Essa é a opinião da professora no curso de Pedagogia da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) – campus Erechim, Flávia Burdzinski de Souza, sobre o Programa “Tempo de Aprender”, lançado em fevereiro pelo Ministério da Educação (MEC), que visa melhorar os índices de alfabetização nacional.
O Programa é voltado para o aperfeiçoamento, apoio e a valorização de professores e gestores escolares do último ano da pré-escola e do 1º e 2º ano do ensino fundamental.
Sobre o Programa
Conforme publicado pelo MEC, o “Tempo de Aprender” foi idealizado a partir de um diagnóstico que identificou as áreas da alfabetização que demandam mais investimentos, sendo elas: formação pedagógica e gerencial de docentes e gestores; materiais e recursos para alunos e professores e acompanhamento da evolução dos alunos.
Organizado em quatro eixos e 10 ações efetivas e com base na Política Nacional de Alfabetização (PNA), o Programa “traça um plano estratégico para corrigir a rota das políticas públicas de alfabetização no país e será implementado por meio da adesão de estados, municípios e Distrito Federal, que já podem manifestar interesse no site”, afirma publicação do MEC.
Com poucas informações, ainda não é possível analisar a proposta
Contudo, Flávia pontua que as informações publicadas pelo MEC ainda são insuficientes para avaliar o possível alcance positivo que esse Programa terá nos processos de ensino e aprendizagem.
“As informações mostram os eixos de atuação, no entanto, os conteúdos a serem abordados e a metodologia que será adotada ainda não foram divulgados. Ainda não compreendi quais os estudos científicos são esses que o Programa disse se basear. Dessa maneira, com base no pouco que conhecemos da proposta, alguns pontos já me trazem preocupação, por exemplo, a inclusão da pré-escola. Tenho receio que venham querer antecipar conteúdos e conhecimentos para as crianças, o que é ilegal, de acordo com o artigo 11 da Resolução do Conselho Nacional de Educação e da Câmara de Educação Básica CNE/CEB n. 05/2 009. Afinal, já antecipamos a entrada das crianças aos 6 anos no ensino fundamental, para assegurar um tempo maior de aprendizado. Por que agora querer antecipar mais uma etapa?”, questiona.
Falta continuidade nas políticas educacionais
Para a docente, a descontinuidade nas políticas educacionais revela a falta de prioridade da educação no Brasil. “Ainda não conquistamos a tradição de manter ações que visam melhorar a aprendizagem. Já tínhamos a nível federal programas que objetivavam a melhoria na qualidade educacional, como é o caso do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (Pnaic), que surgiu em 2012 e encerrou em 2018, tempo que considero não ser suficiente para que possamos realmente criar uma cultura formativa e caminhos metodológicos, criativos e significativos para que as crianças possam aprender a ler e escrever”, pontuou.
“Existem relatos de professores e gestores, ouvidos na UFFS, que atuou no Pnaic em 2017 e 2018, de que foi uma política a nível de formação muito expressiva. Os professores recebiam auxílio financeiro para estudar (afinal estudar também é trabalho), ganhavam materiais, tinham colegas parceiros para a troca de experiências, pensavam em ações a partir de sua realidade, enfim, desenvolviam no coletivo uma formação continuada. Me questiono por que não dar continuidade há algo que estava dando certo. Se olharmos para a realidade das escolas, principalmente das públicas, há uma rotatividade muito grande de profissionais nos anos iniciais do ensino fundamental, com crianças de 6 anos, e atuar com essa faixa etária é diferente com uma de 10 anos, isso exige tempo, estudo e comprometimento, o que se faz pela via da formação inicial e continuada, bem como, da valorização do magistério. Observo, que o que falta, principalmente, é valorizar a educação em nosso país, tornando-a prioridade na política”, acrescentou Flávia.
Conforme a professora, essa prioridade deve ser demonstrada por meio de investimentos. “Com os eixos apresentados pelo Programa, sinceramente, não acredito que será suficiente para cumprir a proposta apresentada, porque enquanto a educação não for prioridade no país, nos investimentos, em políticas públicas assegurada nacionalmente (independente de quem estiver no governo), ela será somente mais uma política educacional. Penso, ainda, que falta continuidade nos investimentos e nas políticas e é isso que as escolas precisam”, argumentou.
Sobretudo, para Flávia, o “tempo de aprender” é o tempo da vida, “estamos a todo momento aprendendo, por meio do tempo, do significado, da continuidade de experiências, da atribuição de sentidos. Cada sujeito tem um tempo singular de aprender, pois é um processo subjetivo. Depende de muitas condições e fatores, e não só de políticas públicas que determinem o ‘tempo de aprender’”, concluiu.