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Rural

Dias contados para terminar

Região vai ficar sem madeira. Essa é a previsão do engenheiro florestal, Roberto Ferron, e também de produtores em função da desvalorização, custos e falta de pessoas para trabalhar no setor. Prazo estimado é de cinco anos

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Madeira pode vir a escassear dentro de cinco anos na região
“Vai faltar madeira? Logo, na nossa região”, afirma Remi Luis Scholl de Três Arroios
Nos próximos anos vai faltar madeira em todos os setores, observa Josimar Luis Bach de Aratiba
Por Ígor Dalla Rosa Müller
Foto Divulgação

Os recursos naturais são essenciais para o pleno funcionamento de diversos setores da economia. Um desses é a madeira, que pode vir a escassear dentro de cinco anos na região. E não se trata de ser alarmista, mas simplesmente realista, com dados atuais e depoimento de quem atua no setor há muitos anos e sabe das dificuldades enfrentadas dia após dia.         

Aratiba

Segundo o silvicultor, Josimar Luis Bach, do município de Aratiba, que trabalha com reflorestamento, a situação de quem lida com a madeira não é boa. “Por ter pouco valor e a oferta ser grande, ainda, em função de que muitos reflorestamentos de eucalipto estão sendo derrubados para as áreas serem ocupadas por lavouras de soja e milho, que tem uma melhor renda anual”, conta.

Sobre o retorno financeiro ele explica que, no momento, ainda é baixo devido ao preço da madeira. “Mas futuramente deve ter um bom retorno financeiro”, disse.

Josimar acredita que nos próximos anos vai faltar madeira em todos os setores, pelo motivo de que nos últimos anos pouco foi plantado. E entre as dificuldades do setor estão alto custo do plantio até a colheita, já que a silvicultura precisa de muita mão de obra, equipamentos florestais e há pouca valorização da madeira. Josimar vende para madeireiras da região e, também, pra empresas que usam lenha nas caldeiras.

Três Arroios  

Para o produtor de lenha, Remi Luis Scholl, de Três Arroios, a situação não é também favorável. “Se está bom? Estou sobrevivendo devido aos horários de trabalho diário e até finais de semana, e grande parte da manutenção que eu faço, caso contrário, não tem como aguentar”, comenta.

Remi explica que trabalha com compra de eucaliptos, faz cavaco e vende para empresas como Olfar, Vaccaro e aviários, e entre as dificuldades estão as áreas cada vez mais acidentadas, menores, preço das peças para reposição do maquinário. “O conserto está cada vez mais assustador”, afirma.

Na sua avaliação, que trabalha com lenha há 12 anos, não está mais ocorrendo novos reflorestamentos. “Eu acho que mais de 90% dos agricultores que tinham florestas, uma vez que tiraram, não plantaram novamente”, diz.

A situação atual é que, hoje, explica ele, um hectare de eucalipto com 10 anos o agricultor vai ganhar, sem ele ter que fazer a colheita, em média R$ 13 mil sendo que nesta mesma área plantando soja o produtor obtém esse valor em três anos.

“Vai faltar madeira? Logo, na nossa região. Vai ter em áreas de difícil acesso. Hoje, se você perguntar para um cliente que você vende, se ele tem plantado, ele diz que não, mas aí quem vai plantar e quando? Sendo que uma floresta precisa no mínimo uns seis anos para ser colhida”, questiona.

Avaliação

Conforme o engenheiro florestal, Roberto Magnos Ferron, segundo a Emater, a região tinha 18 mil hectares de eucaliptos e 5 mil hectares de pinus, e o consumo anual era de 2 mil hectares por ano de eucalipto. “Neste ano vamos ter 16 mil baixando para 14 mil hectares de eucalipto”, afirma.

Ferron é formado há 42 anos pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e foi o incentivador e idealizador do Programa Cotrel de Reflorestamento, ele veio da região de Carazinho para desenvolver a atividade florestal no Alto Uruguai. “Pois em 1992 ainda se queimava nas caldeiras lenha nativa, e havia uma moratória de 5 anos, dado pelo IBAMA, para que as empresas apresentassem seus programas de Fomento Florestal”, comenta. Ele continua trabalhando na atividade florestal e ervateira da região e Estado.

Mais rentável a soja

“Com o boom da soja muitos produtores rurais estão substituindo os eucaliptos por soja, por lavouras, assim como os pinus e, inclusive, erva-mate e pés de laranja. O preço da soja está atrativo e é muito mais rentável que a madeira. E com um grande agravante, que é a falta de mão de obra para trabalhar no campo. É muito difícil conseguir pessoas para trabalhar, seja na preparação da área, plantio, corte e derrubada. Até porque é um serviço braçal e no interior é difícil encontrar pessoas para trabalhar nesta atividade”, explica.

