“Se tivermos objetivos, sonhos, não podemos deixar o mundo nos persuadir, não devemos recuar diante de qualquer pretexto”. Esse é o pensamento do paulistano, Paulo Duarte, de 30 anos, que encontrou em Erechim e, principalmente, na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), a possibilidade de realizar seu sonho de se tornar professor.
Paulo chegou à Capital da Amizade em 2015, para cursar licenciatura em História na UFFS e se formou em agosto do ano passado. A trajetória acadêmica não encerrou e neste semestre, ingressou no mestrado Interdisciplinar em Ciências Humanas, também da UFFS – campus Erechim.
“Mudar de cidade e estado sempre é algo interessante, pois me trouxe uma visão e uma vivência de outra região, diferente do local de origem que eu morava, mas que apesar das diferenças estou me adaptando (mesmo já estando em Erechim há seis anos, creio que esse processo é constante) e vivendo todas as dimensões do mundo universitário”, contou à reportagem.
Entre se adequar à rotina acadêmica, Paulo ainda precisou conviver com certas desmotivações. “As pessoas, desde família, amigos, colegas e a sociedade em alguma parte, tentam desanimar, mas alguns ainda tentam te incentivar a estudar. O ‘fogo cruzado’ vem de todos os lados, claro que não posso exagerar, pois temos exceções. Mas ouvir frases de ‘voltar para casa’, ‘você tem coragem de ser professor? Vai passar fome, não perde seu tempo’, é desanimador e são frases desse tipo que permeiam uma parte das pessoas. Penso que isso é fruto de anos de exclusão, opressão, silenciamento, para que nada mude, o mundo é assim mesmo. Enfim, mesmo nesse contexto, me formei em licenciatura em História”, acrescentou.
Ingresso no mestrado
Um ano após sua formatura, Paulo conseguiu ingressar na pós-graduação, na mesma Universidade. “Passar no mestrado foi uma excelente notícia em meio ao período da pandemia e de confinamento em casa, principalmente pela possibilidade de continuar meus estudos”.
Neste ano, em função da pandemia provocada pelo novo coronavírus, o processo seletivo precisou ser adaptado e contou com análise de um pré-projeto de pesquisa e de entrevista, assim, não teve provas presenciais. “Em casa, estudei bastante, li alguns livros e artigos acadêmicos, montei o pré-projeto indicando de maneira breve o que gostaria de pesquisar e como faria o estudo”, pontuou Paulo.
Com corte de bolsas, serviço de tele-entrega foi a alternativa
Como o curso de mestrado é integral, o acadêmico destaca que o corte de bolsas de estudos em diversas áreas do conhecimento poderia ser mais um empecilho para desistir dos estudos, mas encontrou uma forma flexível para conseguir ter renda sem atrapalhar a rotina das aulas.
“Como não podia perder a chance de continuar estudando, já que não é fácil passar em um mestrado aqui no Brasil e são poucas vagas se comparado a graduação, eu tinha que pensar como me manter, já que houve cortes de bolsas para pesquisa em várias áreas do conhecimento pelo país. Antes de iniciar as aulas, estava trabalhando formalmente, mas por não conseguir estar integralmente, acabei optando por sair da empresa. Contudo, como não cogito desistir do mestrado, resolvi parcelar a compra de uma bicicleta e pegar emprestada uma mochila de entrega, pois assim, conseguiria ganhar dinheiro e assistir às aulas”, relatou.
Assim, Paulo começou a fazer serviços de tele-entrega por aplicativo. “Estamos vivendo um futuro fechado, sem perspectiva de mudança e o simples fato de tentar sair desse contexto, por meio dos estudos, já é considerado como uma má ideia para alguns ou perda de tempo. Quando entrei na Universidade, o mundo ainda tentou me desanimar e pôr barreiras. Infelizmente poucos conseguem continuar os estudos no Brasil e quanto mais formação temos, a tendência é ganhar mais, e, com isso vislumbro poder melhorar minha vida, da minha família, e do meu bairro. Sendo professor, posso tentar mudar a realidade do cotidiano que me cerca”, concluiu.