo interesse dos estudantes e de seus grupos familiares. Nesse sentido, temos experiências positivas e negativas em escolas públicas e privadas. O ensino médio nos Institutos Federais, por exemplo, é um caso de sucesso da escola pública. Os maiores desafios estão nas escolas da rede estadual, que representam a grande maioria das matrículas do ensino médio do país. E isso menos pela qualidade dos professores e funcionários e mais pelo histórico descaso dos governos estaduais em relação à escola”, observa.

Assim, ele destaca também o interesse dos atores no processo de aprendizagem. “Para além de uma responsabilização da escola, é de se perguntar sobre o interesse e o investimentos dos estudantes, bem como de suas famílias. Por exemplo: qual o nível de leitura dos estudantes? Qual o incentivo de suas famílias? O problema não está na prova do Enem, mas no lugar que a educação, para além de um treinamento qualquer para passar na prova, ocupa no cotidiano das pessoas”, completa.

Redação: tema pertinente

Ambos professores também avaliaram positivamente a escolha do tema da redação no exame deste ano. “Acredito ter sido um tema bastante pertinente, em vista que o assunto é amplamente falado nas escolas, além de ter a questão das redes sociais, da internet e dessas mídias que fazem parte do dia a dia do cidadão. Um possível problema é que o candidato não ter entendido completamente a proposta, que se referia à manipulação e não especificamente às redes sociais. Porém, uma leitura atenta da proposta garantem a compreensão e, consequentemente, um bom texto”, pontuou, ao ressaltar que o Enem se consolida a cada ano. “É uma prova que tem mostrado a seriedade e a importância de as escolas estarem cada vez mais abertas a trabalharem textos variados, propostas de redação variadas”, completa.

Da mesma forma Pereira define o tema como oportuno para o momento e reforça a importância da leitura. “O tema segue uma linha de valorização de questões atuais e que impactam a opinião pública. A prova de redação é algo a mais do que a memorização de estruturas de texto e de regras ortográficas. Isso também é importante, mas o fundamental para escrever uma redação é ter ideias e saber articulá-las. E de onde temos ideias? De vários lugares, mas, principalmente das leituras que fizemos. E aqui reside um desafio enorme: somos um país que, na média, lê muito pouco. Se não lemos bem, dificilmente escreveremos bem. Os temas atuais parecem de fácil reflexão, pois, afinal, escreveremos sobre o que vivemos. Mas, a redação do Enem não é um teste sobre o que achamos sobre as coisas. O que está em jogo não é o que achamos, a nossa opinião, mas, sobretudo, a nossa capacidade de argumentação lógica sobre os temas. E isso exige informação e conhecimento, capacidade de reconhecer as diferentes posições em disputa e produzir sínteses”, finaliza.

 O Enem em Erechim

Milhares de candidatos de Erechim e região se mobilizaram para o primeiro dia do Enem. Na URI, um dos principais locais de prova no município, o trânsito se intensificou logo após os portões abrirem ao meio-dia do domingo, movimento que se estendeu até perto das 13h, quando as portas foram fechadas. Mesmo com a mudança para o horário de verão, o movimento de estudantes foi tranquilo e sem intercorrências. Durante cinco horas e meia os candidatos puderam responder questões de Ciências Humanas, Linguagens e também fizeram e redação. No próximo domingo (11) terão cinco horas para responder questões de ciências da natureza e matemática.

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