O processo de democratização do acesso ao ensino superior ocorreu de forma desigual entre os cursos de graduação. A análise é do sociólogo e professor da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), campus Erechim, Thiago Ingrassia Pereira. "Os cursos de licenciaturas, fundamentalmente, recebem o público considerado de classe popular, por outro lado, a área da Saúde, algumas engenharias e arquitetura mantêm o perfil de classe média, o que revela uma ocupação desigual das vagas", pontuou em entrevista ao Jornal Bom Dia.
No início deste mês, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) no Brasil e a Fundação Carlos Chagas (FCC) lançaram o livro Professores do Brasil, que revela dados indicando que o magistério é o curso mais procurado pelo segmento mais desfavorecido economicamente da população.
Esse fenômeno pode ser explicado por alguns fatores, entre eles: a baixa concorrência e a flexibilidade com relação aos turnos de ofertas dos cursos. "São profissões que acabaram ficando com menos prestígio, considerando a perda de valorização salarial atrelado às jornadas de trabalhado prolongadas, com realização de tarefas fora do ambiente de trabalho, por exemplo. Esse cenário produziu uma imagem desgastada da docência, interferindo e diminuindo a procura pelos cursos de magistério e facilitando o ingresso das pessoas que por ventura se sentiram menos preparadas", destacou Pereira.
O professor sinalizou ainda, a expansão dos cursos de licenciatura no sistema de Educação a distância (EaD). "São opções mais baratas, ou seja, a docência não precisa, necessariamente, de laboratórios e equipamentos que encarecem seu custo, então torna-se mais viável uma licenciatura em EaD".
Essa frequência também pode estar associada ao perfil dos discentes, que em muitos casos concilia a rotina de trabalho com os estudos. "Talvez, a escolha pela licenciatura não era a primeira opção desses estudantes, mas como podem ser cursados a noite ou em horários flexíveis com a alternativa a distância, decidiram por esse caminho. No caso específico do campus de Erechim da UFFS, todas as licenciaturas são ofertadas a noite, então acaba sendo uma escolha regulada, pois se a pessoa quer fazer um curso público e gratuito, necessariamente, terá que ser uma licenciatura", reforçou o docente.
Contudo, o cenário também é positivo, pois o magistério é uma área com demanda constante de profissionais. "O grau de empregabilidade é muito alto, portanto, é possível sim ter um processo de mobilidade social. Por mais que o salário não representa a função social do professor, é verdade que há oportunidades de trabalho, o que garante, pelo menos, a colocação no mercado de trabalho. E em alguns municípios o plano de carreira é bem interessante, como é o caso de Erechim, que valoriza a pós-graduação", concluiu Pereira.
Identificação com a docência
Mesmo neste cenário de desvalorização profissional, ainda há pessoas que se identificam com o magistério e optam pela docência. Como é o caso do licenciando em Geografia da UFFS, Wander Luís Marques, que iniciou os estudos para ser professor de Biologia, mas por questões financeiras trancou a formação. "Sabendo da existência da universidade federal, busquei me informar sobre os cursos que possuía, analisando as matérias ofertadas pela Geografia, tive uma identificação imediata", relatou em entrevista à reportagem.
A rotina universitária reforçou seu interesse pela profissão. "Motivado por professores que durante o meu processo de ensino, instigam minha curiosidade e me proporcionam o deslumbramento do conhecimento, acabei naturalmente desenvolvendo empatia com a atuação dos professores. Hoje atuando em quatro estágios e participando do Programa Residência Pedagógica, percebo as dificuldades de desenvolver as práticas docentes, da mesma maneira que tenho o deslumbramento ao proporcionar aos meus alunos a descoberta de algo novo gerado pelo aprendizado. Posso não ter escolhido a Geografia como primeira opção, mas hoje ela é a minha opção e ser um excelente professor é meu objetivo", concluiu o estudante.
A atuação no ambiente escolar também é o sonho da Glaucia Drews, formada em Ciências Sociais pela UFFS. "Sou graduada em Serviço Social pela Universidade Católica de Pelotas (UCPEL), mas minha intenção sempre foi estar em sala de aula. Depois que me mudei para Erechim descobri a UFFS e conferi os cursos ligados à licenciatura, entrei como portadora de título, mas o que facilitou foi o turno compatível com meu trabalho diurno. Resolvi encarar o desafio e não me arrependo em nenhum minuto", destacou, citando ainda, que já está formada e aguarda a nomeação em escolas.