Construir uma carreira profissional brilhante, baseada em esforço, dedicação e superação, não é para qualquer um. Quem busca alcançar esse objetivo precisa persistir e se doar para a realização da meta.
Nem todas as pessoas recebem as mesmas oportunidades, e alguns encontram empecilhos maiores para por exemplo estudar ou fazer uma graduação. Seja por questão de problemas familiares, distância dos grandes centros que possuem as instituições de ensino ou demais fatores que impedem os seres humanos de seguirem na trajetória acadêmica.
Início de um sonho
Quebrar barreiras! Esse sempre foi um dos maiores propósitos de Zenicleia Deggerone. Natural de Faxinalzinho, a doutora cresceu e passou a adolescência na comunidade de Nossa Senhora da Pompéia, interior do município.
No local, auxiliava os pais que sempre foram agricultores, desde muito pequena, juntamente com as três irmãs, mantendo a propriedade rural de 27 hectares. Mesmo dedicando-se aos afazeres domésticos para contribuir com a família, a jovem não deixou de focar nos estudos. “Iniciei na escola com apenas seis anos, em um colégio da comunidade, quando cursei da 1 a 4 série do ensino fundamental – na Escola Machado de Assis.Depois fui estudar na Escola Estadual localizada na cidade de Faxinalzinho. Nesta instituição, cursei a 5 série até o 3 ano do Ensino Médio, quando conclui em 2001”, conta.
Novos desafios
Após a conclusão, a professora prestou vários vestibulares na época, mas não chegou a cursar porque seus pais não tinham condições financeiras e estruturais de pagar as mensalidades e os custos de moradia em outra cidade. “Por isso, fiquei seis meses em casa – desenvolvendo os trabalhos nas atividades produtivas da propriedade rural, até quando eu soube que em Erechim iria abrir uma universidade estadual”, ressalta Zenicleia.
A partir desse momento, a doutora passou a estudar e se preparar para fazer o vestibular, para ingressar nesta universidade, e em 2002 foi aprovada em Administração Rural. “Até ingressar na Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs), eu e meus familiares desconhecíamos que existiam universidades federais no Estado, porque no interior o sinal de televisão era de Santa Catarina, (devido a proximidade geográfica) e isso dificultava o acesso às informações da época”, lamenta.
Graduação
Quando ingressou na universidade, em 2003, Zeniconheceu professores excelentes que a possibilitaram ver o mundo de outra forma, principalmente com relação às oportunidade que poderiam se abrir a partir da pesquisa e educação. “Ao longo do curso fui descobrindo que de fato gostava mesmo era de trabalhar com o rural e com a agricultura familiar. Por isso, na medida que avançava, eu já tinha o interesse de trabalhar na área ou de continuar estudando, por conta do livro do prof. Nédio Piran de 2001 (Agricultura Familiar – Lutas e perspectivas no Alto Uruguai)”, salienta.
Mercado de trabalho
Assim que concluiu a graduação, por mais que a profissional quisesse continuar estudando, precisouingressar no mercado de trabalho para se manter emErechim. “Por isso, fui trabalhar primeiramente em um escritório que fazia a intermediação de compra de venda de cereais, depois em uma Cooperativa Agroindustrial, um Escritório de Projetos Ambientais, no Sindicado Unificado dos trabalhadores da Agricultura Familiar (SUTRAF-AU) até eu passar no concurso da EMATER/RS-Ascar – quando trabalhei por três anos nos Escritórios Municipais de Itatiba do Sul e Aratiba. Sempre busquei atuar em empreendimentos ou instituições que desenvolviam trabalhos junto a agricultura familiar”, frisa.
Mestrado
Enquanto atuava profissionalmente, realizou diversas especializações, até ingressar no mestrado em Ambiente e Desenvolvimento pela UNIVATES em Lajeado-RS. “Após a conclusão, fiz o concurso público para ser docente na Uergs em 2014, que ao ser aprovada, neste mesmo ano iniciei as minhas atividades enquanto professora. Em 2017, fui aprovada em 1º lugar no curso de doutorado em Desenvolvimento Rural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul”, expõe.
Doutorado
O ingresso no doutorado aconteceu porque Zenicleia pode conciliar trabalho e estudo. “Inicialmente eu me desloquei semanalmente - por cerca de 1 ano e meio a Porto Alegre para fazer as aulas no início da semana, e no fim de semana ministrava as aulas em Erechim. Depois, a universidade me concedeu 140 dias para escrever a tese. Em julho consegui finalizar a elaboração da mesma, quando novamente precisei conciliar = tese e trabalho”, revela.
Oportunidades
Para a docente, as universidades públicas contribuempara a inclusão e formação educacional das pessoas. Pois é por meio de uma educação emancipatória que as pessoas poderão acessar melhores oportunidades de trabalho ou criarem os seus próprios empreendimentos e assim alcançar a mobilidade social. “Considero que não basta apenas as universidades serem públicas, as pessoas têm que possuir condições de acesso e permanência neste tipo de instituição de ensino. Muitos jovens, hoje precisam trabalhar e estudar, e por vezes a distância, a falta de transporte, o cansaço por conciliar atividades laborais e acadêmicas, a necessidade de complementar a renda familiar, acabam levando as pessoas a desistirem de estudar, porque é preciso ajudar a família financeiramente. E isso tem limitado a permanência dos jovens e adultos nas universidades”, exemplifica.
Objetivos futuros
Nesta nova fase de sua vida, com a tese concluída, a doutora pretende publicizar os resultados da mesma, por meio de um livro que reúna suas pesquisas sobre a agricultura familiar. “Tenho como propósito continuar desenvolvendo minhas pesquisas sobre o tema dos mercados agroalimentares e aos agricultores familiares, de modo que estes atores sociais e o Alto Uruguai sejam reconhecidos no Brasil - como uma região, em que esta categoria social tem encontrado condições para contribuir com o desenvolvimento do próprio Alto Uruguai Gaúcho”.
Além disso, Zenicleia almeja se especializar em pós-doutorado na produção de novos conhecimentos sobre os mercados da agricultura familiar e a sociologia econômica. “Da mesma forma quero continuar atuando enquanto pesquisadora e docente, buscando oportunizar que muitas e muitos filhas e filhos de agricultores familiares tenham condições de acessar e permanecer no ensino superior”, finaliza.