“Temos que assumir uma visão social e não individualista”. Essa é a opinião da estudante e presidente do Grêmio Estudantil do Colégio Estadual Professor Mantovani de Erechim, Maria Negretti, sobre a insistência do Ministério da Educação (MEC) em manter o cronograma do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).
Em meio a pandemia provocada pelo novo coronavírus, que demandou aos governos estaduais e municipais adotarem medidas de distanciamento social e, com isso, suspenderem as atividades presenciais na Educação, muitas entidades têm solicitado o adiamento da aplicação do Exame, alegando que o acesso à internet, principal fonte de estudo nesse contexto, é desigual nas famílias brasileiras.
Maria, que está no terceiro ano do ensino médio e irá prestar o Enem, destaca que, mesmo se adaptando as novas maneiras de ensino, contando com apoio de seu Colégio, se sentirá prejudicada com a aplicação da prova, mas amplia sua preocupação às pessoas que não têm o mesmo suporte que ela.
“Por mais que no momento eu tenha acesso à Internet e, consequentemente, meu cronograma escolar não tenha sido tão prejudicado, tenho consciência de que minha vivência é quase utópica quando visualizada por olhos de estudantes em situações diferentes, vivências difíceis”, contou.
Com uma trajetória escolar percorrida em instituições públicas, Maria ressalta que migrar para o ensino a distância trouxe prejuízos a sua preparação. “Nunca contei com cursinhos complementares, apenas com períodos feitos no Colégio e mais algumas boas horas de dedicação em casa. Porém, tenho convicção de que, por não ser autodidata – assim como a maioria das pessoas não o são – todo o auxílio presencial prestado por meus professores foi fundamental na construção de meu conhecimento”.
“Portanto, no período anterior à pandemia, meus métodos de estudo e aprendizagem contavam, majoritariamente, com a interação com o professor. Neste período, tendo aderido à prática de estudo remoto, minha preparação tornou-se diferente e um pouco mais precária. Apesar de todos os conteúdos disponibilizados por meu Colégio, senti a necessidade de recorrer a cursos online para complementar minha rotina de estudos. Com isso, temo um pouco a prova deste ano, devido a toda instabilidade do momento, mas creio conseguir me adaptar ao novo método e obter resultados satisfatórios”, acrescentou a estudante.
Aplicação pode intensificar desigualdade
Para Maria, a aplicação do Enem, neste contexto, auxiliará para intensificar a desigualdade que já existe no país. “Na escola, existia um padrão e, assim, espera-se que pessoas de diferentes realidades possam aprender da mesma forma. No ambiente da casa de cada um dos estudantes, essa realidade é extremamente exclusiva: nenhuma é totalmente igual a outra. Enquanto penso isso, estudantes estão tendo aulas, com certeza. Mas existem outros estudantes que não possuem nem energia elétrica, por exemplo. As realidades estudantis são muito distantes umas das outras”.
Assim, a estudante ressalta que o caráter inclusivo do Enem, pode estar em risco. “Portanto, os estudantes mais privilegiados irão atingir suas metas, enquanto aqueles que se encontram às margens da sociedade, dificilmente conseguirão. E o Enem é (ou deveria ser) uma oportunidade a todos, como forma de mudança social, o mais próximo possível que teríamos da igualdade. Ou seja, essa situação deve ser vista da maneira mais social possível, levando em consideração todos os fatores que fazem a desigualdade ascender em meio a esta crise. Por isso, o adiamento da prova do Enem é essencial. Precisa-se de tempo, por isso a importância do adiamento da prova. Se a prova não for adiada, perderá definitivamente sua razão de aplicação”, concluiu.
“Injustiça social”
O erechinense, Gabriel Weishaupt, que finalizou o ensino médio em 2019 no Colégio Estadual Professor Mantovani, está realizando um curso de preparação para o Enem, possui acesso a internet e também espera que a aplicação seja adiada.
“Tenho conseguido manter um bom ritmo de estudos durante a quarentena, mas compreendo que estou em uma posição de privilégio em relação a outros estudantes, considerando pesquisas realizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que apontam que nem todas as famílias têm acesso a internet e, ainda, esses dados se agravam quando consideramos a população do meio rural”, argumentou à reportagem.
Para ele, o Enem é uma das principais formas de democratizar o ingresso ao ensino superior e, por isso, o adiamento é fundamental. “Nesse momento, a manutenção do cronograma do Exame se torna extremamente excludente e uma enorme injustiça social. Além disso, a Organização das Nações Unidas (ONU) estima que muitas crianças e jovens no Brasil não estão recebendo alimentação escolar durante a quarentena. Então me questiono, como pode ser justo cobrar de estudantes, que se encontram em uma realidade de fome e vulnerabilidade, que se preparem para o Enem?”.
Além disso, Gabriel ressalta que mesmo com todo o apoio de seu cursinho e a estrutura de sua vida, que o permite seguir estudando em casa, ele também se sentirá prejudicado se a aplicação for mantida. “Sinto falta do contato direto com os professores, tem também o estresse e a preocupação causado pela pandemia, que está afetando minha rotina. Contornar a ansiedade não tem sido fácil”, concluiu.
Campanha
Maria e Gabriel participam da União Municipal de Estudantes Secundaristas de Erechim (UMESE) e, somando-se as campanhas estadual e nacional das entidades representativas dos estudantes, estão promovendo diversas ações no município, entre elas uma petição online pelo adiamento e subindo a #AdiaENEM em redes sociais.
De acordo com o diretor de Direitos Humanos da União Estadual dos Estudantes do RS, Gabriel Argenton, que também é acadêmico na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), a campanha #AdiaENEM foi criada pensando nas pessoas que serão prejudicadas com a manutenção do cronograma do Exame.
“Com as atividades presenciais suspensas nas instituições de ensino, manter as provas do Enem, representa excluir diversos jovens que não estão tendo o auxílio necessário para estudar. Esta proposta não significa culpabilizar a quarentena, mas sim colocar em discussão que o MEC não está disposto a entender a realidade de muitos estudantes, que não estão tendo as mesmas condições para se preparar. As precárias condições que os estudantes das periferias e do campo, que muitas vezes não tem acesso à internet e realizam trabalhos paralelos à atividade educacional, se intensificam ainda mais nesse momento da crise, causada pela covid-19. O resultado de não adiar o Enem, é retroceder políticas de incentivo ao acesso das pessoas mais vulneráveis ao ensino superior e à discussão cientifica”, pontuou Argenton.
Senado discute adiamento
A questão do adiamento do Enem foi pauta no Senado na sessão deliberativa de ontem (19), às 16h. Na oportunidade, os senadores aprovaram o projeto que visa suspender instantaneamente a aplicação de provas e exames, em casos de calamidade pública decretados pelo Congresso Nacional.
A reportagem do Jornal Bom Dia entrou em contato com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão vinculado ao MEC, responsável pelo Exame, para entender como esse pedido está sendo tratado, mas até o fim desta edição não obteve retorno.