Ansiedade, frustração e incertezas: esses são alguns sentimentos, causados pela pandemia do novo coronavírus, que estão presentes na rotina de jovens acadêmicas, após mais de seis meses com as aulas presenciais suspensas, como medida para evitar possíveis contaminações ao vírus.
“Foi um ‘choque’ perceber que logo nas primeiras semanas de isolamento social todos os planejamentos e minha organização acadêmica foram trocados pela frustração de não conseguir ser produtiva 100% do tempo e dar conta de todas as minhas tarefas acadêmicas e domésticas”. Esse é o relato da estudante de Filosofia da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) – campus Erechim, Franciely Camargo.
Aumento de responsabilidades
A acadêmica está na reta final da graduação, faltando apenas uma disciplina e o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) para conquistar seu diploma, nesse cenário, havia se organizado para aproveitar o momento em casa, intensificando pesquisas da sua formação.
“Porém, logo na segunda semana do calendário acadêmico, tivemos a paralisação das atividades e o isolamento social. De início até pensei que esse período auxiliaria na produção do meu trabalho, achei que teria tempo extra e o conforto de estar em casa seria benéfico para colocar as leituras e pesquisas em dia”, pontuou Franciely.
“Infelizmente, na minha casa as responsabilidades domésticas se intensificaram ainda mais nesse período, tenho um filho de três anos que não foi mais à escola devido a quarentena e meu companheiro, recém-formado, que estava iniciando sua carreira como professor em duas escolas da região. Nós três nos vimos isolados com muitas tarefas para fazer em um mesmo ambiente, somando aos cuidados em tempo integral com nosso filho e as incertezas de como as coisas ficariam dali em diante. Acabei atrasando a produção do meu trabalho e percebi que nesses 6 meses de pandemia e isolamento, meu raciocínio e disposição decaíram muito e, consequentemente, isso tem afetado minha escrita e leitura dos textos acadêmicos”, complementou.
“Achei que o isolamento não seria tão extenso”
Para a acadêmica em História da UFFS – Erechim, Alice Gonçalves, o tempo com as atividades paralisadas foi o mais preocupante. “Achei que o isolamento ia ser mais curto, então, no começo estava tranquila, mas ele foi se estendendo e minha ansiedade aumentando, me questionei quanto tempo ficaríamos com as atividades paralisadas e como isso iria interferir no tempo que levaria para me formar, o que me deixou bem desanimada”.
As aulas na UFFS retornam nesta segunda-feira (5), mas em formato remoto, ou seja, sem aulas presenciais.
“Provavelmente a pandemia afetará meu futuro”
Para a acadêmica em Ciências Sociais da UFFS – Erechim, Taiane Lago, essa pausa pode afetar sua carreira. “Acredito que é impossível passar por esse momento sem se sentir atingido, porque tudo mudou, e começamos a analisar as coisas com olhar e perspectivas diferentes. Provavelmente a pandemia afetará meu futuro, afinal, estamos passando por muitas adaptações e experiências que irão interferir na minha vida acadêmica, e, consequentemente, em meu futuro pessoal”.
Entre desistir e perseverar
O cenário de incertezas trouxe alguns questionamentos para as estudantes, entre eles, a permanência no curso.
“Nesse período, estive completamente isolada e muitas vezes pensei em desistir da graduação, pelo fato de não termos contato direto aos conteúdos diariamente e estarmos distante do conhecimento específico do curso. A persistência me fez continuar, foquei nos benefícios que esse curso me traz, como agrega meu conhecimento e na minha carreira. Acredito que trancar a matrícula é algo que passou na cabeça de muitas pessoas, mas penso que persistir naquilo que gostamos é um ato de coragem”, confessou Taiane.
Desistir também foi cogitado por Alice. “Me questionava muito se era isso mesmo que eu queria, se estava me dedicando e, principalmente, se um dia conseguiria o tão sonhado diploma, todos esses pensamentos viraram uma ‘bola de neve’ e acabei optando por deixar de lado essas questões. Após esse momento, surgiram algumas oportunidades que me deram ânimo, tais como participar de um programa da Universidade, como bolsista”.
Já Franciely pensou em trancar a matrícula, até que a situação se normalizasse. “Desisti dessa ideia, pois tive medo de acabar não retornando mais à faculdade. Foi muito difícil ter acesso ao ensino superior, como também, me manter em uma cidade nova e longe da família, seria injusto comigo e com outras pessoas que ainda não tiveram a mesma oportunidade que eu, desistir logo no meu último ano de graduação. Então, optei por continuar matriculada e fazendo o máximo para manter pelo menos parte das minhas tarefas acadêmicas em dia”.