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Ensino

“Pesquisa do IBGE revela continuidade nos desafios educacionais”

Análise do professor na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Thiago Ingrassia Pereira, indica que a desigualdade social reflete na aprendizagem

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País ainda possui 11 milhões de analfabetos
Por Amanda Mendes
Foto Divulgação

Na última quarta-feira (15), o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua Educação de 2019. O estudo revela que o índice de analfabetismo no Brasil reduziu de 6,8%, em 2018, para 6,6%, em 2019.

No entanto, conforme os dados, o país ainda possui 11 milhões de analfabetos. “São pessoas de 15 anos ou mais que, pelos critérios do IBGE, não são capazes de ler e escrever nem ao menos um bilhete simples”, aponta a Agência Brasil.

Para o doutor em Educação e professor na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Thiago Ingrassia Pereira, os dados apontam que há uma continuidade nos desafios educacionais do país. “Temos um quadro crônico de desigualdade social que reflete na educação em todos os níveis. Dessa forma, mesmo os tímidos avanços não chegam constituir cenários de mudanças consideráveis”, contou à reportagem do Jornal Bom Dia.

“Cada indicador representa uma pessoa”

Thiago ressalta que por mais que os números tenham reduzidos, ainda há muitas pessoas em situação de analfabetismo. “Em pleno século 21, temos muitos analfabetos e seguimos com uma média de anos de escolaridade equivalente ao ensino fundamental. Além disso, temos em nosso contexto educacional o chamado analfabetismo funcional, que somente explicita a ausência ou a precariedade da oferta escolar. Sobretudo, cada número dos indicadores educacionais do IBGE representa uma pessoa com sua história de vida, seus sonhos dificultados e sua presença no mundo, afetada”.

“O analfabetismo e a baixa escolarização média são expressões do cenário político, econômico e social do nosso país. Ainda que seja um quadro geral, as contradições formativas incidem muito mais nos segmentos sociais populares, entre os quais as questões raciais são muito evidentes a cada pesquisa divulgada”, acrescentou.

Desigualdades

Segundo a Agência Brasil, o levantamento mostra que existem desigualdades raciais e regionais na alfabetização no Brasil. Em relação aos brancos, a taxa de analfabetismo é 3,6% entre aqueles com 15 anos ou mais. No que se refere à população preta e parda, segundo os critérios do IBGE, essa taxa é 8,9%. A diferença aumenta entre aqueles com 60 anos ou mais. Enquanto 9,5% dos brancos não sabem ler ou escrever, entre os pretos e pardos, esse percentual é cerca de três vezes maior: 27,1%.

“As regiões Sul e Sudeste têm as menores taxa de analfabetismo, 3,3% entre os que têm 15 anos ou mais. Na Região Centro-Oeste a taxa é 4,9% e na Região Norte, 7,6%. O Nordeste tem o maior percentual de analfabetos, 13,9%”, acrescenta publicação do órgão.

O professor destaca que a desigualdade regional está presente desde a formação do país. “O processo histórico de formação do Brasil segue tendo relevância nos indicadores educacionais, expresso nas desigualdades regionais. Por isso, as regiões Sul e Sudeste apresentam os melhores índices, ao passo que o Norte e o Nordeste os piores. Contudo, isso não significa que não tenhamos experiências exitosas na educação no Nordeste (o caso de municípios do estado do Ceará é emblemático) ao passo que nas regiões mais desenvolvidas também é possível observar muitos desafios, principalmente nas regiões interioranas de base rural”.

Aspectos para melhorar na educação

Thiago destaca que há dois aspectos importantes que devem ser considerados nos planejamentos que visam melhoras na educação brasileira. “Duas questões devem ser centrais: (a) o reconhecimento definitivo da educação como um direito social de primeira ordem e (b) o investimento necessário no setor educacional, compreendido como política pública indispensável ao desenvolvimento social, cultural e até econômico”.

“Cumpre destacar que o processo de ajustes fiscais empreendidos pelo contexto de reformas que tivemos em 2016, limitando a capacidade de investimento estatal em áreas estratégicas como a educação, ajuda na manutenção desse quadro social que deveria ser motivo de insatisfação permanente de todo e qualquer cidadão consciente”, complementou.

Pandemia deve estagnar indicadores educacionais

De acordo com o professor, a pandemia provocada pelo novo coronavírus está evidenciando as desigualdades sociais do país. “A ‘solução’ do ensino remoto (medida adotada durante o período de suspensão das atividades presenciais), via internet, não é capaz de dar conta da oferta regular ao expressivo segmento de estudantes que não tem acesso adequado à conexão. Nessa direção, tem se exigido dos professores algo que não lhes foi concedido em termos de formação para o manejo de tecnologias da informação e comunicação, além de haver um investimento privado dos educadores na compra de máquinas e planos de internet, para realizar seu trabalho. O ensino remoto, que pode e está sendo realizado, deve ser entendido como uma saída emergencial, com alto potencial excludente e permeado de contradições acerca da relação ensino-aprendizagem”.

“Entendo que as escolas e universidades não estão paradas, como muitas pessoas pensam. Estão se reinventando, se adaptando e buscando saídas, mesmo sem o devido apoio das autoridades competentes. Contudo, as famílias e estudantes precisam entender que esse é um momento novo, cheio de desafios e que tem exposto a saúde física e mental de todo mundo. Em nosso horizonte, é provável que tenhamos um quadro de estagnação nos indicadores educacionais, já que eles são resultado das condições materiais da sociedade. E em sociedades desiguais, como a brasileira, sabemos que as crises costumam afetar quem tem menos e, por isso mesmo, precisaria de mais atenção e apoio”, concluiu.

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