Ninguém planta mais eucalipto

O engenheiro florestal comenta que faz 9 a 10 anos que ninguém planta um pé de eucalipto na região. “Os preços estão defasados, já faz 10 anos que os preços são os mesmos, em torno de R$ 62 a R$ 64 o metro estéreo da lenha. Há uma década já havia chegado a R$ 72, ou seja, os preços se mantém, mas o custo aumentou em todos os sentidos, combustível, mão de obra, mudas, adubos, assim, a atividade não está mais remunerando”, observa.

Além disso, normalmente, o produtor depende de terceiros para cortar e transportar a madeira. “E quem faz parceria para esse tipo de negócios quer 70% do valor da madeira, então, dos R$ 62 eles pagam R$ 15, no máximo R$ 18, para o produtor, e cortam, carregam, transportam e entregam. Assim se tornando inviável a atividade e, por isso, que ninguém mais planta. Não tem retorno”, afirma.  

Da mesma maneira, conta Ferron, faz mais de 12 anos que ninguém planta um pé de pinus. “E ele não tem utilidade a não ser que seja madeira com mais de 30 centímetros de diâmetro, e como as florestas não foram manejadas é difícil encontrar árvores com mais de 30 centímetros mesmo com 20 anos. É também uma madeira desvalorizada, sendo que os madeireiros pagam R$ 60 o metro. Subiram os valores porque estão vindo empresas de fora, por exemplo, Telêmaco Borba, 500 km, buscar pinus aqui e pagando R$ 120 a tonelada. Teve produtor que derrubou e enterrou a madeira porque não valia a pena vender”, observa.

Escassez à vista   

Ferron ressalta que todos esses fatores estão acarretando a escassez da madeira na região. “Muitos produtores trocam a madeira pelo destoque, e com isso estão limpando as áreas”, disse.

Ele explica que um ciclo do eucalipto já se foi, nove anos completos, e o consumo já está acima de 2 mil hectares por ano na região e com todas as derrubadas vai escassear. “Daqui uns 4 a 5 anos o preço da madeira vai subir bastante, já dá sinais, pela falta, e assim se tornará um negócio mais atrativo, mas eu acredito que quem saiu fora deste negócio não vai mais voltar, porque as áreas foram transformadas em lavouras”, destaca.  

De 1992 aos anos 2000 grande parte do plantio de árvores foram em áreas dobradas, acidentadas, e na época não tinha colheitadeiras e tratores traçados, que podiam trabalhar em declividade de 30% para plantar e colher. “Acima de 45% de declividade é muito difícil plantar e colher, então, as áreas de 20%, 25% a 30% os produtores estão derrubando e fazendo lavouras, reduzindo cada vez mais as áreas de reflorestamento. E como os preços não compensam, o pessoal não vai mais plantar árvores, pela escassez de mão de obra, valor da madeira que continua desvalorizado, porque não tem perspectiva”, afirma.

Impactos

Ele explica que os negócios afetados diretamente envolvem, aproximadamente, 50 serrarias, 20 ervateiras, 5 frigoríficos, 1 curtume, 2 fábricas de balas, 5 fábricas de ração, 150 cerealistas - filiais que recebem grãos, entre outros consumidores de lenha - padarias, pizzaria, agroindústrias de cachaça, doces e conservas, olarias, aviários e chiqueirões, etc. “E mais, 3 fabricantes de maravalhas, pequenas marcenarias e fábricas de móveis e carrocerias”, afirma.

Ferron ressalta que é difícil precisar os impactos econômicos, o que se sabe é que centenas de postos de trabalho serão extintos, haverá queda na arrecadação dos municípios que mais reflorestaram como Aratiba, Três Arroios, Itatiba do Sul, Barra do Rio Azul, Erval Grande, Benjamin Constant Sul, Severiano de Almeida, Marcelino Ramos, Carlos Gomes, Floriano Peixoto. “Basicamente, os municípios da costa do Rio Uruguai, onde as terras são mais dobradas”, diz.

Além disso, os reflexos envolvem tudo o que vem junto com a cadeia produtiva da madeira: combustível, alimentação, oficinas mecânicas, entre outros. “Para cada caminhão de lenha que passava na estrada, antes dele teriam 10 trabalhadores”, afirma.

Problema geral

O engenheiro florestal salienta que esse problema não é só da região, mas geral, do sul do Brasil. “Para finalizar, acredito que daqui a 5 anos vai escassear a madeira e teremos que buscar em outras regiões porque aqui não vai ter. O preço tende a subir a partir do ano que vem, seja para lenha ou tora”, observa.

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