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Ensino

“No fim, os ataques à educação visam a privatização do ensino público”

Em entrevista ao Jornal Bom Dia, o diretor do Colégio Estadual Professor Mantovani, Roberto Bagatini, comenta o cenário que motivou a paralisação do magistério estadual

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Professores da rede estadual estão em greve por tempo indeterminado
Por Amanda Mendes
Foto Kaliandra Alves Dias

Restruturação do quadro profissional, nivelamento de categorias, atrasos e parcelamento de salários: o cenário é precário e assustador para qualquer carreira e com a Educação não é diferente. A situação traz prejuízos para a rotina de trabalho e está afetando, principalmente, a dimensão emocional dos professores. 

Desmotivados e sem conseguir vislumbrar um futuro melhor, na última segunda-feira (18) a categoria entrou em greve por tempo indeterminado, em resposta à proposta de alteração do plano de carreira dos servidores da Educação, elaborada pelo governador Eduardo Leite e protocolada na Assembleia Legislativa. A mobilização visa pressionar os deputados estaduais para que não aprovem a reforma.

Para entender melhor o contexto, a reportagem do Jornal Bom Dia conversou com o diretor do Colégio Estadual Professor Mantovani, Roberto Bagatini. Na oportunidade, ele afirma que os profissionais não veem mais sentido em atuar na Educação.

“Só quem vive a rotina escolar sabe o quanto nós já estávamos enfrentando dificuldades com a troca de funcionários, falta de professores durante o ano inteiro, enturmações e até mesmo o fechamento de algumas escolas, além de tudo isso tem a questão do atraso dos salários. E a dimensão financeira é muito importante para a dinâmica de vida de qualquer pessoa. Afinal, como alguém consegue se organizar com praticamente dois meses de salários atrasados, sem dinheiro para poder administrar as suas contas?”, questionou Bagatini.

O diretor analisa que esse cenário refletiu na estrutura emocional dos professores. “A gente se abala e todos os dias nós recebemos novidades mais preocupantes, como por exemplo, propostas pedagógicas elaboradas por quem não sabe como é a rotina escolar e não prioriza a aprendizagem integral dos estudantes. E a reformulação do nosso plano de carreira, com o argumento que precisa organizar a situação financeira do Estado, só demonstra que o Leite elegeu os professores, que na minha opinião são os miseráveis da folha de vencimento, para resolver esse problema”, complementou.

Bagatini recorda que, se a Assembleia Legislativa aprovar o projeto, quando ele se aposentar sua renda cairá para mais da metade, já que é concursado com 20 horas semanais, e, por atuar como diretor, ele possuí 20 horas de convocação. No entanto, a proposta de Leite considera apenas o concurso. “Ou seja, eles querem passar uma borracha por toda a nossa trajetória docente e isso me mostra que a estruturação já começou pelo avesso. Nós não temos dignidade financeira, somos mal vistos pela sociedade, não temos poder aquisitivo, não temos como investir, nem como pagar nossas contas em dia”, complementou.

E, para além da questão econômica, o ano letivo foi marcado por diversas iniciativas que sobrecarregaram a rotina docente. “O Estado está esvaziando os setores das instituições de ensino, por exemplo, hoje, a biblioteca, secretaria e coordenação não têm importância. Tudo isso coloca em ‘cheque’ o papel da escola, pois ela vem absorvendo muitas funções, tentando resolver questões sociais, familiares, financeiras, e o governo esquece do profissional. Desde que o professor esteja em sala de aula, está tudo bem, mas o processo de ensino-aprendizagem demanda muito mais que a simples presença no espaço escolar”, argumentou o diretor. Sobretudo, Bagatini acredita que essas ações visam a precarização da educação pública para, posteriormente, privatizá-la. “Atualmente, nosso piso, que deveria ser o básico da remuneração do magistério, se tornou o teto. Nós não temos mais motivos para vir trabalhar, não temos como planejar uma ascensão profissional e isso em qualquer profissão causaria desmotivação. O governo quer que as pessoas não acreditem na seriedade de nosso trabalho e passem a defender a oferta do ensino de maneira privada. Eles podem tentar enganar a população, mas nós, não”, concluiu.

O 15ª núcleo do Centro dos Professores do Estado do Rio Grande do Sul (Cpers), está organizando comissões e o comitê de greve para planejar as atividades. Já são mais de 50 escolas com paralisação integral e parcial. Na quinta-feira (21), o calendário prevê uma plenária regional de mobilização no Colégio Estadual Professor Mantovani, às 14h.

 

*Colaboração: Taiane Maiara do Carmo

 

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