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Ensino

Alfabetização: dificuldade na aprendizagem não deve ser confundida com distúrbios

Observação é da professora da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) – campus Erechim, Flávia Burdzinski

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“A alfabetização é um processo cultural, social, histórico, individual e singular de cada sujeito”,
Mestre em Educação e professora da UFFS, Flávia Burdzinski
Por Amanda Mendes
Foto Maitê Smaniotto e Divulgação

Os índices sobre alfabetização no Brasil despertam preocupação com relação aos métodos de aprendizagens e elaboração de políticas públicas. Segundo resultados mais recentes da Avaliação Nacional da Alfabetização (ANA), 54,73% de mais de 2 milhões de alunos concluintes do 3º ano do ensino fundamental apresentaram desempenho insuficiente no exame de proficiência em leitura. Em escrita, 33,95% ficaram em nível insuficiente e 54,46% apresentaram desempenho abaixo do adequado em Matemática.

Com a meta estabelecida pelo Plano Nacional de Educação (PNE), de alfabetizar todas as crianças, no máximo, até o final do 3º ano do ensino fundamental, esses números demonstram a necessidade de maior atenção para os diferentes métodos utilizada nas escolas brasileiras.

Contudo, para a mestre em Educação e professora da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) – campus Erechim, Flávia Burdzinski, a alfabetização inicia muito antes do sujeito frequentar a escola. “Isso ocorre porque é um processo cultural, social, histórico, individual e singular de cada sujeito, envolvendo muitas questões relacionadas ao meio em que a criança está inserida, se as pessoas que fazem parte do seu convívio usam ou não a leitura e a escrita, a importância que dão para materiais como jornais, revistas, livros e panfletos. É social porque envolve políticas públicas que viabilizam acesso ao patrimônio histórico e cultural da humanidade. Por fim, é individual e singular porque é único, portanto cada um terá um processo diferente”, contou à reportagem do Jornal Bom Dia.

Neste cenário, a professora afirma, “não há idade determinada para uma pessoa aprender a ler e escrever, um exemplo que reforça isso é ainda termos adultos se alfabetizando. Afinal, é um processo que depende de acesso, pois se as crianças viajam, vão a bibliotecas, museus e interagem com bens culturais da nossa sociedade podem (veja bem, podem, isso não é regra) aprender a ler e a escrever com mais rapidez que alguém que não tem acesso. Ou seja, considerando que cada criança tem seu tempo, a aprendizagem não segue um padrão, não é linear nem é igual a todos”.

Sobretudo, Flávia, que atuou como alfabetizadora por sete anos, acredita que esse resultado é conquistado após as crianças verem significado naquilo em que estão aprendendo. “Nesse tempo eu percebia que quando é encarado como uma obrigação, eles resolvem seus conflitos sem precisar ler e escrever, pedindo para o colega, copiando, fazendo tentativas, fatos que alongavam o processo de alfabetização”.

Com isso, para ela, a demora na alfabetização não está necessariamente atrelada a algum distúrbio de aprendizagem. “Como pedagoga observo que temos uma necessidade de definir ‘diagnósticos’, de entender o que tem aquele sujeito que ‘não aprende’. No entanto, muitas vezes as respostas estão no contexto social, o que a escola pode desconhecer e a família não reconhecer que faz parte. Outra coisa que pode dificultar esse processo é a pressão emitida aos estudantes, pois a aprendizagem também está relacionada a questões emocionais e afetivas. A pressão por aprender vem geralmente ligada a ideia de comparação e esse é um equívoco, pois não podemos comparar pessoas”, relatou.

Flávia ressalta, ainda, que é necessário repensar os métodos de ensino. “Hoje, as crianças estão aprendendo da mesma maneira que meus avós em meados da década de 1950. Semana passada, por exemplo, eu vi a filha de uma amiga tendo que decorar uma tabela com as famílias silábicas. Ela com seis anos me perguntou: ‘pra que isso? Que chato!’ Eu tive que concordar com ela, é chato mesmo. Existem outras formas de aproximar as crianças desse universo da leitura e escrita. Precisamos de profissionais mais interessados no que as crianças tem interesse”, concluiu.

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