"A falta de professores implica diretamente em nosso futuro profissional". A preocupação é das estudantes Julia Correia e Fernanda Kissel. Ambas estão cursando o segundo ano do ensino médio no Colégio Agrícola Estadual Ângelo Emilio Grando, em Erechim. Ansiosas pela volta às aulas na próxima semana, as alunas foram recebidas com a notícia de ausências no quadro de professores.
A angústia se justifica, principalmente, pela incerteza de quando as vagas dos professores que se aposentaram no ano passado, serão preenchidas. "Nossas aulas só voltam na semana que vem, mas estávamos animadas com o retorno do calendário e já estamos pelos corredores. Se a situação não for solucionada nós perderemos muitos conteúdos e atividades práticas, já temos que nos organizar com os feriados, em que momento vamos recuperar essas aulas?", questionam.
De acordo com o diretor Delomar Ceron, quatro professores encerraram suas carreiras em 2018. As ausências refletem nas duas áreas de atuação do colégio: ensino médio e técnico/profissional. Na educação básica as aulas de matemática, inglês, religião e educação artística estão comprometidas. Já no ensino técnico são cerca de 70 períodos de disciplinas voltadas à zootecnia e agricultura. "Esse impasse dificulta o fechamento do cronograma das aulas. Uma característica específica do agrícola é que temos também o internato, ou seja, diferente das outras escolas, não podemos simplesmente liberar os estudantes antes do horário de saída. Os nossos professores também lecionam em outras instituições, portanto, não podemos sobrecarregá-los", destaca Ceron.
Neste cenário, aquilo que mais indigna a direção é o descaso dos órgãos responsáveis pelo gerenciamento dos recursos humanos. "Os professores se aposentaram no ano passado, sinalizamos no sistema essas ausências no dia 12 de fevereiro, eles esperaram começar o ano letivo e mesmo assim não temos um retorno positivo", argumenta o diretor.
Diante disso, o colégio precisou reorganizar o início do calendário. Nesta semana, apenas os estudantes do primeiro ano do ensino médio estão com aulas regulares. Para a próxima semana, com retorno de todos os alunos, a direção garante as aulas até quinta-feira. "Não podemos manter os estudantes ociosos, nós temos um internato com cerca de 125 alunos e 100 no semi-internato. Por isso optamos em liberá-los na quinta, de forma que possam retornar para suas residências", informa o vice-diretor Aldinei Pogoszelski.
Outro desafio apresentado pela direção é a falta de monitores, sendo que todo internato tem direito a três monitores de 40 horas semanais, no entanto, atualmente, o Agrícola conta apenas com um.
"Passa e repassa" de responsabilidades
De acordo com a coordenadora-adjunta da 15ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE), Andreia Ascari, a indicação de professores está em fase de gerenciamento. "Esse processo de identificar as necessidades começou em dezembro do ano passado. No entanto, a Secretaria Estadual de Educação (Seduc) só abriu o sistema para as escolas indicarem o quadro de educadores em fevereiro", pontua.
Andreia explicou à reportagem do Bom Dia que o órgão possui listas de espera de contratos emergenciais ainda do ano de 2016 e priorizam nomear aqueles que foram selecionados em concursos. Contudo, a dificuldade existe pelos períodos estabelecidos pela Seduc. "Esse cenário também se aplica em outras instituições, bem como, acredito que em outras coordenadorias", ressalta a coordenadora.
A previsão da 15ª CRE é solucionar esse problema até a próxima semana. "Acredito que até quinta-feira essa situação estará normalizada, considerando que os professores já estão sendo encaminhados", conclui Andreia.
Questionada sobre a situação, a Seduc informou, por meio de nota enviada à reportagem, que o atraso é de responsabilidade das coordenadorias. "A Secretaria efetua durante o mês de janeiro, o estudo do quadro de recursos humanos em todas as escolas da rede estadual. Este procedimento visa identificar as necessidades, bem como analisar as demandas de professores para o ano letivo que se inicia. Previamente, a Seduc realiza o levantamento junto à CRE, para ter uma previsão de afastamentos devido aos casos de aposentadoria e licença-saúde. Depois, com base nas demandas, é aberto o cadastro de contratações temporárias", pontuou o órgão.
Segundo a Seduc, a responsabilidade de administrar as demandas é das coordenadorias, tendo ainda, "a possibilidade de deslocar professores de seus setores até que sejam finalizados os devidos ajustes de quadro para o início do ano letivo", concluiu.
Nesse "passa ou repassa" de responsabilidades, o clima é de apreensão e incertezas na comunidade escolar.