Nesta semana, o Conselho Nacional da Educação homologou as novas diretrizes curriculares para o ensino médio. Conforme publicado pela Agência Brasil, as novas regras permitem que as escolas ofereçam parte da carga horária a distância. Desta forma, a alternativa é opcional e às redes estaduais ficarão responsáveis pela decisão.
A proposta prevê a oferta a distância em até 20% do ensino médio diurno, 30% no noturno, podendo chegar a 80% na Educação de Jovens e Adultos (EJA).
O material publicado pela Agência Brasil alerta ainda, que as diretrizes foram avaliadas para se adequar ao Novo Ensino Médio, aprovado em 2017. O novo currículo dessa etapa da educação básica será dividido em duas parte, uma comum a todo território nacional e uma específica. As aulas a distância serão recomendadas na formação específica.
Proposta não garante melhoria na qualidade
A reportagem do Jornal Bom Dia conversou com o sociólogo e professor da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Bernardo Caprara, para avaliar os impactos da proposta na aprendizagem escolar. No entanto, ele ressalta que ainda não é possível analisar com precisão científica, mas chama atenção para a importância do professor no processo formativo.
"O processo de aprendizagem mais qualificado demanda a presença do professor, bem remunerado, motivado e bem preparado. Se é verdade que a docência no Brasil cumpre muito pouco esses requisitos, isso não significa que a figura do professor perca a sua importância. É preciso qualificar a formação docente, pagar melhor os professores e diminuir o seu trabalho de sala de aula, oferecendo mais tempo remunerado para a sua qualificação profissional", pontua o sociólogo.
Portanto, o professor defende que a qualidade do ensino médio deve ser encarada com mais investimentos nos professores e nas escolas e não com a retirada de um dos atores do processo de ensino-aprendizagem.
Para Caprara, os resultados educacionais são oriundos de diversas variáveis, tais como, a origem de classe do aluno, a qualidade da escolarização e, ainda, pelo envolvimento da família na vida escolar dos jovens. O professor destaca que a proposta deve ser analisada considerando todas essas variáveis. "Não sei dizer até que ponto os nossos jovens, em casa, muitas vezes em condições de imensa vulnerabilidade social, conseguirão aprender com vídeos, exercícios ou apostilas online, tendo em vista que o analfabetismo funcional e o analfabetismo digital são grandes no Brasil" ressalta.
Neste sentido, a diretora da Escola Estadual Normal José Bonifácio, Susie Moreira, defende que a proposta não garante efetivar a qualidade no ensino. A educadora observa as novas regras com grande preocupação, considerando que, segundo ela, a relação entre professores e alunos é essencial para a aprendizagem.
Susie também demonstra preocupação com o acesso ao ensino a distância, levando em conta que as escolas não possuem as mesmas estruturas. Sendo assim, ela argumenta que têm escolas com possibilidades favoráveis à modalidade EAD, ao passo que outras não, com isso, Susie pontua que pode aprofundar as desigualdades sociais.
A professora considera também que o ensino médio precisa de propostas de melhorias. "No entanto, estas discussões também devem incluir a comunidade escolar, para que os projetos sejam elaborados de forma dialogada com a realidade da educação", pontua.
Como alternativa as melhorias nessa fase educacional, Caprara apresenta o modelo de ensino dos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia (IF). "Os IF´s têm excelentes médias nas avaliações de larga escala, comparáveis a países de ponta. Qual o segredo dos IF´s? Aula presencial em turno integral, professores com ótimos salários e ótimas formações, equipes interdisciplinares de acompanhamento pedagógico, médico e psicológico, ofertas de atividades de extensão como esportes, artes e informática, além de estruturas físicas com recursos tecnológicos, laboratoriais, bibliotecas, Datashow, entre outras" conclui.