Aprendizagem vicária, esse é o fenômeno que pode acontecer após o ataque na escola de Suzano em São Paulo. De acordo com a psicóloga e professora da URI, Jacqueline Enricone, a sensação de insegurança certamente transcende a comunidade que viveu o triste episódio, explicando que o fato pode favorecer o aparecimento de comportamentos de medo com relação ao ambiente escolar.
Para Jacqueline, a saída é investir na qualificação da relação entre família, escola e comunidade. "Algumas instituições buscam no aumento do policiamento e câmeras de segurança o alívio para esta ansiedade. Contudo, esse reforço, sozinho, não adianta. É preciso desenvolver ações que contribuam para o desenvolvimento pessoal de pais, estudantes e professores, além de promover a aprendizagem de qualidade para todos", afirmou em entrevista ao Jornal Bom Dia. A psicóloga pontuou ainda, que o compromisso com a tarefa de educar deve ser partilhado entre todos e não apenas das escolas.
Outro fator que ela chama a atenção são as associações com o bullying. "É preciso compreender que nem tudo o que acontece na escola deve ser reduzido ao bullying. Essa associação acaba tornando invisível outras questões que precisam ser analisadas como, por exemplo, o desrespeito com as pessoas com deficiência, o racismo, o preconceito de gênero e a desigualdade social", reforçou.
Jacqueline acredita que o bullying é um fenômeno acompanhado de questões sociais, "e isso pode ser considerado um fator de risco para situações de violência como a de Suzano, mas outros fatores podem estar relacionados a este comportamento, tais como o adoecimento psíquico ou uma estrutura psíquica mais perversa dos adolescentes. Além disso, sua inserção em grupos vinculados à Internet que reforçam o discurso de ódio parece ter sido um fator importante no planejamento da ação", enfatizou.
Muitas vezes o bullying é associado ao ambiente escolar, contudo, a psicóloga reforça que também é um dos principais espaços para a construção de conhecimentos, relacionamentos e aprendizagem de habilidades. Portanto, "situações do fenômeno que reproduzem estereótipos e preconceitos sociais são geradoras de sofrimento e não podem ser ignoradas. É preciso que falemos sobre isso, que cuidemos da saúde mental dos estudantes, bem como, a relação entre a escola e a família deve ser de confiança e trabalho conjunto", pontuou.
Por ser um espaço que cria relações sociais, a psicóloga ressalta que a formação dos professores deve superar a competência técnica por meio do estudo de alguns temas, tais como "a educação emocional, mas o desenvolvimento de habilidades sociais está cada vez mais presente na formação, tanto nos cursos de graduação como na formação continuada", destacou, citando também que os professores são importantes na prevenção deste tipo de ação, contudo, não são os responsáveis. "É preciso repensar o papel das famílias neste contexto, e lembrar da responsabilidade dos gestores educacionais em buscar políticas e ações que efetivamente contribuam para o desenvolvimento social e pessoal de todos".
Jacqueline concluiu a entrevista enfatizando a importância de profissionais da Psicologia na rotina das instituições escolares, contudo, ainda não há amparo legal para garantir a presença de pessoas para cuidar da saúde mental da comunidade escolar.