O ensino remoto, alternativa adotada no período de suspensão das aulas presenciais em função das transmissões do novo coronavírus, está alterando a dinâmica da Educação e revelando algumas barreiras aos processos de ensino e aprendizagem, principalmente pela ausência do professor. Para os estudantes com deficiência, além de materiais adaptados, o auxílio das famílias tem sido essencial para enfrentar esses desafios.
As atividades não presenciais na rede de ensino municipal de Erechim iniciaram semana passada e para as pessoas com deficiência os materiais foram adaptados. Esse é o caso da Escola Municipal de Ensino Fundamental Othelo Rosa.
“Para os estudantes com deficiência nós elaboramos materiais que fossem acessíveis para eles estudarem, por exemplo, temos duas alunas cegas, então as atividades foram traduzidas para o braile (sistema de escrita e leitura tátil). Por enquanto, as famílias não têm relatado nenhuma dificuldade em repassar os conteúdos com seus filhos”, contou a diretora da Escola, Taise Dariva à reportagem do Jornal Bom Dia.
“Inclusão deve permanecer na pandemia”
Conforme a coordenadora da Educação Inclusiva da Secretaria Municipal de Educação de Erechim, Marilene Pizarro, é necessário respeito para efetivar a inclusão, principalmente no momento de distanciamento social. “Nós orientamos as escolas para que todos os estudantes com deficiência, recebam as atividades remotas regulares, respeitando suas particularidades e com as adaptações necessárias”.
“Ainda, o Atendimento Educacional Especializado (AEE) presente em todas as escolas municipais, dispõe de atividades elaboradas especificamente a esses alunos, de acordo com as possibilidades de cada um, salientando que todos têm direito a uma atenção especial e merecem ser atendidos em suas especificidades, principalmente neste momento de enfrentamento à doença da covid-19”, complementou Marilene.
Apoio dos professores e famílias
A coordenadora ressalta, ainda, a importância do auxílio no acompanhamento das atividades. “Contamos com equipes diretivas e professores dedicados, bem como, apoio das famílias. Mas, sobretudo, acredito que essas atividades, contribuem para o processo de ensino e aprendizagem e servem para que cada aluno se sinta mais próximo à sua escola, reforçando os laços de afetividade. É necessário que estejamos juntos para avançarmos nesse processo de inclusão escolar de todos, independente do momento, cuidando e preservando a vida”, concluiu.
Tardio, mas necessário
Para Anelise Balsam, mãe da estudante Kelly, de 13 anos, da Escola Othelo Rosa, a única preocupação é com o tempo que as atividades não presenciais irão perdurar. “Isso porque eu trabalho no ramo de sorveteria, então enquanto está frio, consigo estar mais em casa e ajuda-la, mas estamos vivendo um momento incerto e não sabemos até quando ela ficará sem aulas. A Kelly é cega e está recebendo todos os materiais traduzidos, com isso, estamos conseguindo desenvolver todas as tarefas tranquilamente”.
Anelise destaca, no entanto, que em sua avaliação o início das atividades foi tardio. “Antes de iniciar o ensino remoto eu liguei várias vezes na escola para saber porque ainda não estávamos recebendo as atividades. Agora só me preocupa quando minha rotina de trabalho ficar mais intensa e eu não puder acompanhar tão de perto o desenvolvimento das tarefas, como estou fazendo agora. Mas me informaram que a escola deverá se organizar para disponibilizar alguém para auxiliá-la”. As aulas estão suspensas na rede municipal desde o dia 20 de março.
Ainda, a mãe sente que há uma diferença na quantidade de materiais que os estudantes estão recebendo, com relação a Kelly. “Pode ser uma percepção até errônea, mas achei estranho que o prazo de entrega para os outros alunos é no dia 17 deste mês e para minha filha no dia 30. Isso me deixa apreensiva, porque já estamos concluindo quase todos os materiais e ela ficará mais um tempo ociosa”, concluiu Anelise.
Na rede estadual
De acordo com a articuladora da Educação Especial e do Serviço de Atendimento Educacional Especializado (Saee) da 15ª Coordenaria Regional de Educação (CRE), Rosane Garcia, alterações foram necessárias para respeitar a diversidade.
“Estamos utilizando material impresso, jogos, livros e os recursos online conforme a realidade de cada estudante. As professoras do Saee trabalharam em conjunto com os colegas de aula regular para construir as atividades. Algumas adaptações foram na quantidade de atividades, outras apostando em outras formas de expressão, uso de recursos visuais associados aos textos, escritas objetivas no indicativo das atividades, entre outras”, pontuou.
“Nesse processo, a interação com as famílias foi decisiva para a condução das atividades durante o distanciamento social. Muitas fotos e vídeos foram trocados entre as famílias e os professores, sendo marcante a afetividade na condução do processo, o que aproximou mais ainda as famílias com as escolas. Sabemos que algumas crianças não conseguiram desenvolver as atividades, pois a participação da família nos processos dos estudantes não é regular e/ou não conta com a atenção devida, isso nos entristece, mas confirma a relevância do papel da escola”, concluiu Rosane.
“Papel do professor é de extrema importância”
Para a mãe de uma aluna da Escola Estadual Érico Veríssimo, Deiseli Stempkowski, o ensino remoto revela que a presença do professor é fundamental para a aprendizagem. “Para qualquer estudante a educação a distância é algo muito difícil, para aqueles que têm deficiência é ainda mais complicado. O papel do professor é de extrema importância, sem a intervenção dele e sem a interação dos colegas é muito prejudicado. Contudo, percebo que nesse momento de suspensão das aulas, sem essa alternativa, seria ainda pior. Dessa maneira, os pais têm a possibilidade de ter contato com o material de estudo e tentar de alguma maneira desenvolver a aprendizagem”.
“Cabe ressaltar como ponto positivo, a maneira como a escola se organizou para auxiliar os pais na realização das atividades. As professoras da turma e da sala de Saee, estão sempre disponíveis para auxiliar, entrando em contato, mandando sugestões e estão sempre à disposição. Ainda, não podemos esquecer que a responsabilidade dos pais no ensino a distância é imensa, pois as crianças com deficiência precisam de ajuda constante e isso demanda tempo e muita dedicação, além de conhecimento para saber conduzir a aprendizagem. Além das professoras, minha filha tem suporte de psicopedagoga e terapeuta ocupacional, mas a maioria das famílias não tem este suporte e, com certeza, a aprendizagem será muito prejudicada”, concluiu.